Estudos
arqueológicos realizados durante a restauração do
forro do Salão Nobre da Santa Casa de Misericórdia.
Para expressar alguns conceitos formulados a partir
dos testemunhos encontrados entre as ruínas do antigo
Hospital e as partes mais antigas da Santa Casa
de Misericórdia, se classificaram os itens mais
salientes, partindo dos remanescentes estudados
entre 15 de Outubro de 2001 até 23 de Março de 2006,
período em que se levou a cabo a restauração da
ala norte do prédio. Neste espaço de tempo, foram
provedores da Santa Casa o Dr. Álvaro Lemos e o
Dr. Eduardo Valente que muito se empenharam no êxito
do projeto.
É impossível conceber uma restauração executada
em obras quatro vezes centenárias dando as costas
às exigências éticas modernas e às técnicas internacionalmente
requeridas. A especialidade obriga a respeitar o
caráter científico-arqueológico, que não por acaso
leva o nome de Restauração Arqueológica.
Portanto, realizar trabalhos científicos relacionados
com a conservação de bens móveis ou imóveis, deixando
resultados magros em registros falhos ou pseudo-relatórios,
reproduzindo o que já foi publicado, não pode se
intitular restauração. Os informes incompletos baseados
só em debates dialéticos ou que se restringem a
compilação de dados históricos conhecidos e publicados
por estudiosos da História, servem unicamente para
serem incluídos nos fichários de identificação das
peças, mas não podem considerar-se informes de restauração.
Para atingir um caráter verdadeiramente científico,
esses dados, que quase sempre carecem do referendo
da verificação rigorosa o são insuficientes, devem
considerar-se tentativos e serem enriquecidos com
novas observações complementarias que no futuro
não interfiram numa eventual seqüência da marcha
investigativa. Por sua vez, as conclusões da investigação
devem estar dirigidas a um possível revisionismo
para que os museus e as instituições, que segundo
a Museologia Contemporânea (de preceitos recomendados pela Unesco), possa cumprir
com uma de suas funções elementares: A divulgação
escrita que impeça o esfumado das reminiscências.
A maior confiabilidade da História se apóia nas
evidências manifestas da Arqueologia, e não são
estas as que o fazem nas daquela. Isto não significa
que o estudo da antiguidade não deva contar com
as conclusões dos historiadores e dos documentos
fidedignos. No entanto, cada vez mais à medida que
o espírito analítico se foi desenvolvendo sobre
bases mais firmes, os textos foram considerados
unicamente como auxiliares úteis para dar ao estudo
dos objetos antigos, a devida orientação. Porém,
a Arqueologia foi limitando sucessivamente o campo
de sua atividade para privilegiar a investigação
e análise dos objetos em si mesmos. Ou seja, que
ainda havendo-se limitado o campo de ação desta
ciência pela especialização, os objetos materiais
que nos legaram os tempos passados são tão diversos,
que aquele resulta vastíssimo como para que as próprias
restaurações cujo critério exige que o resultado
delas seja “harmoniosamente perceptível”,
adotem o título que associa a “Restauração” com
a “Arqueologia”.
Até aqui foram vistas as razões pelas quais, ao
tempo que se levava à cabo a restauração do forro
do Salão Nobre, se realizara um consciencioso estudo
dos materiais antigos. Nas peças de verdadeiro valor
arqueológico, se processaram exames analíticos com
farta documentação das observações, dos registros
instrumentais e das verificações finais. Nesta metodologia
em que também se fizeram experimentos e se induziram
princípios formulando teorias, muito teve que ver
o prévio estudo do conjunto dos documentos antigos,
originais da Santa Casa, compilados pelo historiador
Carlos Ott, que foram oportunamente cedidos pelo
Instituto do Patrimônio Histórico Nacional. A orientação
partiu das indefinições, inexatidões e contradições
encontradas nos diversos autores, mas principalmente,
no caráter conciso dos assuntos técnicos importantes.
O monge beneditino, pesquisador
Dom Clemente da Silva-Nigra, por exemplo, depois
de realizar um exaustivo trabalho sobre a obra do
notável arquiteto Frei Macário de São João, quem
em 25 de junho de 1654, se avocava a supervisão
dos detalhes do frontispício e interiores da Igreja,
e do claustro da Santa Casa fez a seguinte ressalva:
“Discordamos em muitos
pontos da interpretação dos documentos originais,
publicados pelo estudioso Prof. Carlos Ott, sobre
a Santa Casa de Misericórdia. Como o autor não conseguiu
localizar o destino das quatro grandes colunas monolíticas,
nem se lembrou da possibilidade da existência de
um pórtico, a sua posterior explanação ficou bastante
prejudicada”.
(Dom Clemente da Silva-Nigra, Os dois escultores, Universidade
Federal da Bahia, BA-1971).
Por outro lado, ao pesquisar nos documentos da Santa
Casa, o próprio Ott percebe que os documentos “por
estarem muitos deles carcomidos pelas traças e outros
com folhas faltantes ou rasgadas a verdade havia
ficado comprometida e, em casos, menoscabada”.
