Restauração Arqueológica Santa Casa de Misericórdia

Prefácio

          A foto debuxa uma das reuniões que se realizaram para esboçar as diretrizes dos procedimentos técnicos convenientes, que se iriam a ter em conta para a restauração das obras de arte da ala norte da Santa Casa de Misericórdia de Bahia. O trabalho envolveu, além do forro e os azulejos do Salão Nobre, as pinturas de cavalete, esculturas de pedra e de mármore, imagens policromadas e os altares do Salão Nobre e da sacristia. Na reunião, estão presentes o artista e museologista Emanuel Araújo, que era o curador do projeto e Gian Luigi Colalucci, ex-diretor dos Museus Vaticanos e Diretor de Restauro da Capela Sistina.

            “O temperamento a adotar-se para as intervenções devia estar baseado em normas e conceitos convencionais modernos.  Porém era mister que em um país de dimensões superlativas como Brasil se cruzaram conhecimentos adquiridos nas diversas latitudes do território, referentes a época da conquista e do desbravado em que o antigo Hospital da Santa Casa de Misericórdia foi protagonista.”   


           Estudos arqueológicos realizados durante a restauração do forro do Salão Nobre da Santa Casa de Misericórdia.

            Para expressar alguns conceitos formulados a partir dos testemunhos encontrados entre as ruínas do antigo Hospital e as partes mais antigas da Santa Casa de Misericórdia, se classificaram os itens mais salientes, partindo dos remanescentes estudados entre 15 de Outubro de 2001 até 23 de Março de 2006, período em que se levou a cabo a restauração da ala norte do prédio. Neste espaço de tempo, foram provedores da Santa Casa o Dr. Álvaro Lemos e o Dr. Eduardo Valente que muito se empenharam no êxito do projeto.

            É impossível conceber uma restauração executada em obras quatro vezes centenárias dando as costas às exigências éticas modernas e às técnicas internacionalmente requeridas. A especialidade obriga a respeitar o caráter científico-arqueológico, que não por acaso leva o nome de Restauração Arqueológica. Portanto, realizar trabalhos científicos relacionados com a conservação de bens móveis ou imóveis, deixando resultados magros em registros falhos ou pseudo-relatórios, reproduzindo o que já foi publicado, não pode se intitular restauração. Os informes incompletos baseados só em debates dialéticos ou que se restringem a compilação de dados históricos conhecidos e publicados por estudiosos da História, servem unicamente para serem incluídos nos fichários de identificação das peças, mas não podem considerar-se informes de restauração. Para atingir um caráter verdadeiramente científico, esses dados, que quase sempre carecem do referendo da verificação rigorosa o são insuficientes, devem considerar-se tentativos e serem enriquecidos com novas observações complementarias que no futuro não interfiram numa eventual seqüência da marcha investigativa. Por sua vez, as conclusões da investigação devem estar dirigidas a um possível revisionismo para que os museus e as instituições, que segundo a Museologia Contemporânea (de preceitos recomendados pela Unesco), possa cumprir com uma de suas funções elementares: A divulgação escrita que impeça o esfumado das reminiscências. A maior confiabilidade da História se apóia nas evidências manifestas da Arqueologia, e não são estas as que o fazem nas daquela. Isto não significa que o estudo da antiguidade não deva contar com as conclusões dos historiadores e dos documentos fidedignos. No entanto, cada vez mais à medida que o espírito analítico se foi desenvolvendo sobre bases mais firmes, os textos foram considerados unicamente como auxiliares úteis para dar ao estudo dos objetos antigos, a devida orientação. Porém, a Arqueologia foi limitando sucessivamente o campo de sua atividade para privilegiar a investigação e análise dos objetos em si mesmos. Ou seja, que ainda havendo-se limitado o campo de ação desta ciência pela especialização, os objetos materiais que nos legaram os tempos passados são tão diversos, que aquele resulta vastíssimo como para que as próprias restaurações cujo critério exige que o resultado delas seja “harmoniosamente perceptível”, adotem o título que associa a “Restauração” com a “Arqueologia”.

            Até aqui foram vistas as razões pelas quais, ao tempo que se levava à cabo a restauração do forro do Salão Nobre, se realizara um consciencioso estudo dos materiais antigos. Nas peças de verdadeiro valor arqueológico, se processaram exames analíticos com farta documentação das observações, dos registros instrumentais e das verificações finais. Nesta metodologia em que também se fizeram experimentos e se induziram princípios formulando teorias, muito teve que ver o prévio estudo do conjunto dos documentos antigos, originais da Santa Casa, compilados pelo historiador Carlos Ott, que foram oportunamente cedidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional. A orientação partiu das indefinições, inexatidões e contradições encontradas nos diversos autores, mas principalmente, no caráter conciso dos assuntos técnicos importantes.

           O monge beneditino, pesquisador Dom Clemente da Silva-Nigra, por exemplo, depois de realizar um exaustivo trabalho sobre a obra do notável arquiteto Frei Macário de São João, quem em 25 de junho de 1654, se avocava a supervisão dos detalhes do frontispício e interiores da Igreja, e do claustro da Santa Casa fez a seguinte ressalva: “Discordamos em muitos pontos da interpretação dos documentos originais, publicados pelo estudioso Prof. Carlos Ott, sobre a Santa Casa de Misericórdia. Como o autor não conseguiu localizar o destino das quatro grandes colunas monolíticas, nem se lembrou da possibilidade da existência de um pórtico, a sua posterior explanação ficou bastante prejudicada”. (Dom Clemente da Silva-Nigra, Os dois escultores, Universidade Federal da Bahia, BA-1971).

           Por outro lado, ao pesquisar nos documentos da Santa Casa, o próprio Ott percebe que os documentos “por estarem muitos deles carcomidos pelas traças e outros com folhas faltantes ou rasgadas a verdade havia ficado comprometida e, em casos, menoscabada”.

           Em realidade mal podiam encontrar-se as colunas monolíticas que sem dúvida, haviam existido na Igreja, porque, como era de costume nas obras arquitetônicas de envergadura referidas a modificações, não existiam desperdícios. As peças removidas eram aproveitadas, geralmente reestruturadas e remanejadas na nova construção ou dadas como parte de pagamento às próprias empresas construtoras. Como se vê no assento redigido na Santa Casa em 1º de Novembro de 1656, quando se decidiu a demolição da Igreja antiga, levantada por Men de Sá, para ser modificada por estar “muito danificada”, a cantaria sofreu esse destino, como se vê no seguinte documento, como parte de paga aos mestres que a demoliriam se entregaria “toda a alvenaria que houver na Igreja, bem assim toda a cantaria lavrada”. Entre outras coisas, o referido documento diz : “A parede há de ir hum degráo de cantaria e a porta principal della, e frontespicio ha de ser assinada pelo Provedor [Antonio da Silva Pimentel] e dos ditos mestres [Francisco de Magalhães e Pedro da Fonseca] e toda a obra que fizerem de alvenaría se lhes pagará a cuatro mil reis e setecentos a praça, pondo elles ditos todos os materiaes e servicios necessários, e para que o possão mais comodamente, lhes larga o dito provedor toda a alvenaría que ouver na Igreja velha para que elles a derrubem e se aproveitem della, sem se lhes descontar por isso couza alguma, e toda a cantaría da obra, e mais partes que levar moldura se lhes pagará por cada vara conforme se costuma medir, dois mil e seiscentos reis, com declaração, que elles serão obrigados a por a cantaria em carregadouro no pé de guindaste, e dali até o lugar da obra a custa da Santa Casa os carretos e a cantaría.”

           Como se verá mais adiante algo similar ocorreu com o bronze dos sinos antigos.

I - Igreja da Santa Casa de Misericórdia da Bahia em 1653

           O projeto da reconstrução da Igreja da Santa Casa de Salvador, seguindo o traçado idealizado pelo notável arquiteto beneditino Frei Macário de São João, foi decidido no “Consistorio da Casa da Santa Mizericórdia”. A decisão foi tomada em 1653 devido ao fato de que a Igreja construída em “pedra e cal” pelo terceiro Governador Geral do Brasil, D. Mén de Sá, entre 1557 e 1572, “estaba muito danificada”.

           O documento de 1° de Novembro de 1653, conservado no Arquivo da Santa Casa, diz:

           “Ao primeiro dia do mez de Novembro de mil seiscentos e cincoenta e três annos nesta Cidade de Salvador no Consistorio da Casa da Santa Mizericordia estando em Meza o Provedor Antonio da Silva Pimentel e mais Irmaos  Concelheiros, se ajuntou a Irmandade e sendo junta pelo Provedor della lhe foi proposto que a Igreja desta Santa Casa estava muito damnificada(...) e que convinha a autoridade desta Santa Casa, e ao Culto Divino della, porquanto o Irmão Antônio Dias Ottoens deixara algunas esmolas para se repartirem em obras pias à eleição do Provedor e mais Irmãos, e nenhuma o era tanto como tratar-se do ornato da Igreja, ele dito Provedor determinára com parecer da Mesa facer algumas benfeitorias como era o arco da capella e o Côro lançado da banda de fora [nome dado a galilé], o que sabido por alguns Irmaos estranharão fazerem-se as tais obras sem remediar que a Igreja tinha de capacidade porque sempre ficava [pequena] pelos erros que teve a principio e parecia melhor que à despeza que se había de gastar (...) no era mais que remendo e impossibilitar o zello de quem a quizesse fazer maior, parecía mais conveniente gastar a dita quantía em principiar huma Igreja nova que fosse capas para a Irmandade nos dias solemnes de suas festas, porquanto a elle dito Provedor le tinham chegado a notícia destas coisas que se dizião quería obrar cousa alguma sem parecer de toda a Irmandade, lhe propunha comno logo propoz todas as razoes referidas, e lhe pedio que quizessem dar seu parecer neste particular o que lhe parecesse mais conveniente assim ao Culto divino como a  autoridade desta Santa Casa, e logo por todos os Irmaos uniformemente foi dito que consideradas as razões propostas(...) lhes parecia mais acertado e conveniente principar-se o edifício da Igreja nova, porquanto, a que estaba feita por ser pequena tudo o que se fizesse nelha era gastar dinheiro sem proveito, e por todos concordarem neste parecer, o dito provedor mandou fazer este assento em que todos asignarão com elle e os Irmãos Concelheirosem Meza, e eu o Capitam Belchior Barreto escrivão desta Santa Casa que o escrevi e assignei”.  Firmam : “O provedor Antonio da Silva Pimentel - Belchior Barreto - Amaro Baptista - Jozé Falcão de Souza - Antonio Fernandez - João Pixoto Viegas - João Alves - Domingos Aragão de Araújo - Bento do Vale Ribeiro - Antonio de Souza de Andrade - Estevão da Cunha de Sá - Francisco de Amaral - Gonçalo Pinto de Freitas”.

           Os achados recentes permitiram constatar a existência da “galilé” desenhada pelo Irmão beneditino Paulo Lachenmayer, publicado pelo monge beneditino D. Clemente de Silva-Nigra em 1971 (foto 001 e det. 002). Neste desenho tentativo se reproduz o frontispício com a galilé. No interior se observa que além da porta principal, existia uma lateral que seria a única nos flancos. É importante assinalar que a planta correspondente ao segundo coro só foi construída quando da decisão de uma nova intervenção, depois da doação testamentária deixada pelo benfeitor João de Mattos Aguiar, morto em 26 de Maio de 1700. Tal intervenção se cumpriu em 1720, cinqüenta e quatro anos após a morte do Frei Macário que ocorreu em 1676, quando se construiu o coro alto, se levantou o forro e se eliminou o pórtico e a galilé. Somente dois anos mais tarde se azulejaram os muros laterais e se instalaram dois painéis que se situam em torno da porta principal. Estes representam as figuras de confrades alabardeiros mascarados, preparados para levar a cabo missões caritativas que sempre deveriam guardar um sigilo total. (era este um costume cuja antiguidade se remonta ao ano de 1244, quando a “Cofradia da Misericórdia” de Florença foi fundada). Foto 003

           No excelente trabalho de Lachenmayer existem dois conceitos equivocados. O primeiro deles se refere a porta lateral da galilé, que segundo ele se comunicava com a entrada ao Hospital. No entanto, a única passagem lateral deste espaço se encontrava em comunicação com o claustro, ou seja, na direção Leste. O segundo tem haver com a parte alta da igreja, que na realidade era inexistente, já que a planta mais alta se encontrava ao nível do coro.

           Segundo o exaustivo estudo realizado por Dom Clemente Maria da Silva-Nigra o frontispício da Igreja contava com um portal de três arcos de médio ponto com “as collunnas da porta inteiriças com suas bases e capitel assentadas na obra do frontispício da maneira em que estão na trassa pagaria a Santa Casa por ellas quatrocentos mil réis que são a cem mil réis cada”. Além disso, já existia o nicho que foi posteriormente aproveitado para a nova fachada. Na parte superior haviam “dois cartões” e, em um plano mais alto havia uma cornija com tímpano clássico é óculo.

           Isto significa que na prática, nesta época a Igreja idealizada por Frei Marcário de São João perdia as principais características prístinas do Renascimento colonial. Segundo assinala Sívio Bocanera, quiçá o sinal mais saliente à vista desta mudança tenha sido a desaparição da modesta torre com sua cúpula branca de tijolos. (Bahia Epigráfica, pág. 395-396). O acréscimo da torre só foi concluído em 1728 e os indícios da reforma ainda podem ser vistos no interior dela. A torre de Frei Macário estava armada no clássico címbrio de “meia laranja”. Como se observa no trabalho de Luiz dos Santos Vilhena, publicado em 1802, tinha em sua cúspide um cata-vento de grimpa de formato simples. Esta torre, como o observam em consenso os historiadores, desaparecia nas paisagens em que se divisavam outros cocorutos que caracterizavam o perfil de Salvador. Já a partir de 1720, a torre não só se fazia visível como também se destacava por seus azulejos coloridos e principalmente por seu estilizado porte. A agulha alcançou uma altura considerável, ganhou uma bordadura de balaustres e complementando, dois sinos novos foram mandados fazer quando a torre ainda não havia sido concluída. O encargo diz: 

           “Aos quince días do mes de março do anno de mil setecentos e vinte e oito estando em meza redonda na Caza do Consistório da Sta. Mizericordia nesta Cidade do Salvador Bahia de todos os Santos o provedor della o muito Reverendo Chantre o dezembargador João Calmon comigo escrivão e mais Irmãos consilheiros da Meza asignados foy proposto pello dito Irmão Provedor hera precizo mandar facer umsino grande e houtro mais pequeno para servirem na torre que de novo se estaba fabricando tanto por ser incapas o conque hactualmente se estava servindo coanto por depender ha dita torre que antigamente servia; e por coanto havia na terra um artifice pirito na fundição de sinos o que bem habia mostrado em varios que havia feito com notavel satisfação geral agrado de todos; se devia mandar chamar para com elle se ajustar a forma com que se havião de fabricar os tais sinos: e com efeito foj logo chamado o tal fundidor Alexandre Ferreira da Rocha e sendo-lhe proposta a dita obra depois de varios debates que houve risiproquamente se vejo hajustar os treis [aparentemente, até o dia de hoje não existiram neste número] a saber hum grande de vinte e coatro harrobas e outro pequeno de seis harrobas pouco mais hou menospagando-lhe a Caza de feitio a rezão quatorze vinteis ha libra dando-lhe o metal [dos sinos da antiga torre] e no que elle puzer de mais no cazo que não chegue o que lhe der a Caza lhe satisfará ha rezão de quinhentos e sesenta reis ha metade pello feitio e houtra ha metade pello metal”.(Asignan Reverendo Provedor João Calmon, Hieronamo de Castanheda de Vasconcelos, Ignacio Barboza Machado, Pedro Soares Ferreira, Ignacio de... Pereira Góes, João de Miranda Riveiro, Antonio Romão de Andrade, Manoel Rodrigues de Araujo, Francisco de Tavares, Vicente Rodrigues Pimenta, Joseph Riveiro de Mendoca, Francisco Lopes Gomes, Alexandre Ferreira da Rocha [fundidor]).

           O lineamento do frontispício idealizado por Frei Macário de São João (Quadro 004) foi recriado a partir de fontes documentais contemporâneas à época e das pesquisas arqueológicas realizadas em 2005, durante a primeira etapa do restauro. O templo contava com um prostilo de três arcos, quatro colunas monolíticas com plintos e capitéis, e sendos cancelos fechavam o espaço entre o portal e a porta de acesso à nave. Desta maneira ficava constituída uma galilé que, por encontrar-se na área correspondente à parte baixa do coro, nos documentos é mencionada como “coro lanzado da banda de fora”. Ou seja, sobre o muro posterior da galilé se assentava a parte dianteira do coro; na época não existia o segundo coro. No espaço da galilé, que para a arquitetura configura um átrio, existia, além da porta principal, outra lateral que dava ao claustro. As folhas da porta principal estavam confeccionadas em jacarandá e se encontram armadas com um “engradamento” contendo quatro almofadas, constituídas por três placas, fixadas com quatro cavilhas cilíndricas de jacarandá, cujas bases se podem perceber na parte dianteira. Na foto 005 pode ver-se o portal da atual fachada da Igreja e na 006 se vê o seu acesso, onde aparecem o Dr. Antônio Ivo de Almeida, Secretário Geral da Santa Casa de Misericórdia e Gian Luigi Colalucci, Ex-Diretor dos Museus Vaticanos e responsável pelo restauro da Capela Sixtina, no dia em que se deu início a restauração em Bahia. 

           Na foto  007 se observam detalhes do nicho Renascimento projetado por Frei Macário de São João e na 008 se vê o aspecto da Igreja em 1920. Na época da antiga Igreja, era esta um dos templos mais elegantes da Bahia e contava com uma iluminação branca gerada à base de “azeite de peixe” (óleo de baleia). Desta época são as Memórias deixadas em quatro cadernos manuscritos por Anna Ribeiro de Góes Bittencourt, dama da sociedade mais distinta do Recôncavo, alguns de cujos membros, conforme se vê pelas assinaturas dos documentos transcritos, faziam parte da própria Mesa da Santa Casa. Nestes testemunhos diretos se recriam os passeios da autora, quando ainda moça, passeava em “cadeira de arruar levada por possantes negros africanos”. Estas Memórias revivem nas seguintes palavras:

            “O traje das moças era menos severo: dispensavam o véu e traziam, sobre o vestido preto, uma renda que descia da gola quase à cintura, fechada na frente por um laço de fita. Só minha mãe, que se considerava velha embora só tivesse trinta e sete anos usava o véu. A igreja que mais me agradou foi a da Misericórdia. A ceia de Jesus e dos Apóstolos representados por imagens belíssimas de tamanho natural, sentados ao redor da mesa que parecia provida para uma verdadeira refeição, encantou-me. Do corpo da igreja víamos as órfãs nas tribunas. Eram pelo maior parte raparigas de cor; havia poucas brancas, e ouvi diversas pessoas notarem a beleza de algumas”(Maria Clara Mariani Bittencourt, da Fundação Clemente Mariani - Longos Serões do Campo).

            Já em 1718, a fachada da Igreja foi novamente modificada : as cartelas haviam sido substituídas por duas janelas e o pórtico se havia transformado em uma porta simples, que dava acesso à nave. Para Dom Silva-Nigra, que havia ponderado tanto o livro como o descobrimento de Carlos Ott, deve ter sido exasperador que se houvessem perdido documentos sem que o historiador da Santa Casa pudesse localizar o destino das quatro grandes colunas monolíticas do portal.

            As pesquisas realizadas durante a intervenção atual, trinta e cinco anos após a publicação de Silva-Nigra, foram encontrados soterrados dois importantes testemunhos da antiga construção de 1657: um suntuoso leme de gonzo de um cancelo que na atualidade, apresentava importantes perdas ocasionadas pela corrosão, e uma almofada pertencente a uma grande porta de madeira de jacarandá, cujas outras partes foram fortuitamente encontradas a posteriori.

            Pela antiguidade e singularidade das peças, sem igual nos edifícios da época e o fato de haverem permanecido no prédio, indicam sem sombra de dúvidas que sua origem não pode ser outra que a galilé daquela Igreja “trassada” pelo insigne “Irmão Beneditino”.

Características das peças -

1.      Almofada da porta

           O descobrimento da almofada de madeira de jacarandá (Dalbergia nigra) soterrada dentro da área das ruínas do antigo Hospital foi completado com o achado das portas que haviam permanecido encobertas por grossas camadas de pintura. Este fato se deu a partir de fotografias tiradas no momento do desabamento ocorrido em 18 de agosto de 2002. As principais peculiaridades estão relacionadas com sua confecção : está armada com tábuas superpostas, emparelhadas a enxó e fortemente unidas por quatro cavilhas grandes. A tábua maior, onde se fixam as outras duas apresentam em suas beiradas uma profunda “fenda de ensamblado” onde penetravam as “espigas” da engradagem da porta. Ou seja, que a tábua maior faz parte da armação da porta e seu envés pertence ao interior da porta. Em uma das laterais da peça se conserva um fragmento da lingüeta de encaixe com restos do engradado. Este encaixe pertence à caixilharia, e sendo também de jacarandá indica que toda a porta havia sido construída em tal madeira. Este é um fato curioso, uma vez que esta espécie era empregada usualmente em mobiliário, enquanto que a madeira mais apreciada para a confecção de portas suntuosas era a canafistula (Cassia ferruginea Schrad), na época chamada de “gitaipeva”. A porta do hoje Salão Nobre, por exemplo, foi construída sob alto custo nesta madeira.

            O acórdão surgido em reunião dos mesários da Santa Casa com o mestre carpinteiro Pedro Fernandes diz:

           “Aos vinte dias do mes de outubro de mil e seiscentos e noventa e três annos nesta cidade de Salvador Bahia de Todos os Santos e Caza do Despacho do Consistorio da Mizericordia, estando em meza redonda o Provedor della Pedro Unhao Castello Branco, Dezembargador da Relhação deste Estado comigo Escrivão abaixo no meado e os mais Irmãos Conselheirios foi proposto pello dito Provedor que era muito conveniente e necesario ao servicio desta Caza pella falta que avia nella de huma sacristia e caza para se recoller os paramentos e alfaias da proçição e mais cosas do serviço deste Consistorio fazer-çe na Casa que fica fronteira da rua que corre sobre o passaportas para as janellas e para as portas que de dentro da dita Caza e que são duas e assim mais portas as janellas que da dita Casa correm pello adro da Seê te chegar ao Consistorio o que visto pello dito Provedor e mais Irmaos Conselheiros votaram uniformemente que herão contentes e de muita utilidade se fazerem as ditas portas de gitaipeiva nas formas das deste Consistorio e que se desse a dita obra a Pedro Fernandes mestre carpinteiro para fazer de suas maos de que se lhe pagará por conta da Caza por mão do Irmão Thezoureiro que no tal tempo servir e de como se obrigo a fazer a dita obra asinou com o dito Provedor e mais Irmaos Conselheiros comigo Escrivão Francisco Barroso Vianna que o escrevy e mandou mais o Provedor sertidão jurada aos Santos Evangelhos para desta sorte aver seus pagamentos e de como se mandou facer esta declaração eu Francisco Barroso Vianna o sobrescrevy e asiney.(Assinam) Provedor Desembargador Pedro de Castelbranco, Francisco Barroso Vianna, Antonio de Barros, Gabriel Barboza Lobatto, Mathias Rodrigues Ferreira, Manoel de Souza Araujo, Bartholomeu Nabo Correa, Sebastiam da Silva Teixeira, Joseph Manem.

           As fotos  009, 010 e det. 011 mostram ambos os lados da almofada tal como foi encontrada. Curiosamente esta resistiu indene ao soterramento e aos ataques biológicos, e na 012 se vê a peça já limpa. A foto 013 mostra o momento em que se aplica a cera fóssil (ceresina). Podem ver-se as quatro cavilhas cilíndricas que mantém unidas as peças tabulares de que a almofada se compõe. Em 014 e 015 aparecem duas posições da almofada já tratada.  As folhas da porta principal estavam confeccionadas em madeira de jacarandá e armadas com um engradamento contendo quatro almofadas constituídas por três placas encavilhadas. Nas fotos  016 e 017 se pode comparar o cavilhado, muito comum na época, com um encaixe similar existente em uma mesa conventual quinhentista, também de jacarandá. Em 018 pode ver-se um detalhe da almofada com um resto da caixa do engradamento da porta dando a pauta da modalidade do armado.

           Nas fotos  019 e 020 é possível se observar as duas folhas da porta que foi encontrada com posterioridade. Na segunda pode se notar a falta da almofada e a foto  021 mostra o subsolo onde foram achadas as duas folhas (flecha).

           É importante levar em conta que os poucos restos originais do hospital foram encontrados nas plantas subtérreas, sendo que do nível do solo somente despontava um grosso muro de 60 cm de espessura, foto  022 e no det. 023 podem observar-se os ajuntoiros ou perpianhos de inserção no muro (agora inexistente), que dá à Ladeira da Misericórdia. Na época estes ajuntoiros eram chamados tições (Cônego Raimundo Trindade - Revista do D.P.H.A.N. - nº 17).

           A foto  024 mostra a planta superior do Hospital que era a mais nova, pouco antes do desabamento. No extremo esquerdo da imagem se vê o único muro antigo que alcança essa planta. Na foto 025 se vê o Hospital, em 18 de agosto de 2002, dia em que começa a desabar, observe-se na foto  026 que o telhado já tinha começado a cair. Na 027 se vê a quina rebaixada  de um dos muros antigos que ainda se conserva. Era o limiar de ingresso ao nosocômio. Pode observar-se que as rochas todavia não eram estereotômicamente entalhadas. Estas pedras de cantos arredondados eram chamadas “cabeça de negro” e formavam parte dos muros mais antigos da cidade de Salvador. Exemplo disso se encontra no resto de um muro lateral, à esquerda da Igreja da Nossa Senhora da Barroquinha. A foto  028 mostra em sua parte central os possíveis restos do cercado que fora descoberto no curso da restauração da igreja, pela engenheira Nadir Franco Lima e se acredita pertencer ao resto de uma das cortinhas do cerco da cidadela de Tomé de Souza, que defendiam a praça junto a Porta de São Bento. Na foto  029 se vê um dos tantos remansos da orla marítima de Salvador que proporcionava estas rochas roladas em abundância, na época chamadas jacareacanga, termo Tupi derivado de cabeça. A foto  030 e det. 031 mostram um dos escassos empedrados primitivos que ainda se mantém intactos na Rua do Bispo (Praça da Sé - BA).

2.      Leme de gonzo

           Pode-se afirmar que o antigo leme (parte móvel do gonzo) encontrado também soterrado, só pode ter pertencido a um ostentoso cancelo. Esta dedução se deve às suas dimensões avantajadas, ao sistema que corresponde a uma bisagra de “espigão e cachimbo”, ao caráter ornamental de seu desenho, e, principalmente pelo ângulo de 13.3 graus que apresenta seu espigão, com respeito ao “cachimbo” (peça fixa do antigo sistema, e que somente pode haver pertencido a uma cancela de ornatos vazados).

            Esta porta somente podia ser útil para a separação do espaço correspondente a uma galilé, espaço usado nos antigos templos, atualmente inexistente na Santa Casa. Esta pode ter sido dispensada com o objetivo de proporcionar um espaço maior (aprox. 4 m) que corresponde atualmente ao coro. Dessa maneira a nave ganhou uma nova dimensão e os muros laterais ampliados puderam ter sua azulejaria. A galilé era um local onde nos dias festivos mais importantes do calendário litúrgico se reuniam os membros das irmandades com os colonos. Ali se organizavam as procissões e se recebiam os prosélitos.

            As fotos  032 e 033 mostram por ambos os lados a peça tal como foi encontrada. Naquele momento pesava 3,3 kg e praticamente se achava em estado de desintegração, o que demandou de imediato que a peça fosse submetida a um processo de dessalinização.  Na foto 034 e det. 035 é possível se ver respectivamente a peça e o detalhe do espigão do leme já consolidado. No croqui 036 podem ser examinados com precisão os pormenores do gonzo.

            O processo de dessalinização consistiu em manter submersa a peça em água tratada com um deionizador de resinas aniônicas e catiônicas e filtros de carbono e de prata. O leme permaneceu durante três semanas neste processo, com a reposição da água a cada dois dias. Na consolidação se usou resina “epóxi” com o objetivo de garantir a aproximação à neutralidade.

           As fotos 037 e 038 mostram a arcada da magnífica Igreja de São Bento, projetada em 1649 pelo arquiteto Frei Macário de São João, e no detalhe 039 se observa um dos gonzos de São Bento, que como se percebe, tem uma similitude com o da Santa Casa. Porém o gonzo encontrado possui uma forma mais ricamente elaborada e sua dimensão é maior. De onde se conclui que os atualmente existentes em São Bento não são os originais da época, porém ainda conservando um estilo prístino, apresentam um sistema de pivôs, empregado em épocas posteriores. Na foto 040 é possível comparar os gonzos, percebendo-se a diferença na confecção deles. Observe-se que o pertencente à Santa Casa possui um formato muito mais aprimorado. O aço do qual é constituído, mesmo depois das perdas, é de uma espessura muito maior, superando neste aspecto a solidez dos gonzos atuais da Igreja de São Bento. Nela, alguns cancelos têm seus gonzos substituídos por peças modernas. Na foto 041 se vê uma peça substituída. Note-se que no extremo esquerdo existe uma emenda na madeira da porta-gelosia.

           Na foto 042 vê-se o gonzo do cancelo que dá acesso a escadaria da Santa Casa. Nele se nota que as características do espigão não coincidem com as do “cachimbo” fixo na jamba. Sua forma cônica invertida indica que se trata de um gonzo de construção mais avançada cujo cachimbo apresenta um sistema de lubrificação “cachimbo com chumaceira(era um sistema jeitoso para atenuar o eventual ruído produzido pelo roçamento). A foto 043 permite ver a excelente manufatura da gelosia dessa porta. A portada da escadaria de mármore foi instalada 12 de setembro de 1704, sendo Provedor o Coronel Pedro Barbosa Leal, e o momento em que se construiu o forro da loggia por ordem do Provedor Capitão Domingos Affonço Cetão em 21 de fevereiro de 1706.

           Gonzos simples se vêem na porta regrante disciplinaria ainda existente na Santa Casa ( fotos 044 e 045), que outrora guardava o acesso ao Hospital. Algumas destas peças são originais, que com o tempo sofreram muitas reparações, porém, ainda conservam suas características fundamentais. Em 046 pode ver-se a porta, e nas imagens geminadas 047 e 048 se comparam as faces inversa e reversa da espreitadeira, pela qual se prestava atenção às pessoas que acudiam ao hospital. 

II - Colunas e vigas do Hospital primitivo da Santa Casa

           A fundação do Hospital da Santa Casa de Salvador se perde nas brumas do tempo. Pode-se calcular, porém, prestando atenção nas datas de escassíssimos documentos que revelam sua existência, que o nosocômio teve início com o mesmo nascimento da cidade.