Em realidade mal podiam encontrar-se as colunas
monolíticas que sem dúvida, haviam existido
na Igreja, porque, como era de costume nas obras
arquitetônicas de envergadura referidas a modificações,
não existiam desperdícios. As peças removidas eram
aproveitadas, geralmente reestruturadas e remanejadas
na nova construção ou dadas como parte de pagamento
às próprias empresas construtoras. Como se vê no
assento redigido na Santa Casa em 1º de Novembro
de 1656, quando se decidiu a demolição da Igreja
antiga, levantada por Men de Sá, para ser modificada
por estar “muito danificada”, a cantaria
sofreu esse destino, como se vê no seguinte documento,
como parte de paga aos mestres que a demoliriam
se entregaria “toda a alvenaria que houver na
Igreja, bem assim toda a cantaria lavrada”.
Entre outras coisas, o referido documento diz :
“A parede há de ir hum
degráo de cantaria e a porta principal della, e
frontespicio ha de ser assinada pelo Provedor [Antonio
da Silva Pimentel] e dos ditos mestres [Francisco
de Magalhães e Pedro da Fonseca] e toda a obra
que fizerem de alvenaría se lhes pagará a cuatro
mil reis e setecentos a praça, pondo elles ditos
todos os materiaes e servicios necessários, e para
que o possão mais comodamente, lhes larga o dito
provedor toda a alvenaría que ouver na Igreja velha
para que elles a derrubem e se aproveitem della,
sem se lhes descontar por isso couza alguma, e toda
a cantaría da obra, e mais partes que levar moldura
se lhes pagará por cada vara conforme se costuma
medir, dois mil e seiscentos reis, com declaração,
que elles serão obrigados a por a cantaria em carregadouro
no pé de guindaste, e dali até o lugar da obra a
custa da Santa Casa os carretos e a cantaría.”
Como se verá mais adiante algo similar ocorreu com
o bronze dos sinos antigos.
O
projeto da reconstrução da Igreja da Santa Casa
de Salvador, seguindo o traçado idealizado pelo
notável arquiteto beneditino Frei Macário de São
João, foi decidido no “Consistorio da Casa da
Santa Mizericórdia”. A decisão foi tomada em
1653 devido ao fato de que a Igreja construída em
“pedra e cal” pelo terceiro Governador Geral
do Brasil, D. Mén de Sá, entre 1557 e 1572, “estaba
muito danificada”.
O
documento de 1° de Novembro de 1653, conservado
no Arquivo da Santa Casa, diz:
“Ao primeiro dia do mez de Novembro de mil seiscentos
e cincoenta e três annos nesta Cidade de Salvador
no Consistorio da Casa da Santa Mizericordia estando
em Meza o Provedor Antonio da Silva Pimentel e mais
Irmaos Concelheiros, se ajuntou a Irmandade
e sendo junta pelo Provedor della lhe foi proposto
que a Igreja desta Santa Casa estava muito damnificada(...)
e que convinha a autoridade desta Santa Casa, e
ao Culto Divino della, porquanto o Irmão Antônio
Dias Ottoens deixara algunas esmolas para se repartirem
em obras pias à eleição do Provedor e mais Irmãos,
e nenhuma o era tanto como tratar-se do ornato da
Igreja, ele dito Provedor determinára com parecer
da Mesa facer algumas benfeitorias como era o arco
da capella e o Côro lançado da banda de fora
[nome dado a galilé],
o que sabido por alguns Irmaos estranharão fazerem-se
as tais obras sem remediar que a Igreja tinha de
capacidade porque sempre ficava [pequena]
pelos erros que teve a principio e parecia melhor
que à despeza que se había de gastar (...) no era
mais que remendo e impossibilitar o zello de quem
a quizesse fazer maior, parecía mais conveniente
gastar a dita quantía em principiar huma Igreja
nova que fosse capas para a Irmandade nos dias solemnes
de suas festas, porquanto a elle dito Provedor le
tinham chegado a notícia destas coisas que se dizião
quería obrar cousa alguma sem parecer de toda a
Irmandade, lhe propunha comno logo propoz todas
as razoes referidas, e lhe pedio que quizessem dar
seu parecer neste particular o que lhe parecesse
mais conveniente assim ao Culto divino como a autoridade
desta Santa Casa, e logo por todos os Irmaos uniformemente
foi dito que consideradas as razões propostas(...)
lhes parecia mais acertado e conveniente principar-se
o edifício da Igreja nova, porquanto, a que estaba
feita por ser pequena tudo o que se fizesse nelha
era gastar dinheiro sem proveito, e por todos concordarem
neste parecer, o dito provedor mandou fazer este
assento em que todos asignarão com elle e os Irmãos
Concelheirosem Meza, e eu o Capitam Belchior Barreto
escrivão desta Santa Casa que o escrevi e assignei”.
Firmam : “O provedor Antonio da Silva
Pimentel - Belchior Barreto - Amaro Baptista - Jozé
Falcão de Souza - Antonio Fernandez - João Pixoto
Viegas - João Alves - Domingos Aragão de Araújo
- Bento do Vale Ribeiro - Antonio de Souza de Andrade
- Estevão da Cunha de Sá - Francisco de Amaral -
Gonçalo Pinto de Freitas”.
Os achados recentes permitiram constatar
a existência da “galilé” desenhada pelo Irmão
beneditino Paulo Lachenmayer, publicado pelo monge
beneditino D. Clemente de Silva-Nigra em 1971 (foto
001
e det. 002).