           Existem quatro documentos datados de 1549 que noticiam sobre a existência do Hospital. Dois deles tem haver com as “ordens de multas” que devem pagar-se “para as obras do hospital”, estas penas pecuniárias regeram desde 5 de outubro de 1549 (Documentos históricos, Vol. 37, Doc. 269, pág. 96 e seguintes) a 12 de Janeiro de 1550 (Vol. 37, Doc. 408, pág. 169).

           O primeiro dos documentos tem data de 5 de outubro e seu texto diz:

           “A cinco de Outubro de mil quinhentos, e quarenta e nove passou o Governador mandado para dito Thesoureiro que pagasse ao Provedor do Hospital da Cidade de Salvador novecentos reis em mercadoria, em que condemnou João Lopes Merinho da Nau Capitanea para as obras do dito Hospital, e que por elle com seu conhecimento lhe sejam Levados em conta”.

           O segundo documento está datado em 6 de Novembro do mesmo ano e manifesta o seguinte:

           “A seis de Novembro da dita era passou o Governador mandado em ausência do Provedor-Mor para o dito Thesoureiro, que pagasse a Diogo Moniz Provedor do Hospital desta Cidade de Salvador mil, e quatrocentos reis em mercadoria os quais eram do Soldo que haviam de haver Pero Gonçalves Bombardeiro, e Antonio Grumete da Nau Conceição a saber; ao dito Pero Gonçalves oitocentos reis do mez de Maio, e a Antonio Grumete seiscentos reis de dito mes em que foram condenados por dito Governador para o dito Hospital”.

           O terceiro documento é uma ordem datada de 14 de dezembro de 1549 para entregar à

           “Diogo Moniz Provedor do Hospital desta Cidade de Salvador testamenteiro, que é de Estevão Fernandes de Távora marinheiro da caravella Leoa, que nesta Cidade faleceu mil e oitocentos reis em mercadoria, que lhe eram devidos a dito defunto de dois meses Junho e Julho á razão de novecentos reis por mez”.

           Na realidade estes papéis comprovam que em meados de 1549 o Hospital já existia e estava organizado com Provedor e Mordomo. Este fato obedece a um costume que existiu em todos os nosocômios pioneiros de América que estavam vinculados com Irmandades Hospitalares. Entre os documentos gráficos da conquista do México destacam-se os desenhos do indígena Felipe Guamán Poma de Ayala. Alguns deles lembram a incipiente organização hospitalar em América. Nas foto 049 e 050 podem-se ver cenas sobre o ato do atendimento aos doentes levada à cabo pelas obras de caridade. Na primeira delas, titulada “Sta obra Misericórdia”, se observa os cuidados dispensados à uma paciente dentro de um recinto. A segunda está dedicada à “los maiordomos de La Sta ygreja y los cofrades-hospitales deste Reyno yn° pobre” (El transplante Social e Cultural - 1536/1810 - publicado por Guilhermo Furlong S.J.)

           Além dos documentos acima citados existe uma carta escrita em fins de agosto de 1552 pelo Padre Manoel da Nóbrega, dirigida ao Padre Simão Rodrigues, que se encontrava em Lisboa. Nela comentava as dificuldades de manter “Cassas de mininos nestas partes donde são muito necesarias: não se podem ter sem bens temporais e da maneira que esta casa [da Misericórdia] está fundada”.

           Na missiva, Nóbrega deixava explícito que ainda os meninos indígenas que ficavam doentes eram encaminhados à Misericórdia. No parágrafo 9 Nóbrega diz: 

           “Neste comenos achegou o Bispo [D. Pedro Fernandes Sardinha] tanto de nós e de toda a terra desejado ao qual achegaram logo as vozes dos murmuradores, e elle como zeloso e pai mo disse aconselhando-me o que devia de fazer. Ho que tudo posto em seu parecer, e comunicando com ho Governador e outros que muito em Christo nos amão, detreminamos escrever assi tudo largo a V.R. e entretanto que em nenhuma maneira desabrisse mão da cassa, a qual eu dava há Misericórdia desta Cidade, e que tivessem cuidado do meninos, ho que nem elles nem ninguém quizerão ac[e]itar.” (Serafim Leite S.I., Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil, Vol. I, pág. 405).

           Existe também uma carta do segundo Governador Geral do Brasil, Dom Duarte da Costa, pedindo a El-Rei de Portugal, Dom João III, assistência para o Hospital da Bahia. A missiva de D. Duarte da Costa, Governador do Brasil a D. João III Rei de Portugal datada em Bahia, aos 3 de abril de 1700 diz:

          “Deve Vossa Alteza também mandar provisao ao Governadores para poderem vender degredos aos homens cá forem degradados de humas Capitanías pera outras, ou pera as obras ou pera os bergantins ou comutar os ditos degredos e assim perdoar alguuns a algumas pessoas que seja mais vosso serviço nam irem comprir os ditos degredos e os preços que as partes aomde pagar sejam os que Vossa Alteza mandar ; e devía Vossa Alteza facer esmola e mercê do que pelos degredos pagarem ao Hospital de Nossa Senhora das Candeias desta cidade, porque hé muito pobre e tem muitas necessidades, porque se curam nele todos os enfermos assim os que adoecem na terra como os que vem nos navíos”. 

           (Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil T.II, pág. 210). O documento é revelador, já que Dom Duarte da Costa tinha chegado a Bahia em 8 de julho de 1553 para permanecer no Governo do Brasil pelo período de três anos (1553-1556), ficando claro que quando assumiu o Governo, o Hospital só pode ter sido idealizado por Tomé de Souza, que Governou o país desde a fundação da cidadela em 1549, até 1553. Porém é mais que provável que a assistência aos doentes tenha começado antes mesmo da conquista. Esta haveria iniciado com o próprio “boticário” da expedição de Tomé de Souza. Na época, geralmente as empresas marítimas oficiais ou não, contavam com um “boticário”, que se ocupava do atendimento dos doentes. No caso, o cargo pertencia ao castelhano Felipe Guillén, que além de possuir farta experiência na paramedicina e cirurgia praticada nas naus, era um exímio cartógrafo que havia inventado um meio engenhoso para determinar as longitudes com a agulha azimutal. (Referências de Guillén em 1525 e publicadas em 1531 por Fontoura da Costa, dão conta que “el primer inventor que procurase dar la longitud por esta diferencia fué um Felipe Guillen boticáriovecino de Sevila, hombre mui entendido e ingenioso (...) el cual com él se hubiese informado de algunos pilotos amigos suyos la propriedad de aguja de marear y de las diferencias que havia em el viaje y camino de Sevilla a la Nueva Espana, pensando en si, halló por sua cuenta que por esta via, mejor que por outra ninguna, se podia dar muy bien la longitud (...) y por esta imaginación se acordo de pasar em Portugal, pensando que alli seria mejor pagado della, y esto fué en el año 1525 e asi fué. (Alonso de Santa Cruz - Livro das Longitudes - publicado por F. da Costa - A marinheria dos descobrimientos - pág. 144-145).

           Pode deduzir-se que uma das cartelas, a mais antiga das que ainda existem na esquina da fachada da Casa de Misericórdia, pode estar relacionada com o antigo edifício do Hospital. Isto parte do estudo realizado nos relevos ornamentais, o qual abrange até os mínimos pormenores, a começar pelo símbolo da Divina Saudação “Ave Maria” sobre um campo acoraçoado ( foto 051) e o coroamento da cartela com a figura de uma cabeça de leão com as fauces abertas, representando a posse da Coroa. Quiçá seria esta figuração a que induzira ao historiador Carlos Ott a chamar as cartelas de brasão.

           Na foto 052 tirada a nível pelo Dr. Ivo de Almeida, se observa o grupo formado por duas cartelas e uma grande coroa, que deve ser analisado seletivamente. Desde a grande coroa, desproporcional em dimensões e fora do centro do coroamento, há uma sucessão de desajustes, começando pela primeira cartela, cuja coroa original já não existe. A cartela inferior e a grande coroa foram entalhadas no ano de 1695 quando se levantou este andar para abrigar a nova enfermaria de mulheres, setor fundado na segunda metade do dito ano, pelo provedor Antônio Maciel Teixeira, porém a cartela que evoca o Ave Maria é de confecção muito anterior e está elaborada em granulito (rocha efusiva) inexistente em toda a costa natural do Brasil. Ou seja, que as peças assim como os silhares laterais, que se observam na foto têm origem extraterritorial. A dureza do granulito permitiu que as peças se conservassem imunes às problemáticas condições climáticas da Bahia. Também a uniformidade granular determinou formas com superfícies mais aperfeiçoadas. Na foto 053 se vê um detalhe do símbolo da sublime saudação sob as faces do leão, representando o poder da monarquia. Por outro lado, nestas peças existem sinais inequívocos de haverem sido removidas de outro sítio, quiçá do mesmo prédio, e posteriormente recolocadas no lugar em que se encontram. No detalhe 054 se vê a junção de dois silhares. Na pedra superior, com sua aresta machucada, se destaca o branco do granulito com as suas micas negras (viotita) e branca (moscovita). Na pedra inferior (entalhada em arenito), ainda sendo muito mais mole, desmiuçante, e de acabado mais rústico, observando-se arestas perfeitas. Isto indica que a silharia de granulito foi machucada com as entalhadeiras e as pontas usadas quanto estas pedras foram tiradas de outras posições em que tinham sido cimentadas. No arenito pode-se observar uma perfuração de lavrado perfeito, que servia para introduzir nela as tochas que outrora iluminavam os atributos da Santa Casa nas comemorações litúrgicas, principalmente durante as solenidades de Semana Santa.  Nas fotos explicativas 55 e 56 se consideram as rochas das duas cartelas e as argamassas de diferentes épocas :

1) granulito (rocha eruptiva);

2) restos de cimento de pozolana e cal;

3) restos de cimento de cal hidráulica;

4) restos de cimento moderno;

5) arenito (rocha sedimentária do Cretáceo).

           Os detalhes demonstram que os silhares da primeira cartela estiveram situados em outra parte e foram assentados com diferentes argamassas. Da beirada inferior do granulito faltam esquírolas, que evidenciam o emprego de talhadeiras para retirar os compactos blocos da antiga localização.  Por lógica, prevaleceu a crença de que a cartela e silhares em questão tenham pertencido ao Hospital primitivo, fundado por Men de Sá e demolido entre 1653 e 1654. Do ponto de vista estilístico comparativo está claro que a peça de rocha eruptiva foi elaborada em uma época anterior, já que suas saliências se mostram próprias do Renascimento, ou seja, são menos proeminentes que as do Barroco, que prima no resto do conjunto alegórico. Deve-se também ter em conta que em todo o Brasil costeiro da época não existiam rochas vulcânicas. Isso leva a acreditar que os silhares de granulito foram elaborados fora do país, por exemplo, em Portugal, em cujas costas abundam as canteiras de rochas graníticas. (ver Adendo I). A foto 057 mostra o perfil da modinatura, e na foto 058 aparece sobre arenito a data de 1695, em que se rearmou o conjunto de peças, quando o então Provedor Antônio Maciel Teixeira, que tomara posse no meado deste ano, fundara a Enfermaria de Mulheres. Observe-se a imperfeição da talha do arenito pela eventual presença de um resto fóssil.

           O fato de que a construção de um hospital fizesse parte do plano fundador da cidadela obedece à lógica, especialmente tendo-se em conta que esta havia sido estrategicamente concebida com bastiões defensivos numa colina de contornos íngremes. É evidente que isto não podia ser diferente na Bahia, já que como aconteceu em outros lugares durante toda a conquista da América, o atendimento hospitalar foi prioritário.

           A limpeza profunda das pedras e a restauração delas foi o que permitiu a correta leitura da modinatura e também ajudou a corrigir alguns erros com respeito aos dizeres. Tinham estes levantado dúvidas aos historiadores, os quais a distância, haviam interpretado erroneamente  alguns detalhes das abreviaturas e, principalmente, a data. A altura em que foram instaladas as cartelas e em especial, a saliência avultada da cartela inferior e a degradação do seu arenito, também incidiram em equívocos. Por exemplo, o historiador Carlos Ott leu a data como sendo 1696 e depois, como 1695. Assim diz : “Se iniciou em 1691 a obra do novo hospital, do lado da esquerda da Igreja. As informações sobre esta construção são mais escassas. Mas temos no presente caso a inscrição, colocada a maneira de nicho de santo, freqüente em edifícios europeus, com o brasão e data de 1696. Como este escudo se encontra no segundo pavimento, podemos supor que em 1691 se começava a demolir o edifício do hospital antigo, que estava no mesmo lugar. Atacou-se logo em seguida a construção deste vasto e pesado edifício, chegando-se ao segundo pavimento em 1695, o que foi comunicado a posteridade através da inscrição, único documento seguro desta obra.”

           Como se vê no texto, se observam várias imprecisões com respeito ao Hospital, a utilização do novo prédio e como menos importante, a data e a natureza da própria cártula. Na foto se vê a imperfeição da superfície, devida ao fóssil e também a parábola acentuada do campo da cartela, dificultando a leitura correta. Estas presenças que impurificam os arenitos das canteiras do Recôncavo são freqüentes assim como também o são os sinais próprios de uma pedra que também se apresenta com características de rocha detrítica. A foto 059 capta o momento em que as cartelas são restauradas. As talhas de arenito foram severamente danificadas pelas chuvas salinas e, principalmente, pela destruição eólica. Na foto 060 se observa em detalhe a intervenção realizada no bordo de um rolo lateral da figura de Tritão, que coroa a cartela inferior. Em 061 se vê uma ombreira de conglomerado arenítico, da porta da sala do Provedor da Santa Casa e 062 mostra uma corrente de silhares do Forte Santo Antônio. Esta espécie petrográfica foi preferida nas antigas construções militares de Bahia.

Os restos do antigo Hospital

           O estudo minucioso das madeiras existentes no madeiramento da planta inferior do Hospital se fundamentou no exame dos restos dos muros e das madeiras hipoteticamente mais antigas entre as encontradas no local, e admitindo-se como verdadeiro o fato de tratar-se de que façam parte de peças priscas, foram separadas para seu estudo as duas únicas peças de características relevantes pela sua peculiaridade : uma coluna e uma viga que surpreenderam pelo peso específico relativo e a coesão de suas fibras e, especialmente, pela resistência ao processo de degradação biológica da madeira em si e dos cravos ou restos deles, já degradados. Tendo como fundamento prioritário a observação com instrumental óptico de precisão, se verificou que as superfícies das madeiras separadas, mesmo depois de suportarem os rigores da tempérie salina adversa, das contínuas precipitações tropicais e das vicissitudes do abandono de séculos, ainda conservavam múltiplas camadas de cal com incrustações de caliche, de diferentes espessuras, tonalidades e granulações ( fotos 063, 064, 065 e 066). Na última foto se percebe o perfil poligonal da coluna. Ambas as peças estavam confeccionadas em madeira de sucupira (Diplotrops sp.) espécie esta que durante a conquista resultou ser a mais apreciada pelos construtores que chegavam à Bahia. Prova da nobreza desta madeira se confere no testemunho deixado pelo Capitão Artilheiro Gabriel Soares de Souza. Ao referir-se a madeira de sucupira, Soares de Souza disse: não são arvores muito façanhosas na grandura por serem desordenadas nos troncos, mais tiram-se delas vigas, esteios e fusos para engenhos, a madeira é parda e muito rija [é tão] liada que nunca fende, e para ligação de navios e barcos é a melhor que há no mundo” (Gabriel Soares, Tratados descritivos do Brasil, escrito no ano de 1568 e publicada em dois volumes por Pirajá da Silva).