Neste desenho tentativo se reproduz o frontispício
com a galilé. No interior se observa que além da
porta principal, existia uma lateral que seria a
única nos flancos. É importante assinalar que a
planta correspondente ao segundo coro só foi construída
quando da decisão de uma nova intervenção, depois
da doação testamentária deixada pelo benfeitor João
de Mattos Aguiar, morto em 26 de Maio de 1700. Tal
intervenção se cumpriu em 1720, cinqüenta e quatro
anos após a morte do Frei Macário que ocorreu em
1676, quando se construiu o coro alto, se levantou
o forro e se eliminou o pórtico e a galilé. Somente
dois anos mais tarde se azulejaram os muros laterais
e se instalaram dois painéis que se situam em torno
da porta principal. Estes representam as figuras
de confrades alabardeiros mascarados, preparados
para levar a cabo missões caritativas que sempre
deveriam guardar um sigilo total. (era este um costume cuja antiguidade se remonta ao ano de 1244,
quando a “Cofradia da Misericórdia” de Florença
foi fundada). Foto 003
No excelente trabalho de Lachenmayer
existem dois conceitos equivocados. O primeiro deles
se refere a porta lateral da galilé, que segundo
ele se comunicava com a entrada ao Hospital. No
entanto, a única passagem lateral deste espaço se
encontrava em comunicação com o claustro, ou seja,
na direção Leste. O segundo tem haver com a parte
alta da igreja, que na realidade era inexistente,
já que a planta mais alta se encontrava ao nível
do coro.
Segundo o exaustivo estudo realizado
por Dom Clemente Maria da Silva-Nigra o frontispício
da Igreja contava com um portal de três arcos de
médio ponto com “as collunnas da porta inteiriças
com suas bases e capitel assentadas na obra do frontispício
da maneira em que estão na trassa pagaria a Santa
Casa por ellas quatrocentos mil réis que são a cem
mil réis cada”. Além disso, já existia o nicho
que foi posteriormente aproveitado para a nova fachada.
Na parte superior haviam “dois cartões” e,
em um plano mais alto havia uma cornija com tímpano
clássico é óculo.
Isto significa que na prática, nesta
época a Igreja idealizada por Frei Marcário de São
João perdia as principais características prístinas
do Renascimento colonial. Segundo assinala Sívio
Bocanera, quiçá o sinal mais saliente à vista desta
mudança tenha sido a desaparição da modesta torre
com sua cúpula branca de tijolos. (Bahia Epigráfica,
pág. 395-396). O acréscimo da torre só foi concluído
em 1728 e os indícios da reforma ainda podem ser
vistos no interior dela. A torre de Frei Macário
estava armada no clássico címbrio de “meia laranja”.
Como se observa no trabalho de Luiz dos Santos Vilhena,
publicado em 1802, tinha em sua cúspide um cata-vento
de grimpa de formato simples. Esta torre, como o
observam em consenso os historiadores, desaparecia
nas paisagens em que se divisavam outros cocorutos
que caracterizavam o perfil de Salvador. Já a partir
de 1720, a torre não só se fazia visível como também
se destacava por seus azulejos coloridos e principalmente
por seu estilizado porte. A agulha alcançou uma
altura considerável, ganhou uma bordadura de balaustres
e complementando, dois sinos novos foram mandados
fazer quando a torre ainda não havia sido concluída.
O encargo diz:
“Aos
quince días do mes de março do anno de mil setecentos
e vinte e oito estando em meza redonda na Caza do
Consistório da Sta. Mizericordia nesta Cidade do
Salvador Bahia de todos os Santos o provedor della
o muito Reverendo Chantre o dezembargador João Calmon
comigo escrivão e mais Irmãos consilheiros da Meza
asignados foy proposto pello dito Irmão Provedor
hera precizo mandar facer umsino grande e houtro
mais pequeno para servirem na torre que de novo
se estaba fabricando tanto por ser incapas o conque
hactualmente se estava servindo coanto por depender
ha dita torre que antigamente servia; e por coanto
havia na terra um artifice pirito na fundição de
sinos o que bem habia mostrado em varios que havia
feito com notavel satisfação geral agrado de todos;
se devia mandar chamar para com elle se ajustar
a forma com que se havião de fabricar os tais sinos:
e com efeito foj logo chamado o tal fundidor Alexandre
Ferreira da Rocha e sendo-lhe proposta a dita obra
depois de varios debates que houve risiproquamente
se vejo hajustar os treis [aparentemente, até o
dia de hoje não existiram neste número] a saber
hum grande de vinte e coatro harrobas e outro pequeno
de seis harrobas pouco mais hou menospagando-lhe
a Caza de feitio a rezão quatorze vinteis ha libra
dando-lhe o metal [dos sinos da antiga torre] e
no que elle puzer de mais no cazo que não chegue
o que lhe der a Caza lhe satisfará ha rezão de quinhentos
e sesenta reis ha metade pello feitio e houtra ha
metade pello metal”.(Asignan Reverendo Provedor
João Calmon, Hieronamo de Castanheda de Vasconcelos,
Ignacio Barboza Machado, Pedro Soares Ferreira,
Ignacio de... Pereira Góes, João de Miranda Riveiro,
Antonio Romão de Andrade, Manoel Rodrigues de Araujo,
Francisco de Tavares, Vicente Rodrigues Pimenta,
Joseph Riveiro de Mendoca, Francisco Lopes Gomes,
Alexandre Ferreira da Rocha [fundidor]).
O lineamento do frontispício idealizado
por Frei Macário de São João (Quadro 004)
foi recriado a partir de fontes documentais contemporâneas
à época e das pesquisas arqueológicas realizadas
em 2005, durante a primeira etapa do restauro. O
templo contava com um prostilo de três arcos, quatro
colunas monolíticas com plintos e capitéis, e sendos
cancelos fechavam o espaço entre o portal e a porta
de acesso à nave. Desta maneira ficava constituída
uma galilé que, por encontrar-se na área correspondente
à parte baixa do coro, nos documentos é mencionada
como “coro lanzado da banda de fora”. Ou
seja, sobre o muro posterior da galilé se assentava
a parte dianteira do coro; na época não existia
o segundo coro. No espaço da galilé, que para a
arquitetura configura um átrio, existia, além da
porta principal, outra lateral que dava ao claustro.
As folhas da porta principal estavam confeccionadas
em jacarandá e se encontram armadas com um “engradamento”
contendo quatro almofadas, constituídas por três
placas, fixadas com quatro cavilhas cilíndricas
de jacarandá, cujas bases se podem perceber na parte
dianteira. Na
foto 005
pode ver-se o portal da atual fachada da Igreja
e na 006
se vê o seu acesso, onde aparecem o Dr. Antônio
Ivo de Almeida, Secretário Geral da Santa Casa de
Misericórdia e Gian Luigi Colalucci, Ex-Diretor
dos Museus Vaticanos e responsável pelo restauro
da Capela Sixtina, no dia em que se deu início a
restauração em Bahia.
Na foto 007
se observam detalhes do nicho Renascimento projetado
por Frei Macário de São João e na 008
se vê o aspecto da Igreja em 1920. Na época da antiga
Igreja, era esta um dos templos mais elegantes da
Bahia e contava com uma iluminação branca gerada
à base de “azeite de peixe” (óleo de baleia).
Desta época são as Memórias deixadas em quatro
cadernos manuscritos por Anna Ribeiro de Góes Bittencourt,
dama da sociedade mais distinta do Recôncavo, alguns
de cujos membros, conforme se vê pelas assinaturas
dos documentos transcritos, faziam parte da própria
Mesa da Santa Casa. Nestes testemunhos diretos se
recriam os passeios da autora, quando ainda moça,
passeava em “cadeira de arruar levada por possantes
negros africanos”. Estas Memórias revivem
nas seguintes palavras:
“O
traje das moças era menos severo: dispensavam o
véu e traziam, sobre o vestido preto, uma renda
que descia da gola quase à cintura, fechada na frente
por um laço de fita. Só minha mãe, que se considerava
velha embora só tivesse trinta e sete anos usava
o véu. A igreja que mais me agradou foi a da Misericórdia.
A ceia de Jesus e dos Apóstolos representados por
imagens belíssimas de tamanho natural, sentados
ao redor da mesa que parecia provida para uma verdadeira
refeição, encantou-me. Do corpo da igreja víamos
as órfãs nas tribunas. Eram pelo maior parte raparigas
de cor; havia poucas brancas, e ouvi diversas pessoas
notarem a beleza de algumas”(Maria Clara Mariani
Bittencourt, da Fundação Clemente Mariani - Longos
Serões do Campo).
Já em 1718, a fachada da Igreja foi novamente modificada
: as cartelas haviam sido substituídas por duas
janelas e o pórtico se havia transformado em uma
porta simples, que dava acesso à nave. Para Dom
Silva-Nigra, que havia ponderado tanto o livro como
o descobrimento de Carlos Ott, deve ter sido exasperador
que se houvessem perdido documentos sem que o historiador
da Santa Casa pudesse localizar o destino das quatro
grandes colunas monolíticas do portal.
As pesquisas realizadas durante a intervenção atual,
trinta e cinco anos após a publicação de Silva-Nigra,
foram encontrados soterrados dois importantes testemunhos
da antiga construção de 1657: um suntuoso leme de
gonzo de um cancelo que na atualidade, apresentava
importantes perdas ocasionadas pela corrosão, e
uma almofada pertencente a uma grande porta de madeira
de jacarandá, cujas outras partes foram fortuitamente
encontradas a posteriori.
Pela antiguidade e singularidade das peças, sem
igual nos edifícios da época e o fato de haverem
permanecido no prédio, indicam sem sombra de dúvidas
que sua origem não pode ser outra que a galilé daquela
Igreja “trassada” pelo insigne “Irmão
Beneditino”.