           É bom lembrar que o Capitão Simão da Gama de Andrade era um homem de Tomé de Souza que foi beneficiado pela sesmaria que ligava o porto com a mais importante fonte natural de água, sorte de força de autoridade da época. As bicas eram conhecidas pelo seu nome e proviam de água os navios que chegavam a cidadela. A propriedade incluía também os terrenos da Santa Casa e foram doados a esta a título do mesmo, em nome do Governador Geral Tomé de Souza. Não deve descartar-se a possibilidade de que Soares tenha intervindo nas primeiras construções, como o fizeram todos os pioneiros. Efetivamente, a característica natural da sucupira é ser muito pesada; a massa específica aparente (densidade), a 15% de umidade (g/cm³) é de 0,94 (ou seja, muito pesada).

           Durante o primeiro período colonial a sucupira foi muito utilizada, tanto no âmbito civil como no militar. Servia para a confecção de partes indestrutíveis, como os cascos de madeira das naus, até o momento em que as grandes embarcações passaram a ser construídas em aço. Nesse momento a espécie começava a escassear devido a grande demanda dos estaleiros e também ao excelente carvão que com ela se produzia. No sul da Bahia e no Espírito Santo (zonas em que abundava) sua produção caiu drasticamente, o que terminou inviabilizando sua exportação para a Europa.

            Na Santa Casa se construiu com ela o Hospital e, por exigência da mesa diretiva, se confeccionaram cambotas para o forro da Igreja. A coluna encontrada nas ruínas do antigo Hospital era oitavada, como muitas outras colunas que fizeram parte das estruturas das igrejas das reduções guaraníticas do sul  (particularmente da Missão de São Ignácio Miní). A foto 067 mostra a coluna no ateliê provisório da Santa Casa. No detalhe se percebe o perfil dela e na 068 se vê a viga atravessando o pátio do Hospital.

            Na atualidade a coluna pesa 48 kg e seu pé direito chega a 2,80m. Porém a característica mais saliente é que ainda conserva vestígios das diversas camadas de cal com pigmentos de diferentes cores. Esta peculiaridade indica que a função da cal não se limitava a manter assépticos os ambientes, mas também criava efeitos decorativos, que tendiam a alegrar os recintos. Nas  macro-fotos 069 , 070 e 071 se observam os cortes de enxó mostrando as inconfundíveis características da sucupira, que durante a pesquisa seletiva levada a cabo pelo Instituto se praticaram em todas as madeiras duvidosas que se extraíam das ruínas. A foto 072 mostra o momento em que as longarinas descartadas eram transportadas. Neste caso, a experiência permitiu identificar as inconfundíveis características da sucupira. Nas zonas em que ainda existem pigmentos, os pequenos restos de camada haviam sido danificados pela água pluvial, que incidiu durante centenas de anos sobre as madeiras. Chegou-se a verificar meia dúzia de estratos superpostos de cal, entre os quais aparecem capas pigmentadas (foto de microscópio 073). A crosta estava constituída por camadas de pintura de cal, com ou sem pigmentos, e na capa superior se verificaram resíduos de papelão. Nas fotos 074 e 075, obtidas com magnificação 400 X, se observam diversas camadas finas azuis, verdes, verde-azuladas e ocres, e nas fotos 076 e 077 aparecem camadas finas de cores com tonalidades anarquicamente dispostas.

           Todas as amostras de pintura antiga estudadas pertencem a pequenas partículas que se desprenderam das peças durante a recuperação dos restos após o desabamento. Alguns dos pigmentos foram analisados por microscopia Raman, verificando-se a presença de carbonatos de cobre (malaquita e azurita) e de cores ferrosas (amarelos) e férricas (vermelhos).

           Lamentavelmente, a descontinuidade dos restos de camadas pigmentadas superpostas torna impossível saber se na pintura a cal dos recintos do Hospital também existiam desenhos ou caracteres inteligíveis. O que está claro é que na Irmandade existia a inquietude por fazer dos recintos aminguados e lúgubres, ambientes o mais agradável possível, e que também as pinturas não somente recobriam o madeirame, senão também os muros. A foto 078 mostra o momento em que os fragmentos de pintura eram fixados para evitar o esmigalhado deles, e como conseqüência, as perdas.

          Entre os estratos de algumas amostras se verificou a presença de significativas camadas fuliginosas graxas. Estas poderiam ser depósitos produzidos pelas desinfecções que habitualmente se realizavam com densas fumaceiras especialmente em tempos onde as enfermidades infecciosas dizimam as populações. Nas micro-fotos 079 e 080 se vêem camadas fuliginosas obscuras entre camadas de cal pigmentada. Deve-se ter em conta que estes métodos sanitários foram praticados durante todo o período colonial e particularmente durante as epidemias incontroláveis do “colera-morbus”. No começo, a fumaça era obtida em braseiros acesos sobre os quais se espalhava feno das “esterqueiras”. Porém, mais adiante os braseiros produziriam abundante fumaça negra com a adição de “alcatram”, líquido pardo-escuro que além de ser empregado na assepsia dos ambientes mediante as emanações de sua combustão, se usou também na medicina, desde aproximadamente 1650. Não obstante isso, devido aos antigos surtos epidêmicos graves acontecidos em Salvador, a Santa Casa de Misericórdia, seguindo os passos de outros núcleos hospitalares dependentes de ordens religiosas, havia tomado medidas com respeito aos enterros das vítimas de enfermidades. Este fato é comprovado por dois documentos, o primeiro datado de 1775, alude à “creação de carneiros” e o segundo se refere à proibição dos sepultamentos no claustro. O assentamento de 1775 diz assim : “Aos dezenove días do mes de Março de mil settecentos e setenta e cinco annos desta Cidade do Salvador Bahia de Todos os Santos, e consistorio da Caza da Santa Mizericordia dela, estando em Meza redonda capitularmente congregados o Irmão Provedor actual della o Capitam Fructuoso Vicente Vianna, comigo Escrivão ao diante nomeado e mais Irmaos Conselheiros da Meza abaixo asignados. Foi proposto pelo dito Irmão Provedor, que sendo esta Irmandade da Santa Mizericordia tão ilustre e principal entre todas as mais desta Cidade, se achava sem hum cemiterio o carneiro, em que se sepultassem os corpos dos seus Irmaos defuntos, havendo para esse effeito lugar tam proprio , e accomodado, o qual era a Enfermaría Velha, que foi das mulheres, que fica por baixo da Sachristia desta Santa Casa, e occupa todo o vão della, aonde facilmente, e com pouca despeza se podia conseguir o fim da dita obra tão necessária, com a qual lhe parece cessará talvez a repugnancia, que há de virem a sepultar-se nesta Santa Caza muitos Irmaos que podíam lembrar-se della, deixando-lhe alguma esmola O que propunha aos ditos Irmãos da Meza, para que resolvessem a vista do que fica dito, se era justo fazer-se o dito Cemeterio. E sendo por elles ouvida a dita proposta, e ponderadas todas as crircumstancias, que occorião em semelhante materia, e as razoens apontadas pelo dito Irmão Provedor uniformemente assentarão, que não só era justa a dita obra, mas tambem se fazia muito necessaria, para que se mandasse fixar edictal, para acurdirem os Mestres Pedreiros, que a quizessem facer, dando-se a quem mais commodamente ficesse; e sendo com effeito posto edictal na porta travessa que entra para a Igreja desta Santa Caza, em virtude delle vieram a esta Meza algums Mestres Pedreiros, entre os quaes, o que mais se accomodou foi o Mestre Ignacio Anselmo de Goes, o qual se obrigou fazer o dito cemeterio na conformidade do risco, que se lhe aprezentou assignado por esta Meza, e pelo dito Mestre Pedreiro (...) mandou se commettesse ao dito Mestre Pedreiro a construcção do mencionado cemeterio na forma sobredita, por ser notória a sua pericia, e inteligencia que tem de semelhantes obras; outrosim se obrigou o dito Mestre facer, e construir o dito cemeterio com frontaes (...) e aboveda das sepul[turas], e com todas as mais circunstancias, que o risco demostra. E pelo que toca a obra de Carpinteiro que vem a ser, e forro, e o mais que lhe competir, por ser de menos entidade, se assentó fosse de hornal, e feita pelo Mestre Manoel Alvarez Campos, por se achar a meses com o taboado do dito forro, lavrado pelo dito Mestre”.(assinam : Provedor Fructuoso Vicente Vianna, Manoel do O Freire, Padre Francisco Jozê de Souza Pereira, Joachim Vieira da Silva, Jozê Lopes dos Santos, Manoel Alvarez Revello [que tinha sido chamado Manoel Álvares Campos], Ignacio Anselmo Goes).

            O segundo documento trata da seguinte portaria : “O 28 de maio de 1805, proibiuse enterrar os doentes falecidos do Hospital no claustro da Santa Casa, em vista de ficar debaixo do mesmo claustro a cisterna de cuja agua o Hospital se servia quotidianamente. Determinou-se, na mesma data, que ‘logo de fallecer qualquier doente o mande a enterrar no Semiterio que esta St. Caza tem no sitio da Caza da Polvora destinado para esse fim segundo o estilo praticado’, eos cadáveres deviam ser conducidos para lá na tumba, acompalhados pelo Capelão do Côro”.(Códice, Vol. 86 - Portarias 1776-1817).

            É importante assinalar que durante os trabalhos de restauração, no pátio do Hospital, junto ao lugar onde se encontrava o portão de entrada da “enfermaria das mulheres”, foi descoberta uma jazida de ossos humanos desordenadamente dispostos.

            Na mesma época, quando os madeirames dos tetos de construções importantes passaram a ser protegidos com a técnica chamada “cobrir de preto”, o alcatrão começou a ser usado na conservação das madeiras. A exigência de adotar esse cuidado se reflete em um assento que data da construção do forro da Igreja de Frei Macário, que diz assim: “Aos dous dias do mes de novembro de mil seiscentos, e cincoenta e seis anos nesta Cidade do Salvador Bahia de Todos os Santos no consistorio da Santa Casa da Mizericordia della estando ahi o Provedor da Santa Casa o Cappitam Francisco Fernandez mandou chamar ante si a João Henriques mestre de carpentaria e lhe disse se quería  fazer as obras da igreja nova desta Santa Caza de carpentaría a saber: o madeiramento da igreja nova com pernas de asnas e forrada por cima em preto [com alcatrão]  e seo forro por baixo de paineis grudados e suas molduras sobre couro o que será feito na conformidade que elle dito provedor lhe ordenar e mandar e todas as mais obras para que a dita igreja forem neseçarias tudo com todo o primor e bem feito sem que tenha falta alguma conforme a obra de modo que se não ponha dúvida alguma na perfeição...”. (Assinam o provedor Francisco Fernandes do Sim [ou da Ilha], que era Cabalheiro da Ordem de Santiago e o escrivão Francisco da Rocha Barbosa).

            Deve reconhecer-se que a proteção das tábuas e caibros com azeite de alcatrão de madeira, resultou ser altamente eficaz. Tanto que, com algumas adaptações relacionadas com a transformação do artesoado Renascimento, em Barroco, o forro pôde ser re-utilizado para o “ajornamento” da Igreja quando o mestre Antonio Gaspar, contratado pela Santa Casa “aos vinte dias do mes de Outubro de mil setecentos e vinte”, se obrigava a “facer toda a obra de Carpinteiro de que necessitace o telhado, assim da armação delle como todo o mais maderamento athe se assentar o forro em suas combotas que han de pregar nos tirantes; e otrosy seria mais obrigado a fazer o dito forro de volta na misma forma do risco, e planta que a Meza havia asignado sem diminuição alguma com todos os florões, e o mais concernente ao forro de volta; e que tãobem otrosy seria obrigado a envigar os dous coros  com suas [vigas] madres”. Assinam: “Provedor Gonçalo Ravasco Cavalcanty e Albuquerque - Antonio Rodrigues Lima - Manoel Álvares Pereira - João de Miranda Ribeiro - João de Oliveira Bastos - Manoel Gonçalvez Pinheiro - Andres Nunes de Mello - Miguel Cardoso de Saa - Joseph Machado do Pessanha - Antonio Alvares Silva - Manoel Barbosa de Lima - De Antonio X Gaspar da Rocha.

           No termo de resolução do mencionado documento, entre as directivas recalcadas em nota a margem da folha 130r se obriga ao mestre carpinteiro De Antonio X Gaspar da Rocha a fazer as cambotas de sucupira para o levantamento do teto e forro da nova igreja. O adendo do ano seguinte diz : “Em 30 de junho de 1721 se rezolveo em Mesa, ouvidos isso officiaes que assentase o forro sobre pernas de asnas; com declaração porem que se fizesse hum gforro de cotelho sobre ellas; e que as combotas fossem de socopiras;e nesta sorte se reforma esse acórdão, e em todo o mais fica em seu vigor”.

            A viga encontrada era originalmente de 5 m, possui os cantos ligeiramente chanfrados e se encontra profusamente cravejada com cravos e pregos de diferentes formas e tamanhos, que indicam inúmeras substituições das tábuas que serviam de piso à planta superior, na foto 081 se vêem as perfurações dos cravos, aumentadas pelo óxido. Na foto 082 podem-se ver cravos puntales e em 083 e 084, um cravo palmeta usado para fixar madeiras, e particularmente portas e janelas em cunhais.  Na última toma (revés da palmeta) se podem apreciar os detalhes do forjado, e na 085 se vê uma destas peças cravada na pedra, sustentando um paramento de madeira de maçaranduba. Nas fotos 086 e 087 se vêem diversos tipos de cravos encontrados nos substratos do Hospital. A analise do aço com que estão elaborados, e outros detalhes podem ser vistos no Adendo II.  As peças foram recolhidas no sítio.

           Em geral pode-se dizer que durante a conquista os construtores se valiam, eventualmente, das madeiras mais adequadas para levantar as vivendas, porém a necessidade levara os pioneiros a estudarem com precisão quais espécies vegetais madeiráveis conseguiam obter nas proximidades dos assentamentos. Isto se fez mais notório em Brasil onde as distâncias para o traslado tornavam o transporte praticamente impossível.

           Nas missões jesuíticas do Sul, as madeiras adequadas para as grandes construções das igrejas, foram substituídas por madeiras que não existiam na região Norte. Assim as colunas, algumas das quais foram talhadas em forma prismática octogonal como as primitivas do Hospital de Salvador, eram elaboradas com troncos gigantescos de madeiras sumamente duras. A propósito disso o Padre Jesuíta Joseph Cardiel, em Dezembro de 1747 deixou o seguinte testemunho: “cortam-se nos menguantes de invierno ums árboles muito altos e grossos chamados Tajivos e outros chamados Urundey, mas fortes que o roble de Europa para pilares ou forcões e outros de cedro e suas espécies, e de louro para tesouras, latas [caibros roliços], e tábuas. Secos já, se traem ao povo cada forcão com 25 ou 30 pares de bois, Hácence em lãs naves de enmedio y em donde há de ser la pared (Carta e Relación de las Missiones Jesuíticas de la Província del Paraguay annuas de 1747 – Pub. Pela Secretário da Cultura da Argentina em 1999).

           A partir da expulsão dos jesuítas, os povos das missões do Sul se transferiram para o Rio da Prata, levando com eles muitos detalhes referentes à construção primitiva. Nestas latitudes predominaram os artesões da madeira e principalmente do ferro e da “carpintaria do grosso e do fino”. Assim, em 1619, procedentes do Brasil, chegaram à Buenos Aires os primeiros carpinteiros lusitanos. Eram eles: Alfonso Carvalho e os irmãos Domingo e Manoel Antônio Castro. A eles se seguiram outros “maestros carpinteiros” portugueses que previamente haviam trabalhado no Brasil. Com respeito aos “ferreiros e confeccionadores de cravos” oriundos de Portugal, o historiador jesuíta Guillermo Furlong disse que “em Buenos Aires muchos eram lusitanos (...). Si eram lusitanos los más de los carpinteros em la segunda como em la primera mitad del siglo XVII outro tanto hay que decir de los herreros comenzando por Manoel Gonzáles, natural de la ciudad del Porto, en Portugal, y casado com uma hija de João Jurado, lusitano também e carpintero de valia. Gonzáles se caso em 1631 com Maria Martinez, criolo mas hija de lusitano. Lusitano era tambien Antonio Vieira, natural de Castanhera, em Portugal, y em 1643 llevaba ya treinta anos de residência em Buenos Aires (pág. 684).

           Ferragens coloniais de feitura portuguesa foram freqüentes na Buenos Aires colonial. Entre os desenhos publicados pelo arquiteto Vicente Nadal Moura, correspondentes às tranquetas da Casa de Exercícios Espirituais da capital Argentina, se nota uma elaboração similar a encontrada no antigo Hospital da Santa Casa da Bahia ( foto 088). Se compara o desenho de uma peça semelhante, da janela da Casa de Exercícios Espirituais de Buenos Aires, s. XV, com uma peça idêntica de uma janela do Hospital da Santa Casa de Salvador. Nas foto 089 e 090 se vê o mecanismo da peça, integralmente em ferro forjado.

Moleta de pedra

            Entre os objetos líticos encontrados nas ruínas do Hospital primitivo está uma moleta rústica de pedra, empregada para o moído dos pigmentos. É importante assinalar que as moletas já aperfeiçoadas se empregaram até o final do s.XIX, quando pela primeira vez as cores se ofereceram em bisnagas. Entre 1881 e 1883 o maestro Vincent Van Gogh, estando ainda em La Haya se depara com o branco em bisnagas de óleo, preparado para a tinta de imprensa. Numa carta a seu irmão Theo diz : “De novo trabalhei com tinta de imprensa. Esta semana tratei de mesclar a tinta com branco. Encontrei duas maneiras de fazê-lo e que podem servir com o branco, tal como sai do tubo ao óleo, e quiçá melhor ainda com o branco de zinco comum em pó que se pode conseguir em qualquer droguista; diluindo-o com água ráz que não atravesse esse papel não forma mancha como as de óleo do outro lado, dado que seca muito rápido e desaparece. A tinta de imprensa atua muito mais vigorosamente que a tinta Chinesa”. Porém, somente estando [o artista] em Arlés a sua pintura sofre uma metamorfose substancial. É indubitável que para essa mudança notável o gênio conta com novas cores industrializadas pela firma Tasset & l’Hote (da rua Fontaine de Paris). Tanto Tasset como l’Hote eram amigos ao ponto de chamar-los “Tios” (cartas a Theo 475 F). A firma tinha começado a moer os pigmentos à óleo usando métodos mais avançados e, pela primeira vez os apresenta em bisnagas. Assim as moletas rapidamente caem em desuso. Nesse momento, estes utensílios já eram de vidro maciço ou de porcelana.

            A Carta 508 enviada desde Arlés diz : “Meu querido Theo : Querias perguntar-lhe à Tasset sua opinião sobre a seguinte questão ? A mim me parece que quanto mais finamente moída é uma cor, mais saturado de óleo está. Mas não é preciso dizer que  nós não gostamos enormemente do óleo. Se se pintara como o Sr. Gerome e os outros efetivistas fotográficos, indubitavelmente pediríamos cores moídas muito finamente. Ao contrário, não nos desgosta que a tela tenha um aspecto tosco. Portanto, se em lugar de fazer moer a cor sobre a pedra sabe Deus quantas horas a moeram apenas o tempo que faz falta para faze-lo dúctil, sem ocupar-se tanto da fineza do grau, se teriam cores mais frescas que quiçá se enegreceriam menos. Se quer fazer uma prova com os três cromos, o veronês, o vermelhão, o mínio alaranjado, o cobalto, o ultramarino, estou quase seguro que com muito menos gastos teriam cores mais frescas e duráveis. Então, a que preço ? Estou seguro que isto se deve poder fazer. Provavelmente também para os “rojos” vivos e o esmeralda, que são transparentes.

            Agrego aqui um pedido que é urgente. Agora estou pelo quarto quadro de girassóis.”

            Outro especialista que posteriormente proveu de pintura à Van Gogh foi Tanguy, porém seu moído era menos apreciado e somente era usado dele algumas cores.

           Na Carta 699 F, de 29 de abril de 1890 em um pedido a Theo diz : “Agora me faziam falta necessariamente cores, que em parte poderás tomar no de Tanguy se está em apuros ou se tem ganas. Mas por suposto não tem de ser mais caro que o outro.” (o outro era Tasset, que tinha todos os predicados).

           As moletas utilizadas desde tempos imemoriais eram confeccionadas em pedras duras para resistir, não somente ao triturado dos pigmentos em pedra, como o lápis-lazúli, a malaquita e outros, senão também a micronização para o que se preferiam, as de calcários duros. Entre as rochas vulcânicas, a preferida pelos povos da antiguidade, tradicionalmente foi o pórfido, rocha sumamente compacta e dura.

           A moleta encontrada nos entulhos da Santa Casa da Bahia (foto 091) foi talhada em um seixo rolado de filito compacto estratificado e pesa 707 gr.

           Sua forma cônica lhe valeu o nome popular de Pão de Açúcar, termo adotado pelos moedores de pigmentos, que comparavam sua forma com a dos torrões ou pequenos blocos de açúcar que, na época, as usinas industrializavam para consumo doméstico, com este formato.

           A forma anatômica da peça encontrada está formada por três facetas perfeitamente polimentadas e uma posterior rústica se adapta perfeitamente ao punho da mão, sendo que sua base, levemente parabolóide, particularmente lisa, apesar de seu largo enterramento, ainda conserva partículas de um pigmento verde terra chamado verde Verona na Europa, que era o verde tradicional da arquitetura colonial. O assento parabolóide da moleta indica que trabalhava deslizando-se sobre uma pedra plana, porém levemente ocada no centro, ou seja, que operava em um sistema similar ao empregado pelos índios nos seus moinhos chatos chamados de fricção.

           As fotos 092 e 093 mostram o modo de empunhar o utensílio e na 094 se vê a base dele. Observem-se os restos de pigmento verde terra, sumamente empregado na época da colônia, ainda incrustados nos interstírcios. Na 095 se observam os veios do rolado sedimentário cristalino empregado. No croqui 096 se analisa tentativamente os cortes sofridos pela rocha rolada para chegar a forma do pilão, anatomicamente talhado. Na foto 097 se pode ver uma antiga moleta encontrada na Argentina (publicação Museu Juan Cornelio Moyano, da província de Mendoza). O utensílio está entalhado em pórfido verde.

           Numa prospecção realizada no forro da Sala do Provedor , ex “Casa do Despacho” pelo mestre marceneiro João de Miranda Ribeiro, se constatou que as nervuras existentes originalmente tinham sido de cor verde terra ( foto 098). Posteriormente, por desconhecimento, se pintaram de verde azulado e recentemente se repintaram de ocre pardo. O forro tinha sido construído por ordem do Provedor Reverendo Cônego Penitenciário, Chanceler e Desembargador da Relação Eclesiástica Dr. Francisco Martins Pereira.

III - Culturas de contato

            Ao abordar os processos dos conhecimentos surgidos em América durante o conflituoso período da Conquista, se torna árduo avaliar de forma nítida a evolução das culturas trazidas pelos europeus ao conjugar-se com as autóctones. Nem sempre se chega a conhecer de modo conclusivo a motivação que gerou a fusão, o processo de harmonização ocorrido ao longo do desenvolvimento e o tempo que levou para se instalar.

            É uma verdade que no tempo transcorrido entre o descobrimento e a organização colonial, mesmo sendo este relativamente curto, convulsionado e na maioria das vezes impreciso, confluíram cadenciosamente culturas geradas em uma volumosa informação oral ou escrita: por noções sólidas adquiridas pelo estudo sistemático dos europeus e pela milenar experiência natural dos povos aborígines. 

            Quando se estudam objetos ou materiais originais dos sítios arqueológicos em que se contataram e interagiram as diferentes etnias (que na América correspondiam aos europeus, índios e africanos), se descobre uma crescente interação sócio-cultural, que se deu a partir do momento em que os conquistadores e os desbravadores iniciaram sua missão.

            Durante os quatro longos anos em que se restauraram as Obras de Arte da Santa Casa da decana cidade de Salvador, se puderam registrar alguns dados vinculados a estas culturas confluentes. As observações foram cruzadas com dados fidedignos obtidos em outras partes do Brasil, que apresentam características arqueologicamente equivalentes.

            Orientados pelos jesuítas, os índios aprenderam diversos ofícios e técnicas desconhecidos por eles. Porém possuíam muitos conhecimentos ligados à sabedoria comum da natureza transmitida por tradição oral, desde seus ancestrais. Não somente chegaram a ser verdadeiros especialistas na confecção de canoas, armas e vivendas, mas também dominavam um conjunto de procedimentos ligados ao arte plumário, à olaria primitiva, ao entalhado em pedra e à fiação para a confecção de cordas usadas em diversas utilidades. Algumas destas eram: o amarrado de suas cabanas, dos paus à pique de suas tabas e embarcações, à confecção de seus arcos e de suas redes de pesca e também para manter aprisionados os inimigos durante as guerras tribais. As fotos 099 e 100 mostram desenhos do cronista, desbravador e “Bombardeiro de Bertioga” Hans Staden.

           Sob algumas circunstâncias, em muitas destas habilidades, haviam experimentado importantes progressos. No caso da cerâmica, por exemplo, antes mesmo da chegada dos conquistadores, o desenvolvimento obtido tinha alcançado um nível considerável. Posteriormente, com os progressos trazidos pelos jesuítas, que a seu modo se esmeraram em culturalizar mediante o ensino de ofícios e, particularmente naqueles em que os indígenas e os negros contribuíram com sua experiência, se consolidaram novas concepções que desembocaram na interação e associação das culturas.

A Olaria

            No caso da cerâmica, as melhorias incluíram a construção de fornos, para tijolos e baldosas ornamentadas e confecção de vasos, estatuetas, fornilhos para cachimbos e contas de colares.

            Existem evidências que entre os tijolos mais antigos achados nos substratos do Hospital, alguns haviam pertencido à tijoleiras decoradas. São dáctilo-ornamentos retilíneos, similares aos recolhidos entre restos das “casas indígenas” habitadas por naturais da reducção de São Ignácio Miní.  Esta povoação foi fundada em 1610 na província de Missiones, fazendo parte das Reduções Jesuíticas do Guairá. Na foto 101 e det. 102 e 103 se observa um fragmento de tijolo proveniente deste povoado. Pelo geral, as impressões deixadas no barro formavam linhas paralelas de dois, três ou quatro riscos, segundo os dedos empregados para efetuar a pressão. Porém, no caso particular das peças encontradas em São Ignácio, as linhas das baldosas mostravam esquemas radiados e também se diferenciavam pela espessura, que nelas, às vezes chegava a 4 cm, ainda que raramente era uniforme. Por sua vez a posição destes também caracteriza o ornamento. (Este tipo de decoração faz parte dos lineamentos chamados justapostos ou conjugados). Os debuxos datílicos mais rudimentares eram retas, que quase sempre formavam diagonais de diferentes ângulos com respeito aos laterais dos tijolos e portanto, tijoleiras (pisos tijolados) formadas por estas decorações apareciam como texturas anárquicas. Especialmente os tijolos de São Ignácio Miní eram de dimensões particularmente diferenciadas, chegando até 7 cm de espessura, e sua confecção era precária. É importante levar em conta que estes pisos rústicos somente foram encontrados em alguns habitáculos, já que nos ambientes principais se empregaram cerâmicas, algumas das quais, vindas da Europa, muitas delas luxuosas, engobadas e vidradas. Algumas eram quadradas ou octogonais e seus temas eram pintados ou em alto-relevo moldado, formando guardas e figuras antropomorfas, zoomorfas e fitomorfas de gosto refinado. No trabalho 104 e 105 se vêem dois dos desenhos de baldosas fabricadas com terra vermelha do local, que pertencera a Igreja e recintos principais, e que foram estudadas por Vicente Nadal Moura, em sua notável publicação manuscrita : La Ruínas de San Igáncio Miní.

            Na realidade, as grandes igrejas das Missões Jesuíticas correspondiam ao Barroco mais esplendoroso e sua decadência se deveu unicamente à expulsão dos Jesuítas do território (1767-1768) e ainda, com destruição, incêndio e saqueio de suas povoações, por parte dos Bandeirantes do Sul. Na excelência das baldosas destes recintos se vê a influência dos grandes arquitetos italianos que chegaram entre os anos de 1637 e 1639, destacando-se os notáveis, Irmão Pedro Brassanelli, na época chamado “Pequeno Michelangelo”, que foi o construtor da Igreja e o Padre Ángel Camilo Petragrassa. Ambos trabalharam intensamente no Guairá, fundando diversos povos e templos (Cartas Annuas 1637-1639). O Irmão Brassanelli não só trabalhou na Reducção de São Ignácio Miní, sobre o Rio Paranapané ou Paranapanema, na cercania de sua desembocadura no Rio Paraná, senão também em grande parte do Guairá.

            Não se sabe em quantos templos trabalhou Brassanelli, se sabe sim que em 1696 começava a construir a Igreja de São Borja (o povo mais antigo, dos sete que se encontravam no atual território do Brasil), a obra foi concluída em 1705. A demora se deveu às guerras com os índios Guenoas (importante grupo Charrua que habitava o norte do atual território uruguaio), e contra os portugueses da Colônia Sacramento. Posteriormente construiu a Igreja da Missão de Loreto, cuja fundação foi mencionada em inventários levantados em 1767, os quais citam detalhes da construção. Porém consta que em 1718 Brassanelli estava construindo a Igreja de Itapuá, no Rio Paraná. Com respeito a obra da Igreja de São Ignácio Miní, consta que o Irmão concluiu a obra que ele tinha começado “cuando el Provincial [do bispado de Paraguai] le ordenó el 28 de marzo de 1724 que se trasladara a ella e terminara lo comenzado”(Memoriais dos Provinciales - s.XVIII). O povoado, com sua igreja primitiva, tinha sido fundado em 1632 e assentado definitivamente em 11 de junho de 1696, pelo P. Maciel de Lorenzana, que foi seu primeiro clérigo, e os Padres Simón Mazeta e José Cataldino, cujos restos estão inumados nas próprias ruínas da igreja. O povoado foi incediado junto com os de Loreto, Santa Ana, Candelária e Corpus.

            Também em Niterói existem tijoleiras primitivas executadas por índios imediatamente após a expulsão dos franceses da Baia de Guanabara quando se consolidou a Reconquista dos Temiminós, liderados por seu Cacique Martim Afonso, (Arariboia). Na época foram povoar as costas da atual Niterói, sendo que sequer havia padres estáveis na região. No momento se fundou a Igreja de São Lourenço dos Índios. Nesta igrejinha ainda se encontram duas tijoleiras intactas que são as melhor conservadas e as únicas conhecidas pertencentes à época que apresentavam vidrado nas superfícies. As fotos 106, 107, 108, 109 e 110 mostram partes delas. Elas cobrem a sacristia e o chão da Capela Mor, onde alguns autores asseguram que foi enterrado o corpo do Cacique temiminó. Na foto 111 se vêem os tijolos quadrados pertencentes ao pavimento da Capela-Mor, nelas se vê o quadrângulo onde se acredita que se encontram os restos do herói índio. A flecha indica a baldosa central com uma cruz de três linhas zigueazaguentes marcadas com três dedos (foto 112).