O descobrimento da almofada de madeira
de jacarandá (Dalbergia
nigra) soterrada dentro da área das ruínas
do antigo Hospital foi completado com o achado das
portas que haviam permanecido encobertas por grossas
camadas de pintura. Este fato se deu a partir de
fotografias tiradas no momento do desabamento ocorrido
em 18 de agosto de 2002. As principais peculiaridades
estão relacionadas com sua confecção : está armada
com tábuas superpostas, emparelhadas a enxó e fortemente
unidas por quatro cavilhas grandes. A tábua maior,
onde se fixam as outras duas apresentam em suas
beiradas uma profunda “fenda de ensamblado”
onde penetravam as “espigas” da engradagem
da porta. Ou seja, que a tábua maior faz parte da
armação da porta e seu envés pertence ao interior
da porta. Em uma das laterais da peça se conserva
um fragmento da lingüeta de encaixe com restos do
engradado. Este encaixe pertence à caixilharia,
e sendo também de jacarandá indica que toda a porta
havia sido construída em tal madeira. Este é um
fato curioso, uma vez que esta espécie era empregada
usualmente em mobiliário, enquanto que a madeira
mais apreciada para a confecção de portas suntuosas
era a canafistula (Cassia ferruginea Schrad),
na época chamada de “gitaipeva”. A porta
do hoje Salão Nobre, por exemplo, foi construída
sob alto custo nesta madeira.
O acórdão surgido em reunião dos mesários da Santa
Casa com o mestre carpinteiro Pedro Fernandes diz:
“Aos vinte dias do mes de outubro de mil e seiscentos
e noventa e três annos nesta cidade de Salvador
Bahia de Todos os Santos e Caza do Despacho do Consistorio
da Mizericordia, estando em meza redonda o Provedor
della Pedro Unhao Castello Branco, Dezembargador
da Relhação deste Estado comigo Escrivão abaixo
no meado e os mais Irmãos Conselheirios foi proposto
pello dito Provedor que era muito conveniente e
necesario ao servicio desta Caza pella falta que
avia nella de huma sacristia e caza para se recoller
os paramentos e alfaias da proçição e mais cosas
do serviço deste Consistorio fazer-çe na Casa que
fica fronteira da rua que corre sobre o passaportas
para as janellas e para as portas que de dentro
da dita Caza e que são duas e assim mais portas
as janellas que da dita Casa correm pello adro da
Seê te chegar ao Consistorio o que visto pello dito
Provedor e mais Irmaos Conselheiros votaram uniformemente
que herão contentes e de muita utilidade se fazerem
as ditas portas de gitaipeiva nas formas das deste
Consistorio e que se desse a dita obra a Pedro Fernandes
mestre carpinteiro para fazer de suas maos de que
se lhe pagará por conta da Caza por mão do Irmão
Thezoureiro que no tal tempo servir e de como se
obrigo a fazer a dita obra asinou com o dito Provedor
e mais Irmaos Conselheiros comigo Escrivão Francisco
Barroso Vianna que o escrevy e mandou mais o Provedor
sertidão jurada aos Santos Evangelhos para desta
sorte aver seus pagamentos e de como se mandou facer
esta declaração eu Francisco Barroso Vianna o sobrescrevy
e asiney.(Assinam) Provedor Desembargador Pedro
de Castelbranco, Francisco Barroso Vianna, Antonio
de Barros, Gabriel Barboza Lobatto, Mathias Rodrigues
Ferreira, Manoel de Souza Araujo, Bartholomeu Nabo
Correa, Sebastiam da Silva Teixeira, Joseph Manem.
As fotos 009,
010
e det. 011
mostram ambos os lados da almofada tal como foi
encontrada. Curiosamente esta resistiu indene ao
soterramento e aos ataques biológicos, e na 012
se vê a peça já limpa. A foto 013
mostra o momento em que se aplica a cera fóssil
(ceresina). Podem ver-se as quatro cavilhas
cilíndricas que mantém unidas as peças tabulares
de que a almofada se compõe. Em 014
e 015
aparecem duas posições da almofada já tratada.
As folhas da porta principal estavam
confeccionadas em madeira de jacarandá e armadas
com um engradamento contendo quatro almofadas constituídas
por três placas encavilhadas. Nas fotos
016
e 017
se pode comparar o cavilhado, muito comum na época,
com um encaixe similar existente em uma mesa conventual
quinhentista, também de jacarandá. Em 018
pode ver-se um detalhe da almofada com um resto
da caixa do engradamento da porta dando a pauta
da modalidade do armado.
Nas fotos 019
e 020
é possível se observar as duas folhas da porta que
foi encontrada com posterioridade. Na segunda pode
se notar a falta da almofada e a foto
021
mostra o subsolo onde foram achadas as duas folhas
(flecha).
É importante levar em conta que os poucos
restos originais do hospital foram encontrados nas
plantas subtérreas, sendo que do nível do solo somente
despontava um grosso muro de 60 cm de espessura,
foto 022
e no det. 023
podem observar-se os ajuntoiros ou perpianhos
de inserção no muro (agora inexistente), que dá
à Ladeira da Misericórdia. Na época estes ajuntoiros
eram chamados tições (Cônego Raimundo Trindade
- Revista do D.P.H.A.N. - nº 17).