            Na sacristia a decoração também está feita em baldosas quadradas, algumas das quais ainda conservam parte de vidrados avermelhados ou amarelados ocre (fotos 113, 114, 115, 116, 117 e 118). Nas duas últimas se observam ziguezagueados duplos e triplos e ponteados feitos com a ponta dos dedos. É importante assinalar que nem as baldosas, nem os tijolos assim como o acabamento vidrado não eram conhecidos pelos índios e que os padres chegavam à sesmaria somente para celebrar missas e realizar afazeres litúrgicos Nas fotos 119, 120, 121, 122, 123 e 124 se vêm as baldosas da sacristia sem revestimento vidrado, a maioria delas por causa do desgaste. Na última foto se vêem longos ziguezagues em posições anárquicas. Na foto 125 se observa o lineamento justaposto, na beirada de uma telha primitiva, da mesma Igreja.

            Dos fragmentos de tijolos antigos encontrados nos substratos mais velhos do Hospital, foram separados os que apresentam sinais fidedignos de haverem pertencido aos pavimentos primitivos, dos que teriam feito parte do pavimento posterior também decorado. Os primeiros, sem sobra de dúvida, têm os lineamentos vinculados com os das Missões do Sul, com os de Niterói e com os da igrejinha de Montserrat As foto 126 e dets. 127 e 128 mostram um tijolo primitivo do Hospital com quatro sulcos diagonais. A espessura dos blocos encontrados na Santa Casa não passavam de dois centímetros, assemelhando-se aos de Niterói e mais delgados que os das Missões do Guairá (comparem-se as fotos 103 e 128). Na foto 129 se vê um ladrilho rebatido, de borda, com duas linhas paralelas trabalhadas com os dedos separados. Estas decorações laterais que sempre acompanham os lados menores foram adotadas em um novo pavimento que tinha existido no Hospital. Algumas destas peças foram encontradas em estratos superficiais e apresentam a característica de haverem sido incisas com varas que, em alguns casos, funcionavam como pentes. As fotos 130 e 131 mostram tijolos com estas características. Observe-se que além das marcas paralelas, em algumas peças existem outras menos profundas, perpendiculares as anteriores.

            As fotos 132 e 133 são figurações do trabalho decorativo nas olarias.

            Muitos dos fragmentos mais antigos encontrados, exibem indícios de fazerem parte da própria formatação dos blocos ou das eventualidades sofridas pela argila antes de sua secagem. São eles pisadas de cachorros (fotos 134 e 135 tiradas nas tijoleiras de Niterói) e marcas de dedos (fotos 136 e 137 geradas nas olarias). Uma das principais peculiaridades consistem nas impressões de mãos pequenas que indicam o trabalho de crianças, não maiores de 12 anos (fotos 138, 139, 140 e 141). No tijolo ( fotos 142, 143 e 144) se observam marcas nas quais se podem ver impressões digitais (flecha). Além disso, apresenta os caracteres seguintes :  M 8 que marcariam medidas ou quantidade de peças.

            As foto 145 e det. 146 mostram tijolos da Capela do Mosteiro de Nossa Senhora de Mont Serrat, que foi fundada em 1580 por Garcia D’Ávila, homem de armas de Tomé de Souza. Possivelmente, a tijoleira date de 1609, quando a capela passou aos monges de São Bento, que mais tarde a reconstruiriam. Alguns autores sustentam que a Capela pertenceu ao sitio de Mont Serrat da Boa Viagem (Itaparipe ou Itapagipe) e que passou de modo litigioso a propriedade de São Bento à raiz de um acordo com a Santa Casa, onde Garcia D’Ávila passou seus últimos dias, até morrer em 1609.

           A antiga tijoleira pertence a sacristia existente atrás do altar. Lamentavelmente, em épocas recentes, este recinto teve seu pavimento removido e reacomodado com cimento Portland, sendo que a maioria de seus blocos foram invertidos ou parcialmente recobertos, ficando poucos a vista.

            Das próprias olarias procedem muitos utensílios domésticos que anteriormente eram elaborados por indígenas, que trabalhavam seus cozimento em fornalhas ou simplesmente à céu aberto. Nas fotos 147 e 148 se vê um cachimbo usado por escravos negros da Bahia. Apresenta um fornilho típico, entalhado em madeira. Frequentemente estas peças estavam relacionadas com rituais africanos, na foto se vê a fisionomia de um negro com traços faciais mefistofélicos. Observe-se que na frente da figura se vê uma das duas perfurações em que tinha chifres (V.Adendo VI). Já as fotos 149, 150, 151, 152, 153 e 154 pertencem a um cachimbo confeccionado em cerâmica avançada e está elaborado em terracota formada em molde bilateral. Apresenta decoração característica dos arabescos do Sudão trazidos por indivíduos do povo Malê e sempre possuem uma perfuração para serem pendurados no cinto. Nas duas últimas fotos se vê este detalhe e a base do fornilho onde se percebe a perfeita união do tasselado. A diferença dos africanos, os cachimbos de cerâmica empregados pelos índios são muito abundantes e se caracterizavam por terem sempre uma estrutura em ângulo reto e além disso, se diferenciavam facilmente pelo decorado predominantemente retilíneo (fotos 155, 156, 157 e 158). Em Niterói foram encontrados vários cachimbos indígenas e nenhum que caracterizava a procedência africana. Isto se deve a que nunca ali houve escravos. O povo nasceu a partir de sesmarias concedidas aos Temiminós do cacique Araribóia, desde a liberação do Rio de Janeiro da dominação francesa. Nas fotos 159 e 160 se vê uma conta de rosário de terracota de argila vermelha com superfície alisada por brunido úmido, com um engobo negro e vidrado, recolhido no forno de cerâmica da Missão de São José. Nesta olaria, operada por índios se encontraram fragmentos de esculturas religiosas que possuíam a mesma técnica. Estes procedimentos não eram conhecidos pelos naturais antes da chegada dos jesuítas. (V. Adendo III).

            Nas fotos 161 e 162, e nas 163 e 164 se vêem pequenos cacos que faziam parte da argamassa pozolânica conglomerada que fixava os tijolos nos paramentos do Hospital. Nas duas últimas se vê um resto de cerâmica indígena. Observe-se em seu interior os detalhes da construção da pequena vasilha indígena lavrada, amassando a argila em rodelas que, posteriormente se unem e se tornejam com os próprios dedos até chegar a borda que se corta à faca.

A industrialização primitiva das fibras têxteis

           Entre as principais fibras têxteis vegetais autóctones que encontraram os conquistadores ao chegar a América foram a malva branca ou malva bruxa (Whalteria americana L.) que conheceu Cristóvão Colombo ao chegar a ilha Espanhola, hoje Cuba (V. Adendo IV)  e o algodão, que tinha sido industrializado e usado em belos tecidos pelos índios do Peru, desde uma era longínqua que se remonta à 1.500 AC. A única espécie nativa existente corresponde à espécie Gossypium barbadense. Excelentes trabalhos têxteis foram produzidos na zona de Cajamarca, Lambayeque (Huari) e cuja antiguidade oscila entre 600 e 700 a.C. Não menos vetusta foi a industrialização da fibra de algumas palmeiras, sendo que uma das mais empregadas foram as da palma carandai. No entanto as fibras para a confecção de cordas mais resistentes, elaboradas em todos os diâmetros, foram as de Chaguar ou Caraguatá, conhecida pelos colonos portugueses como “garabatá” ou como “cardo” ou “cardo bravo” pelos jesuítas de São Vicente e Piratinga (entre eles, pelo beato Anchieta). O vegetal corresponde a “Bromelia serra”, classificada por Linneo.

           O chaguar também foi classificado pelo alemão Jorge Hieronymus, que estudou suas propriedades.  Na atualidade se reconhecem três espécies que se distinguem, entre outras coisas, pela coloração de suas flores, que vai de branco a vermelho, sendo que todas as plantas proporcionam fibras têxteis.  A partir destas plantas se produzem fios tão resistentes quanto as melhores fibras vegetais têxteis do mundo. Trabalhadas estas pelos naturais, terminou gerando, em colaboração com as novas técnicas aportadas pelos conquistadores europeus, diversas indústrias, algumas das quais resultaram de grande utilidade para a colônia.

           Na foto 165 se vê uma planta de chaguar, com suas folhas de espinhos fortes dispostas em sentido contraposto entre si, sua floração e suas sementes. Na foto 166 e det. 167 o tipo de posicionamento dos espinhos. A foto 168 mostra um feixe de palhinhas depois do enriado. Neste estágio o material perde a mucilagem restante para depois ser submetido a um desfibrado mediante um forte surrado com varas, até produzir as meadas (169). Na foto 170 se vêem as meadas já desfibradas e enroladas para seu emprego. Por último se procedia a cordagem. A cordeleria podia ser fina ou grossa. Neste último caso a fibra recebia um tratamento mais aprimorado para depois ser encordada e preparada em madeixas (171). Na foto de microscópio 172, 100X se observam as características da fibra. No destaque inferior se vê o corte transversal tentativo dos filamentos. Esta peculiaridade faz com que as fibras apareçam afinando e engrossando-se sem chegar a produzir as espiras que mostram as fibras mais achatadas ou cintadas (foto 173, 100X e 174, 400X). Na foto 400X 175 se vê a terminação de um pacote cortado, de fibras.

           Os indígenas usavam as elaborações mais rústicas para as cordas grossas e as esteiras em que dormiam. No entanto, com as finas confeccionavam cordéis e todo o tipo de tecidos, de diversos pontos. Nas fotos 176 e 177 se vêem espécies de sacolas usadas pelos índios Matacos e Pilagás (do Rio Picomaio) e na 178 se aprecia um tecido aberto, confeccionado com espinhos de Pau Binal (179) (Chaco Paraguaio). Entre os objetos de maior utilidade se encontravam as redes de pesca. Na foto 180 se vê uma, usada pelos povos Tobas, do Rio Vermejo e que permaneceu muito tempo submersa no rio. Em 181, um cordel trançado e em 182 um convencional sujeitando um típico vaso que fora obsequiado pelo Cacique Mataco Juan Cajal. O cordel é de fibra de chaguar. Na 183 se vê o adereço de uma coroa da tribo Carajá (Ilha do Bananal). Observe-se que os cordéis estão confeccionados com dois fio de diferentes cores.

           Os tecidos mais apertados e fortes eram tramados com diversos tipos de pontos sumamente constritos. Alguns deles eram tão fortes que os jesuítas presumiam que as flechas não passavam por eles. Na 184 e 185 se vêem dois tecidos com estas características.

           Foi o Irmão coadjuntor Diogo Jácome quem, em plena época da Conquista, mais se ocupou da “industrialização”. Havia chegado a Salvador junto a outros companheiros em 29 de março de 1549, com o primeiro Governador Geral do Brasil, Thomé de Souza, que os trouxe na Nave Conceição (pertencente à Armada do Capitão Mor Fernando Peres de Andrade), mas que ele próprio comandava (Calmon, pág. 222). Os primeiros Jesuítas vinham orientados pelo jovem P. Manuel da Nóbrega e, além do Irmão Jácome, chegaram os padres Leonardo Nunez, Antônio Pires, João de Azpicuelta Navarro, Manuel Lourenço e o Irmão Vicente Rodrigues. A inquietude do Irmão Jácome o levou não só a inventar técnicas próprias, aproveitando o conhecimento dos naturais, senão que se ocupou de transmiti-las aos seus companheiros da primeira expedição jesuíta a terras de América e pouco tempo depois, aos da segunda que arribaram na armada do Governador Duarte da Costa.  Entre os sete companheiros novos estava o Irmão Joseph de Anchieta que foi, segundo ele próprio, seu primeiro aluno de artesanato e quem mais ponderou e divulgou as técnicas. Em 1554, deixava o seguinte testemunho: “as alpercatas faziam-nas os Irmãos. aprendi um ofício que me ensinou a necessidade, que é fazer alpercatas, e sou já bom mestre e tenho feito muitas aos Irmãos, porque se não pode andar por cá com sapatos de coiro pelos montes” (...)  “O modo de as fazer, era este: iam ao campo, traziam certos cardos ou caragoatás bravos, lançavam-nos na água, por 15 ou 20 dias, até que apodreciam. Dêstes tiravam estrigas grandes, como de linho, e mais rijas que o linho” (Carta do Ir. Joseph de Anchieta ao P. Diego Laynes, expedida em São Vicente, em 1 de Junho de 1560)

           É notável! O processo de separação das fibras, que estava longe de gerar uma podridão, tinha sido empregado na Europa desde tempos imemoriais para desfibrar o linho, onde adotava o nome de “riada”, ou seja, que a técnica já era conhecida pelos naturais da América, sendo posteriormente aproveitada pelos europeus para a industrialização do chaguar ou caraguatá e especialmente para as aplicações posteriores. A fibra, autóctone, havia sido utilizada por muitas culturas pré-colombianas do Bi-reinado de Peru e do Brasil. A incógnita se gera porque não existem evidências para assegurar com precisão quantos e quais foram os povos aborígines que se valeram dela.

Um antigo rosário

           O achado de um fragmento de rosário antigo entre o entulho do substrato do pavimento do antigo Hospital, revelou mais uma prova importante da presteza com que na América se fusionaram as culturas européia e aborígene. Curiosamente o fio que une as contas tem as inquestionáveis características das cordas obtidas torcendo os filamentos com a palma da mão sobre a nádega. O trabalho era realizado pelas mulheres indígenas, que dominavam amplamente a técnica de torcer o fio. Para chegar a esta conclusão se tem contado com o acaso, já que o fino cordel se encontrava inerentemente associado a uma opalina, precariamente fundida, formando um antigo rosário.  A antiguidade da peça em tão notável associação está comprovada pelo tipo de fibra empregada na confecção, mas principalmente pelo ancestral sistema de fiação, próprio dos povos indígenas. Com respeito a opalina de fundição elementar, se percebem as dificuldades técnicas com que se tropeçou para a elaboração, porém se entende que se trata de um material desconhecido até o momento, pelos naturais. A cruz, a medalha e as contas que constituem o rosário estão confeccionadas em opalina branca, o mais rústico e elementar dos vidros. Este material podia ser elaborado em tasselos simples e depois se soldar.

Rosário dá pistas da fusão de culturas no início da colonização

           “Salvador 000 – Geral/Estado/Exclusiva/Rosário raro – Biaggio Talento – 00ls – 05.04.2006

           SALVADOR – Um pequeno rosário de mais de 400 anos, encontrado nas ruínas do Hospital Nossa Senhora das Candeias, da Santa Casa de Misericórdia de Salvador está sendo considerado como uma das provas mais interessantes e contundentes de “cultura de contato”, efetivada no encontro do colonizador português com o índio brasileiro.

           As contas, a medalha e a cruz do rosário são feitos de opalina, o mais simples e rudimentar dos vidros, sendo unidos por fibras de caraguatá, vegetal de propriedades têxteis encontrado em abundância na Bahia no início da colonização. A motivação da fabricação revelada na peça, era a Religião Católica, uma das forças motrizes da aventura portuguesa na época das grandes navegações e descobrimentos.

           “Temos aí a junção da técnica européia da fabricação da opalina com a da utilização das fibras pelos indígenas numa mesma peça”, resumiu o restaurador argentino Domingo Tellechea que trabalha na recuperação das obras de arte da Santa Casa desde 2001 e encontrou o raríssimo rosário quando examinava os últimos restos ruinosos do antigo Hospital, de Nossa Senhora das Candeias, o primeiro da Colônia, que começou a ser construído em 1549, quando Thomé de Souza fundou Salvador. A peça se encaixa perfeitamente nos relatos dos primeiros jesuítas que começaram o trabalho de catequização do Novo Mundo e mantiveram uma intensa relação com os indígenas, protegendo-os, inclusive, de alguns portugueses que tentavam escravizá-los”

            Uma carta do beato José de Anchieta, escrita em 1560 em Salvador, para padre Diogo Laynes que se encontrava na Vila de São Vicente, cita o jesuíta que fabricava os primeiros rosários no Brasil. Ao relatar que os missionários davam essas peças aos índios para que eles pudessem dizer muitas vezes a Ave Maria para aumentar a devoção pela Mãe de Jesus.

            “Ao examinar o rosário Tellechea desvendou como ele foi feito. Para fabricar a opalina mistura-se areia e nitro (obtido das cinzas vegetais do mangue ricos em nitrato de sódio) levando ao fogo até se obter uma massa chamada “amonitra”. Com essa massa, e usando-se moldes, foram feitas as contas, a medalha com a imagem de Nossa Senhora e o crucifixo, unidos com fios de caraguatá. “Percebemos também que o trançado do fio é em forma de ‘s’, típica dos índios da América do Sul, ao contrário dos fios de fibras produzidas na Europa com trançado em ‘z’”, contou o restaurador. Uma prega encontrada na medalha mostra que a massa vítrea se encontrava em processo de endurecimento quando o fio foi aplicado.

           Domingo Tellechea considera o rosário uma peça arqueológica de grande valor para quem estuda o início da Colonização. “É exemplo dos mais significativos de culturas compartilhadas, tão importante quanto os tijolos fabricados por europeus com decoração indígena que também encontramos no antigo Hospital, na Igreja de Monte Serrat de Salvador, na Igreja de São Lourenço dos Índios de Niterói e nas Missões Jesuíticas do Sul, particularmente, na redução de Santo Ignácio Miní”, Biaggio Talento, O Estado de São Paulo, Salvador Bahia.

           A foto 186 mostra um detalhe do fragmento do rosário tal como foi encontrado. Na medalha dele se vê, em ambas as faces, a imagem da Virgem em sua acepção de Coração de Maria. Na figuração, a Virgem assinala o coração com sua mão direita, enquanto a esquerda sustém um ramalhete de lírios (187). Na 188 se vê a peça já restaurada e na 189 se calculam as dimensões das imagens e das contas diferenciadas. Na comparação 190 se observam as faces da medalha e na 191 a face do crucifixo. As contas estão formadas por duas semi-esferas (192). A 193 assinala a união do taselado e na 194 se observa a lucidez da opalina na parte superior da cruz, e a perfeição da cordagem, bem como as zonas onde se quebraram algumas contas (det. 195). Observe-se a translucidez da opalina.

           Na mencionada carta enviada pelo então Irmão Joseph de Anchieta, de São Vicente, se lê: También se les enseña a rezar particularmente, y para esto les damos rosarios para que, diziendo muchas vezes la Ave María, tengan principal amor y devotión a N. Señora. Estos rosarios haze el Hermano Diego Jácome (Teles, Crónica 1479, Leite) al torno mui polidos, aunque él nunca aprendió ni exercitó esta arte, mas constreñido por la obedientia y charidad tentó esta obra nunca antes dél usada, y no solo él salió maestro mas también algunos Hermanos, los quales gastan en ello algunas horas, maxime en hazer rosarios, los quales distribuidos assí a los portugueses como a nuestros nuevos christianos no son pequeños incitamente de devoción”. (É evidente que Anchieta, quando fala dos rosarios, se refere a dois artesanatos diferentes :  o produzido com torno, que obedecia a antiga especialidade do Irmão Diego Jácome  e que requeria adestramento manual e ferramentas, e a outros rosarios menores que podiam ser fabricados por outros irmãos, e que eram distribuídos, tanto aos portugueses como aos indígenas).

           É interessante resenhar que nesta época também se elaboravam rosários de madeira dura ou casca de côco, cujas contas eram muito volumosas. Logicamente que estes dixes não serviam para a oração e, além disso, eram custosos, devido a que para sua manufatura, requeriam uma habilidade muito mais refinada.

           No que se refere a técnica de produção, o fio apresenta a peculiaridade de possuir o torcimento em “S”, modalidade esta que somente se verifica em pouquíssimas peças (sempre indígenas), e ainda assim, se vê em tecidos ou fios pré-colombianos muito excepcionais, já que na grande maioria se observa o fiado clássico universal em “Z”  próprio dos fusos, rocas (ruecas) e fiados modernos (V. Adendo V, extraído do livro Pintura em Restauro). Até aqui somente se fez referência à matéria prima : a fibra de caraguatá, aporte da técnica dominada pelos indígenas e a fabricação de dixes de vidro, introduzida pelos europeus.  

           Os aborígenes trabalhavam todo o tipo de fios, desde os mais finos, até as grossas cordas com que amarravam suas canoas ou imobilizavam aos seus inimigos cativos, passando pelos cordéis de cipó para serrar madeiras ou para os tensores de seus arcos de caça, a técnica era largamente abrangida por eles.

           Para ter uma idéia da fortaleza das cordas indígenas vale prestar atenção aos desenhos de Hans Staden, publicados no seu trabalho Viagem ao Brasil, em 1557. É evidente que estas cordas só podiam estar confeccionadas com “caraguatá”, única planta têxtil de fortaleza semelhante conhecida na América austral. A continuação se transcreverá um relato do Irmão Anchieta, referido a cordas empregadas em rituais  : “ Un poço antes de la mañana em que lo avian de matar (ao prisioneiro) un índio de Piratininga christiano muy estimado entre todos hizo uma habla al derredor de lãs casas (como es su costumbre) amonestando a los suyos que dexassem a los Hermanos hazer con el enemigo todo lo que juzgassen serle necessário para su ánima, sino que lo ternian a él por cruel enemigo y destruidor. Venida el alva, quando su ánima avía de ser vestida del resplandor del sol de justítia, sacáronle al terrero estando presente uma grande multitud, atado por la cinta com cuerdas luengas, lãs quales tienen muchos de una parte y d’outra, todo lo demás suelto. Llégase el que lo avia de matar, usando primero de sus ceremonias y ritos; dízele la solenne palabra : “morirás”! Gritáronle entonces los Hermanos que se pusiesse de rodilhas, lo qual él luego cumplió, alevantando los ojos y manos al cielo y llamando el sacratíssimo nombre de Jesu. Le quebró la cabeça con um palo y voló su aníma dichosa para gozar de gloria immortal en los cielos. Plega a el Señor que tal muerte nos dé siéndo-nos quebrada la cabeça por amor de Christo. Él muerto, quitáronle lãs cuerdas y dexáronle sin le hazer más cosa alguna, el qual los Hermanos enbolvieron em  uma red y trayéndolo a cuestas a Piratininga lo enterraron em la Iglesia para se levantar com los justos en la venida del Señor”.

           Na aplicação de técnicas a grande contribuição européia se deveu à inventiva dos jesuítas, que na referida carta de Anchieta, diz o seguinte: “No dexaré de dezir, pues que vino a propósito, que quase ninguna arte ay de lãs necesarias para elcommún uso de la vida que los Hermanos no sepan hazer. Hazemos vestidos, çapatos, principalmente alpargates de um hilo como cáñamo, que nosotros tiramos de unos cardos echados em el agua y curtidos, los quales alpagartes son mui necesarios por lo aspereza de las selvas, y las grandes inchientes de lãs águas, lãs quales es necesario passar muchas vezes por grande spatio hasta la cinta y aún hasta los pechos; barbear, curar heridas, sangrar, hazer casas y cosas de barro, y otras semejantes no se busca fuera, de manera que la otiosidad no tiene lugar alguno em casa”. Porém, na própria produção da fibra, existiu o aporte dos europeus que transmitiram costumes estrangeiros para melhorar o enriado e facilitar a obtenção das loncas em que a priori se dividem as folhas.

           O chaguar teve seu primeiro estudo científico com a chegada em 1872 do notável botânico alemão Jorge Hieronimus, do Museu de Berlin, quem contratado pela Academia de Ciências de Córdoba, se transladou ao Cone Sul para realizar estudos fitogeográficos.  Depois de concluir a investigação que abrangia desde a Patagônia ao Mato Grosso, publicou seu primeiro trabalho que titulou Observaciones Fitogeográficas sobre la Vegetación Sud Continental, nesta obra compendiou os frutos de sua pesquisa. Foi professor de botânica em Córdoba, membro da Academia Nacional de Ciências da Argentina, onde publicou a revista Sistema Natural de los Vegetais (1877). E no departamento de agricultura, publicou uma lista de 605 espécies vegetais, cientificamente classificadas entre as quais se encontrava o chaguar ou caraguatá, ou “cardo bravo”, com dados significativos sobre suas propriedades têxteis e tintoriais e seu emprego pelos naturais. Em suas publicações, que somam oito volumes, aparecem classificadas três espécies de chaguar :  ch. das penhas (Dyckia floribunda); ch. do monte (Filladsia rubra); e a mais conhecida, Bromélia serra, também classificada como Neoglaziovia variegata,  pela Botânica de Hoehne.             

            “Usam-se os filamentos – escreve Hieronimus – para fazer fios, cordas, tecidos, e os índios do grande Chaco, sabem com elas trabalhar bolsas, ponchos e camisas, nas quais pretendem não podem penetrar as flechas. Os rizomas torrados na cinza, servem de alimento aos índios em caso de penúria” 

O gênio inventivo do Ir. Diego Jácome tornou fácil aplicar a técnica do vidro, a que já tinha desenvolvido: a das alpercatas.

            As opalinas surgiram com ajuda das fráguas de fole, com o que fabricavam cravos e soldavam peças de ferro. Isto se deduz porque para produzir esta pasta vítrea (vidro pastoso), se tinha que contar com ajuda de pequenos fornos, capazes de atingir temperaturas próximas à 1200ºC, coisa impossível a fogo aberto, porém fácil numa frágua do tipo usado na época, se se conta com um pequeno crisol ou um forno improvisado, fechado à carvão sumamente compacto, como o obtido na época com a sucupira, madeira muito dura, sem porisidade.  Para conseguir este vidro maciço, factível de ser formado em molde, se usava areia branca, previamente triturada e depois misturada com três partes de nitro, de seu peso ou volume. Uma vez em fusão, a mistura passava ao forno formado na própria boca da frágua, onde se transformava na massa chamada “amonitra”, suscetível de adaptar-se a moldes negativos que podiam ter sido de diversos metais previamente estampados ou troquelados. Porém também podiam empregar-se moldes feitos com o próprio vidro. A opalina primitiva rústica é a mais antiga forma de vidro, sendo as matérias-primas a areia e o nitro obtido do borralho de vegetais do mangue, ou próximo do mar, que são as mais ricas em nitrato de sódio (substitutivo do nitrato de potássio, contido nas cinzas das plantas do interior do território). Na Bahia, os afloramentos de areias quartzosas brancas fazem parte da atual paisagem aérea que lembra as palavras de Estrabón: “entre Tolemaida e Tiro a ribeira estava coberta de montículos dos que se extraia a areia conveniente para fazer vidro” (Estrabón, Geografia).    

            Cada um dos dixes que compunham o rosário estavam moldados em duas partes, que formavam suas caras. Estas, a sua vez, mantinham o cordel de caraguatá entre si. Para isso, primeiro se moldava uma das partes, logo sobre ela se assentava o fio e a seguir se modelava a segunda, para depois, com o vidro ainda pastoso e sem retirar-se do molde, assentar-se sobre a primeira completando a rocalha com o cordel incerto.  O vidro se fixava ao fio de modo não muito firme, como se comprova pela facilidade com que, ao quebrar-se as contas, se hão desprendido algumas pérolas (deve ter se conta que isso se produz, após a peça ter resistido enterrada a frioleira de aprox. 400 anos). Esta manipulação se torna evidente porque nas faces da medalha se observa uma prega, sinal que, no momento da colada, a massa vítrea se encontrava em processo de endurecimento.

Adendos

Adendo I

Granulito

           Granulito é uma rocha eruptiva da família dos granitos, que se caracteriza porque a mica negra esta associada à branca, a plagioclassa desaparece ou ao menos é rara, e os grãos de quartzo tendem a adotar formas cristalinas. O trânsito dos granitos se efetua insensivelmente pelas partículas de mica branca ou de duas micas, nos que a moscovita aparece e os grãos de quartzo tendem a individualizar-se. Isto induz a crer que nos granulitos clássicos todo o quartzo haja de ter contornos cristalinos, o qual é uma exceção mais dá lugar a formar-se grupos sinuosos que se deslizam entre os outros minerais, moldando-os. Como o granito, o quartzo forma aqui grãos bem individualizados e isolados, tendo cada um sua orientação especial. Ao microscópio a placa toma o aspecto de um mosaico cujos elementos estão diversamente coloridos ; dá-se uma série de trânsitos de um tipo a outro : assim o célebre granito de Baveno é granulito pelo seu quartzo, mas a mica branca falta quase por completo.

           As estruturas granítica, granulítica e pigmatóide se consideram estratos ou capas sucessivas (perfeitamente diferenciadas) da completa separação ou individualização dos elementos mineralógicos de um magma que forma a pasta das rochas ácidas. Segundo o célebre petrógrafo francês, Miguel Levi, no primeiro caso, o quartzo e o feldspato (mais recentes) se apresentam completamente separados em agrupações distintas ; no segundo, o quartzo que é posterior ao feldspato, se isola em grão que aparecem se ainda não houvessem tido tempo de reunir-se uns aos outros, e no terceiro, ambos elementos se encontram distribuídos simultaneamente. Nas três séries, os minerais constituintes são quase sempre visíveis à simples vista. Porém, salvo exceções, as granulações maiores são as das pegmatitas e as menores as dos granulitos.

           Nos granulitos propriamente ditos, os elementos se estabelecem nas seguintes ordens:

I – Mica negra, oligoclassa, ortosa, quartzo dihexaédrico ; acessoriamente : turmalina, esmeralda, zircão, topázio, esfena, anfíbol, granate, apatito, magnetita.

II – Ortosa ou anortosa, microclina com filões diminutos de albita ou de quartzo granulítico, mica branca ; eventualmente ainda se encontra lepidolita, andalucita rosada, distena, cordierita, corindão, etc.

           Entre as variedades de granulitos figuram : Alpita, Alasquita e Luxulianita.

           O granulito oferece variedades anfibólicas mais básicas que o tipo normal, já que o feldespato é em parte oligoclassa. Em Córsega se encontram variedades curiosas de granulitos sódicos com riebeckita e egirina, indo a ortosa normal acompanhada de anortosa.

           As granoliparitas de Laparent também se incluem entre as variedades de granulito. Abundam na ilha de Elba nas costas da Argélia e Túnez, contém mica negra epigenizada parcialmente em clorita, quartzio bipiramidado, ortosa vítrea e oligoclassa, oferecendo uma textura finamente granulada. A foto 196 mostra as características petrográficas e na 197 e det. 198 se vêem pequenas degradações da rocha. Em 199 se pode ver uma imperfeição natural do bloco. Na 200, as marcas deixadas pela talhadeira quando os silhares foram removidos do antigo assentamento e na 201 as flechas indicam a presença de restos de uma argamassa pozolânica (avermelhada) que teriam pertencido ao embrechado anterior.