A foto 024
mostra a planta superior do Hospital que era a mais
nova, pouco antes do desabamento. No extremo esquerdo
da imagem se vê o único muro antigo que alcança
essa planta. Na foto 025
se vê o Hospital, em 18 de agosto de 2002, dia em
que começa a desabar, observe-se na foto
026
que o telhado já tinha começado a cair. Na 027
se vê a quina rebaixada de um dos muros antigos
que ainda se conserva. Era o limiar de ingresso
ao nosocômio. Pode observar-se que as rochas todavia
não eram estereotômicamente entalhadas. Estas pedras
de cantos arredondados eram chamadas “cabeça de
negro” e formavam parte dos muros mais antigos da
cidade de Salvador. Exemplo disso se encontra no
resto de um muro lateral, à esquerda da Igreja da
Nossa Senhora da Barroquinha. A foto
028
mostra em sua parte central os possíveis
restos do cercado que fora descoberto no curso da
restauração da igreja, pela engenheira Nadir Franco
Lima e se acredita pertencer ao resto de uma das
cortinhas do cerco da cidadela de Tomé de Souza,
que defendiam a praça junto a Porta de São Bento.
Na foto 029
se vê um dos tantos remansos da orla marítima de
Salvador que proporcionava estas rochas roladas
em abundância, na época chamadas jacareacanga,
termo Tupi derivado de cabeça. A foto
030
e det. 031
mostram um dos escassos empedrados primitivos que
ainda se mantém intactos na Rua do Bispo (Praça
da Sé - BA).
Pode-se afirmar que o antigo leme (parte
móvel do gonzo) encontrado também soterrado,
só pode ter pertencido a um ostentoso cancelo. Esta
dedução se deve às suas dimensões avantajadas, ao
sistema que corresponde a uma bisagra de “espigão
e cachimbo”, ao caráter ornamental de seu desenho,
e, principalmente pelo ângulo de 13.3 graus que
apresenta seu espigão, com respeito ao “cachimbo”
(peça fixa do antigo sistema, e que somente pode haver pertencido
a uma cancela de ornatos vazados).
Esta porta somente podia ser útil para a separação
do espaço correspondente a uma galilé, espaço usado
nos antigos templos, atualmente inexistente na Santa
Casa. Esta pode ter sido dispensada com o objetivo
de proporcionar um espaço maior (aprox.
4 m) que corresponde atualmente ao coro.
Dessa maneira a nave ganhou uma nova dimensão e
os muros laterais ampliados puderam ter sua azulejaria.
A galilé era um local onde nos dias festivos mais
importantes do calendário litúrgico se reuniam os
membros das irmandades com os colonos. Ali se organizavam
as procissões e se recebiam os prosélitos.
As fotos 032
e 033
mostram por ambos os lados a peça tal como foi encontrada.
Naquele momento pesava 3,3 kg e praticamente se
achava em estado de desintegração, o que demandou
de imediato que a peça fosse submetida a um processo
de dessalinização. Na foto 034
e det. 035
é possível se ver respectivamente a peça
e o detalhe do espigão do leme já consolidado. No
croqui 036
podem ser examinados com precisão os
pormenores do gonzo.
O processo de dessalinização consistiu em manter
submersa a peça em água tratada com um deionizador
de resinas aniônicas e catiônicas e filtros de carbono
e de prata. O leme permaneceu durante três semanas
neste processo, com a reposição da água a cada dois
dias. Na consolidação se usou resina “epóxi”
com o objetivo de garantir a aproximação à neutralidade.
As fotos 037
e 038
mostram a arcada da magnífica Igreja de São Bento,
projetada em 1649 pelo arquiteto Frei Macário de
São João, e no detalhe 039
se observa um dos gonzos de São Bento, que como
se percebe, tem uma similitude com o da Santa Casa.
Porém o gonzo encontrado possui uma forma mais ricamente
elaborada e sua dimensão é maior. De onde se conclui
que os atualmente existentes em São Bento não são
os originais da época, porém ainda conservando um
estilo prístino, apresentam um sistema de pivôs,
empregado em épocas posteriores. Na foto 040
é possível comparar os gonzos, percebendo-se a diferença
na confecção deles. Observe-se que o pertencente
à Santa Casa possui um formato muito mais aprimorado.
O aço do qual é constituído, mesmo depois das perdas,
é de uma espessura muito maior, superando neste
aspecto a solidez dos gonzos atuais da Igreja de
São Bento. Nela, alguns cancelos têm seus gonzos
substituídos por peças modernas. Na foto 041
se vê uma peça substituída. Note-se que no extremo
esquerdo existe uma emenda na madeira da porta-gelosia.
Na foto 042
vê-se o gonzo do cancelo que dá acesso a escadaria
da Santa Casa. Nele se nota que as características
do espigão não coincidem com as do “cachimbo”
fixo na jamba. Sua forma cônica invertida indica
que se trata de um gonzo de construção mais avançada
cujo cachimbo apresenta um sistema de lubrificação
“cachimbo com chumaceira”
(era
um sistema jeitoso para atenuar o eventual ruído
produzido pelo roçamento). A foto
043
permite ver a excelente manufatura da gelosia
dessa porta. A portada da escadaria de mármore foi
instalada 12 de setembro de 1704, sendo Provedor
o Coronel Pedro Barbosa Leal, e o momento em que
se construiu o forro da loggia por ordem
do Provedor Capitão Domingos Affonço Cetão em 21
de fevereiro de 1706.
Gonzos simples se vêem na porta regrante
disciplinaria ainda existente na Santa Casa (
fotos 044
e 045),
que outrora guardava o acesso ao Hospital. Algumas
destas peças são originais, que com o tempo sofreram
muitas reparações, porém, ainda conservam suas características
fundamentais. Em 046
pode ver-se a porta, e nas imagens geminadas 047
e 048
se comparam as faces inversa e reversa da espreitadeira,
pela qual se prestava atenção às pessoas que acudiam
ao hospital.