Adendo II

Análise do aço dos cravos achados no antigo Hospital

Fe matriz, elemento majoritário

Elemento Cravo %mm

Cravo cabeça de diamante

Cravo pequeno cabeça de diamante

Cravo cabeça aplainada

Cravo pequeno asa de mosca

Cravo cabeça chata

Cravo cabeça asa de mosca

Antiguidade aproximada

(s. XVII)

(s. XVII)

(s. XVII)

(s. XVII)

(s. XVIII)

(s. XVIII)

Fe - Ferro

Matriz

Matriz

Matriz

Matriz

Matriz

Matriz

Cr - Cromo

0,012%

0,012%

0,011%

0,011%

0,012%

0,010%

Cu - Cobre

0,12%

0,016%

0,18%

0,047%

0,013%

0,006%

Co - Cobalto

0,010%

0,055%

0,13%

0,054%

0,056%

0,052%

Mn - Manganês

0,013 %

0,020%

0,067%

0,053%

0,10%

0,006%

Ni - Níquel

0,097%

0,097%

0,15%

0,0007%

0,019%

0,004%

Pb - Chumbo

0,33%

0,33%

0,32%

0,33%

0,32%

0,33%

W - Tungstênio

0,050%

0,042%

0,041%

0,046%

0,050%

0,042%

V - Vanádio

0,008%

0,016%

0,009%

0,012%

0,013%

0,008%

Sn - Estanho

0,020%

0,027%

0,019%

0,021%

0,019%

0,019%

Zn - Zinco

0,018%

0,018%

0,018%

0,017%

0,017%

0,017%

Adendo III

As cerâmicas da Missão Jesuítica de San José

            Entre os testemunhos arqueológicos que ajudam a compor a história jesuítica das antigas Missões, assume uma especial importância aqueles que emergem do silêncio para relatar a história de modo mais axiomático. Cabe lembrar um interessante estudo realizado pelos arquitetos Jorge Gazzaneo e Mary Gonzalez, quando descobriram os notáveis sistemas hidráulicos nas ruínas de São Ignácio Miní. No entanto, a memória nem sempre é tão fidedigna, outras vezes os dados históricos somente se conhecem por antigos escritos que resultas exíguos ; é o caso do conhecimento limitado que se tem das fundições metalíferas que se encontravam na Missão de Apóstoles e sobre as quais não restou mais que  o conhecimento vago de saber que em algum lugar deste povoado agora inexistente, houve uma fundição.

           Para colocar-se no tempo, e como dado histórico deve se recordar que a Missão de São José foi fundada em 1633, um ano após a de São Ignácio Miní e em uníssono com a de Apóstoles. Nesse momento a população total das reduções era de 48.491 almas ; os índios foram instruídos em todos os ofícios : eram ferreiros, carpinteiros, tecedores, estatuários, pintores, canteiros, prateiros, gravadores, impressores, fundidores de sinos, rosarieros, entre outros grêmios. No transcorrer de um século e meio a obra dos jesuítas logrou assentar em populações firmes 100.000 índios, ou seja, até 1768. A instrução técnica havia sido trazida, primeiro do Peru pelo Padre S. J. Diego de Oñate (1615 - 1623) e logo diretamente de Espanha pelos Provinciais que lhe seguiram, cuja formação era peninsular. Na Província de Missiones, a menos de 50 quilômetros ao SE de Posadas, se encontra o sítio de onde se assentava a Missão de São José, que em tempos relativamente próximos foi condenada à desaparição, sendo que as pedras da cantaria se observam nas construções atuais. Deste modo, a deplorável insensibilidade acabou com um dos importantes testemunhos do esplendor arquitetônico que havia superado a importância edilícia do Rio de la Plata.

           A exploração das zonas relacionadas com o antigo assentamento teve lugar dentro do programa de pesquisas históricas (1975 - 1976) dependente do Museu da Casa de Governo. Quiçá um dos principais logros desta empresa foi desvendar os aspectos relacionados com a cerâmica que se produzia nas Missões Jesuíticas.

           Durante a prospecção foram encontrados partes de objetos de cerâmica de todo tipo, tanto autóctone como peninsular, fragmentos de vitrais, ferramentas metálicas, cravos, cachimbos indígenas, medalhas de bronze e ouro, ferragens, utensílios líticos finamente polidos, etc.

           Em virtude de da espessura dos bosques missioneiros e do manto vegetal que cobre com sua sombra perpétua todo o eventual resto de civilização, a exploração das paragens, que em algum momento constituíram o entorno da égide jesuíta, resulta penosa e demorada. Nestas circunstâncias, após o achado em plena selva, de restos de um forno de tijolos e uma quantidade de restos de ladrilhos que foram liberados da mata à marchete, se descobriu sob as samambaias uma obragem cuja a razão a constituía uma manufatura onde se havia cozido cerâmica. Era evidente que muitas das peças que ali se coziam haviam sido modeladas in-situ, num recinto de 4x4 metros, existente a 30 metros do forno e que consistia em um habitáculo semi-encravado no terreno, cujas paredes agora caídas, eram blocos de pedra. No entanto, apesar da quantidade de peças que foram recolhidas no lugar, o descobrimento mais importante era o do próprio forno, que ainda muito degradado, proporcionava detalhes prístinos sobre a atividade cerâmica dos jesuítas missionários.

           É evidente que no forno da obragem se haviam confeccionado cerâmicas policromadas (imagens religiosas, crucifixos, rosários, etc.) com técnicas autóctones que operavam aplicando cores argilosas em úmido sobre as peças cruas, para logo integrar-se durante o cozido, ou seja, com colorações de engobo, técnica que na América do Sul somente foi encontrada em algumas culturas do bi-reinado do Peru. No entanto, outrossim se realizaram esmaltados de elaboração bastante avançada, técnicas estas que também não existiam na América pré-colombina e além, curiosamente se encontraram peças com caracteres incisos classicamente aborígines, recobertas com excelentes esmaltes. As fotos 159 e 160 mostram em detalhe a conta de rosário ornada na obragem : o interior é de argila vermelha com superfície alisada por brunido úmido, com decoração geométrica incisa de inspiração indígena e posteriormente coberta com um esmalte negro, muito fino. Apesar da jazida não haver proporcionado objetos grandes íntegros, permitiu realizar um interessante estudo das cerâmicas missionárias ; ficou claro também que a maior parte das peças possuíam um acabamento adequado a uma posterior pintura não cerâmica.

           É importante, porém, ter em conta que a utilidade imediata destes fornos consistia na fabricação de telhas, já que, durante a Conquista e desbravamento, estas garantiam a sobrevivência nos ataques de índios e eventualmente, de Bandeirantes. Numa ordenança ditada em 4 de Setembro de 1714, pelo Provincial do Bispado de Paraguay e dirigida à Missão de São Ignácio Mini, entre muitas diretivas para a construção de casas para os gentios, se lê : “Las cassas que se hicieron de nuevo para los índios seram en los cimientos [alicerces] , y tres quartas, o una vara de ellas de piedra, lo demás de adobres. Y no de tapia francesa, que no dura, y esta durazión es a que lo que principalnte a de atender. Quitesse quanto antes la paja com q estan algunas cassas de los índios cubierta, y se pondrán de teja para que no suceda alguna quemazón que se puede temer. Y para que esto se pueda executar encargo se acaben de perficionar los hornos de teja”.

           O forno encontrado nos terrenos da Missão de São José, relativamente cercano à São Ignácio Miní, que ainda disputando espaço com as raízes conservava sua integridade, corresponde ao modelo do antigo forno de talude semelhante aos usados em toda a península ibérica, que se valia dos declives do terreno para facilitar a circulação dos vapores em seu interior. O  croqui 202 mostra um corte sagital da construção e, na que “A” é a câmara ; “B” o conduto de tiragem para a fumaça (canhão) e “C” é a saída quadrangular em cuja parte superior se adequava o tramo final da chaminé, que era removível. Também fazia parte da obragem um pequeno manancial de águas claras, que se encontrava a 30 metros do forno e que, no momento do achado, passava inadvertido sob a espessa vegetação. As principais características do forno são as seguintes : a câmara de cozimento tem 4 metros de longitude, está construída com laterais de pedra quadrada e abóbada de tijolos. O conjunto configura um corte em forma de arco arábico. No momento do achado, no piso desta parte do forno existia uma camada de 13 cm de cinzas muito consolidadas pelo tempo e as águas da chuva (foto 203). À câmara, se projeta numa chaminé que começa em um canhão reto, com tiro de 16 metros, cuja inclinação é de 4º e todos os seus cortes apresentam a forma de arco primitivo, com diferentes assimetrias. Em sua totalidade o canhão está constituído por tijolos, cujas superfícies na atualidade estão transformadas em escórias e, em seu extremo superior, existe uma pequena câmara quadrangular que serviu de receptáculo para juntar os restos da combustão. É notório que sobre este espaço se situava a parte final da chaminé, cuja posição era vertical e havia sido levantada em metal, do qual existiam apenas restos. Também de metal seria a porta frontal do forno e o sustentáculo sobre o qual se coziam as argilas. A situação deste era regulável, já que se posicionava sobre pilhas de pequenas ladrilhos quadrados e de pouca espessura, capazes de completar um apoio com altura desejada. Estas pilhas se encontravam perfeitamente encaixadas nas paredes de pedra, de maneira tal que não só constituíam um suporte de grande firmeza, senão que ao não sobressair da parede, mantinha integralmente o espaço útil da câmara.

           As tarefas de limpeza foram realizadas em estratos ainda que o material encontrado se achasse sumamente abalado devido aos múltiplos derrubes e surgimentos vegetais que se enredavam nos antigos restos. Na foto 204 e det. 205 se vê a lateral esq., de onde se aprecia uma das sustentações. Observem-se os blocos granes existentes na câmara de cocção.  As dimensões dos ladrilhos que existiam dentro do forno para sustentar as peças em processo de cozimento éram de 10,9 x 10,9 x 3,8, e são os mesmos que foram usados profusamente nas vivendas missionárias, nas que ao parecer, lhes deu diversas utilidades. Na foto 206 se observa a camada de escórias e cinza acumuladas na parte central da chaminé, e na 207 se vê a abóbada  na parte final. Em todo interior os tijolos estão transformados em escórias e parte deles já desabaram.

           O terreno em que se encontrou a obragem apresenta a típica cor laranja-avermelhada da zona missionária e das cerâmicas ali fabricadas. A foto 208 mostra uma árvore caída por efeito de uma tempestade ocorrida durante o trabalho de limpeza. Observe-se a cor da terra da zona.

           Na foto 209 e dets. 210 e 211 se vê um pedaço de ladrilho da Missão Jesuítica dos arredores de São Ignácio Miní. Neste povo, os blocos cerâmicos apresentam espessuras consideráveis. Os liquens (em destaque) indicam que a peça foi colhida na superfície do solo.

           As fotos 212 e 213 captam o momento em que Tellechea está restaurando um coroamento de dintel de um portal profusamente decorado. O bloco ornamental é de arenito vermelho e nele está cinzelada uma grande coroa. Porém a sustentação de maior força nas construções está elaborada em uma rocha basáltica, as vezes ocelífera, que na zona se encontra formando o leito do Rio Paraná.

           Argamassas pozolânicas do Recôncavo Bahiano  : os  cimentos pozolânicos chamados “terra romana”, usados na antiguidade para obter embrechados fortes, eram estruturados com todo o tipo de  materiais de retenção. Nos empregados na Santa Casa predominavam os cacos de telhas e os fragmentos de conchas. Na foto 214 se vê o único resto existente de um remoto baluarte defensivo esquecido pela História que defendia o flanco esq. do antigo Forte Santo Antônio do Porto da Barra. O bastião sobreviveu ao tempo, em condições que, como se imagina, na pequena praia invadida e açoitada pelas águas marinhas, são muito desfavoráveis. Isto indica a solidez do embrechado do muro com terra romana. Observe-se o agregado com pedaços de conchas que asseguravam a travação. O exemplo serve para avaliar a resistência destas argamassas (as quais as vezes se adicionava cal e ainda gordura de baleia), e, principalmente a excelente propriedade hidráulica das jazidas terro-arenosas do lugar.

 Adendo IV

Malva

         Existe mais de 800 espécies de Malva de países cálidos e temperados de todo o mundo. Na América Central e Caribe se encontra silvestre a “malva branca” ou “cimarrona” (Whalteria americana), que desde tempos imemoriais foi usada pelos indígenas. A aplicação com fins terapêuticos emolientes foi muito usada, porém sem resultado conhecido. Esta utilidade se atribuía a abundante mucilagem que contém, na realidade o principal proveito que levou a produção massiva se gerou a partir de suas finíssimas fibras. Os naturais se valiam delas para a confecção de tecidos, cordas e cordéis sumamente resistentes, que durante a colonização já começavam a ser barateadas mediante a mistura com diferentes filamentos de juta, que ao produto, só lhe transmitem rusticidade. Na foto 215 se vê a largura das meadas, em 216 os estágios do desfibrado e na 217 o poço de águas sulfurosas onde se praticava o enriado. O material fotográfico foi cedido pela revista The Américas, para o Boletim da União Panamericana, que o publicou em sua edição de setembro de 1916.

Adendo V

Torção dos fios de chaguar

            Em realidade, o sentido da torção do fio somente se pode determinar de um modo relativo. Supondo-se que o extremo dele gira em forma espiral para a direita, o corpo adota um espiralado que, querendo se realizar pelo outro extremo com o mesmo sentido se deverá transmitir um movimento contrário, ou seja, para a esquerda. Isto significa que para poder dizer que um fio se apresenta helicoidal em determinado sentido, é imprescindível saber qual dos extremos foi o começo do retorcimento (ou seja, o que no momento da torção permanecia imóvel) e, por conseguinte, qual dos extremos foi torcido. Isto se torna fácil com um método simples idealizado pela indústria têxtil, para determiná-lo. Portanto, para a identificação de um movimento ou direção de torção de um fio, parte-se de que se traçam dois perpendiculares ao eixo (figura 218)   a b  e  a´ b’, encerrando um segmento que contenha uma volta de torção. Assim, as fibras que se encontram entre as perpendiculares formarão a diagonal  c d , gerada pela direção dos filamentos, que vem sendo chamado ângulo elix, ou seja, que neste caso formam a figura que lembra a letra  Z, como se vê em “J” . Seguindo este mesmo critério, quando o retorcido é invertido com respeito ao anterior, “B” , se formará uma imagem que se assemelha a um  S, como o mostra “K”. Daí é que se determina que a direção de torção é  “em Z” ou “em S” segundo seja o sentido e desde qualquer posição que se observe um fio, sempre terá sua direção de torcido “em Z” ou “em S” não importando a marcha de fabricação original (livro Pintura em Restauro - páginas T:I - págs. 753 e 759 - T:III - págs. 2205/8 e 2237).

            As fibras do cordel do rosário se analisaram do seguinte modo : se limparam com solventes, logo foram separadas com agulha e auxílio de uma lupa estereoscópica de luz rasante e oblíqua. As fibras tratadas e isoladas foram incluídas para seu estudo microscópico, que confirmou, no seu resultado, serem de chaguar , segundo as seguintes características :

       Longitude da fibra 34-50 mm

       Dimensão das partes largas 2,7 μ

       Fibras unidas de a pares 5,7 μ

       Espessura menor 2 μ

 

Adendo VI

Cachimbo típico do estilo africano

         As fotos 219, 220, 221 e 222 mostram um típico fornilho de madeira, de estilo africano, que fazia parte de um cachimbo lavrado no período colonial, e na foto 223 a linha branca indica o percurso do conduto do fumo em ângulo de 46º.

 

Instituto Domingo Tellechea de Conservação e Restauro