A fundação do Hospital da Santa Casa
de Salvador se perde nas brumas do tempo. Pode-se
calcular, porém, prestando atenção nas datas de
escassíssimos documentos que revelam sua existência,
que o nosocômio teve início com o mesmo nascimento
da cidade.
Existem quatro documentos datados de
1549 que noticiam sobre a existência do Hospital.
Dois deles tem haver com as “ordens de multas”
que devem pagar-se “para as obras do hospital”,
estas penas pecuniárias regeram desde 5 de outubro
de 1549 (Documentos
históricos,
Vol. 37, Doc. 269, pág. 96 e seguintes) a 12 de Janeiro de 1550 (Vol.
37, Doc. 408, pág. 169).
O primeiro dos documentos tem data de
5 de outubro e seu texto diz:
“A cinco de Outubro de mil quinhentos, e quarenta
e nove passou o Governador mandado para dito Thesoureiro
que pagasse ao Provedor do Hospital da Cidade de
Salvador novecentos reis em mercadoria, em que condemnou
João Lopes Merinho da Nau Capitanea para as obras
do dito Hospital, e que por elle com seu conhecimento
lhe sejam Levados em conta”.
O segundo documento está datado em 6
de Novembro do mesmo ano e manifesta o seguinte:
“A seis de Novembro da dita era passou o Governador
mandado em ausência do Provedor-Mor para o dito
Thesoureiro, que pagasse a Diogo Moniz Provedor
do Hospital desta Cidade de Salvador mil, e quatrocentos
reis em mercadoria os quais eram do Soldo que haviam
de haver Pero Gonçalves Bombardeiro, e Antonio Grumete
da Nau Conceição a saber; ao dito Pero Gonçalves
oitocentos reis do mez de Maio, e a Antonio Grumete
seiscentos reis de dito mes em que foram condenados
por dito Governador para o dito Hospital”.
O terceiro documento é uma ordem datada
de 14 de dezembro de 1549 para entregar à
“Diogo Moniz Provedor do Hospital desta Cidade de
Salvador testamenteiro, que é de Estevão Fernandes
de Távora marinheiro da caravella Leoa, que nesta
Cidade faleceu mil e oitocentos reis em mercadoria,
que lhe eram devidos a dito defunto de dois meses
Junho e Julho á razão de novecentos reis por mez”.
Na realidade estes papéis comprovam
que em meados de 1549 o Hospital já existia e estava
organizado com Provedor e Mordomo. Este fato obedece
a um costume que existiu em todos os nosocômios
pioneiros de América que estavam vinculados com
Irmandades Hospitalares. Entre os documentos gráficos
da conquista do México destacam-se os desenhos do
indígena Felipe Guamán Poma de Ayala. Alguns deles
lembram a incipiente organização hospitalar em América.
Nas foto 049
e 050
podem-se ver cenas sobre o ato do atendimento aos
doentes levada à cabo pelas obras de caridade. Na
primeira delas, titulada “Sta obra Misericórdia”,
se observa os cuidados dispensados à uma paciente
dentro de um recinto. A segunda está dedicada à
“los maiordomos de La Sta ygreja y los
cofrades-hospitales deste Reyno yn° pobre” (El transplante Social e Cultural - 1536/1810 - publicado
por Guilhermo Furlong S.J.)
Além dos documentos acima citados existe
uma carta escrita em fins de agosto de 1552 pelo
Padre Manoel da Nóbrega, dirigida ao Padre Simão
Rodrigues, que se encontrava em Lisboa. Nela comentava
as dificuldades de manter “Cassas de mininos
nestas partes donde são muito necesarias: não se
podem ter sem bens temporais e da maneira que esta
casa [da Misericórdia] está fundada”.
Na missiva, Nóbrega deixava explícito
que ainda os meninos indígenas que ficavam doentes
eram encaminhados à Misericórdia. No parágrafo 9
Nóbrega diz:
“Neste comenos achegou
o Bispo [D. Pedro
Fernandes Sardinha] tanto de nós e de toda a
terra desejado ao qual achegaram logo as vozes dos
murmuradores, e elle como zeloso e pai mo disse
aconselhando-me o que devia de fazer. Ho que tudo
posto em seu parecer, e comunicando com ho Governador
e outros que muito em Christo nos amão, detreminamos
escrever assi tudo largo a V.R. e entretanto que
em nenhuma maneira desabrisse mão da cassa, a qual
eu dava há Misericórdia desta Cidade, e que tivessem
cuidado do meninos, ho que nem elles nem ninguém
quizerão ac[e]itar.”
(Serafim Leite S.I., Cartas dos Primeiros Jesuítas
do Brasil, Vol. I, pág. 405).
Existe também uma carta do segundo Governador
Geral do Brasil, Dom Duarte da Costa, pedindo a
El-Rei de Portugal, Dom João III, assistência para
o Hospital da Bahia. A missiva de D. Duarte da Costa,
Governador do Brasil a D. João III Rei de Portugal
datada em Bahia, aos 3 de abril de 1700 diz:
“Deve
Vossa Alteza também mandar provisao ao Governadores
para poderem vender degredos aos homens cá forem
degradados de humas Capitanías pera outras, ou pera
as obras ou pera os bergantins ou comutar os ditos
degredos e assim perdoar alguuns a algumas pessoas
que seja mais vosso serviço nam irem comprir os
ditos degredos e os preços que as partes aomde pagar
sejam os que Vossa Alteza mandar ; e devía Vossa
Alteza facer esmola e mercê do que pelos degredos
pagarem ao Hospital de Nossa Senhora das Candeias
desta cidade, porque hé muito pobre e tem muitas
necessidades, porque se curam nele todos os enfermos
assim os que adoecem na terra como os que vem nos
navíos”.
(Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil
T.II, pág. 210). O documento é revelador,
já que Dom Duarte da Costa tinha chegado a Bahia
em 8 de julho de 1553 para permanecer no Governo
do Brasil pelo período de três anos (1553-1556),
ficando claro que quando assumiu o Governo, o Hospital
só pode ter sido idealizado por Tomé de Souza, que
Governou o país desde a fundação da cidadela em
1549, até 1553. Porém é mais que provável que a
assistência aos doentes tenha começado antes mesmo
da conquista. Esta haveria iniciado com o próprio
“boticário” da expedição de Tomé de Souza.
Na época, geralmente as empresas marítimas oficiais
ou não, contavam com um “boticário”, que
se ocupava do atendimento dos doentes. No caso,
o cargo pertencia ao castelhano Felipe Guillén,
que além de possuir farta experiência na paramedicina
e cirurgia praticada nas naus, era um exímio cartógrafo
que havia inventado um meio engenhoso para determinar
as longitudes com a agulha azimutal. (Referências
de Guillén em 1525 e publicadas em 1531 por Fontoura
da Costa, dão conta que “el
primer inventor que procurase dar la longitud por
esta diferencia fué um Felipe Guillen boticáriovecino
de Sevila, hombre mui entendido e ingenioso (...)
el cual com él se hubiese informado de algunos pilotos
amigos suyos la propriedad de aguja de marear y
de las diferencias que havia em el viaje y camino
de Sevilla a la Nueva Espana, pensando en si, halló
por sua cuenta que por esta via, mejor que por outra
ninguna, se podia dar muy bien la longitud (...)
y por esta imaginación se acordo de pasar em Portugal,
pensando que alli seria mejor pagado della, y esto
fué en el año 1525 e asi fué. (Alonso
de Santa Cruz - Livro das Longitudes - publicado
por F. da Costa - A marinheria dos descobrimientos
- pág. 144-145).
Pode deduzir-se que uma das cartelas,
a mais antiga das que ainda existem na esquina da
fachada da Casa de Misericórdia, pode estar relacionada
com o antigo edifício do Hospital. Isto parte do
estudo realizado nos relevos ornamentais, o qual
abrange até os mínimos pormenores, a começar pelo
símbolo da Divina Saudação “Ave Maria” sobre
um campo acoraçoado ( foto 051)
e o coroamento da cartela com a figura de uma cabeça
de leão com as fauces abertas, representando a posse
da Coroa. Quiçá seria esta figuração a que induzira
ao historiador Carlos Ott a chamar as cartelas de
brasão.
Na foto 052
tirada a nível pelo Dr. Ivo de Almeida, se observa
o grupo formado por duas cartelas e uma grande coroa,
que deve ser analisado seletivamente. Desde a grande
coroa, desproporcional em dimensões e fora do centro
do coroamento, há uma sucessão de desajustes, começando
pela primeira cartela, cuja coroa original já não
existe. A cartela inferior e a grande coroa foram
entalhadas no ano de 1695 quando se levantou este
andar para abrigar a nova enfermaria de mulheres,
setor fundado na segunda metade do dito ano, pelo
provedor Antônio Maciel Teixeira, porém a cartela
que evoca o Ave Maria é de confecção muito
anterior e está elaborada em granulito (rocha
efusiva) inexistente em toda a costa natural do
Brasil. Ou seja, que as peças assim como os silhares
laterais, que se observam na foto têm origem extraterritorial.
A dureza do granulito permitiu que as peças se conservassem
imunes às problemáticas condições climáticas da
Bahia. Também a uniformidade granular determinou
formas com superfícies mais aperfeiçoadas. Na
foto 053
se vê um detalhe do símbolo da sublime saudação
sob as faces do leão, representando o poder da monarquia.
Por outro lado, nestas peças existem sinais inequívocos
de haverem sido removidas de outro sítio, quiçá
do mesmo prédio, e posteriormente recolocadas no
lugar em que se encontram. No detalhe 054
se vê a junção de dois silhares. Na pedra superior,
com sua aresta machucada, se destaca o branco do
granulito com as suas micas negras (viotita)
e branca (moscovita). Na pedra inferior
(entalhada em arenito), ainda sendo muito mais mole,
desmiuçante, e de acabado mais rústico, observando-se
arestas perfeitas. Isto indica que a silharia de
granulito foi machucada com as entalhadeiras e as
pontas usadas quanto estas pedras foram tiradas
de outras posições em que tinham sido cimentadas.
No arenito pode-se observar uma perfuração de lavrado
perfeito, que servia para introduzir nela as tochas
que outrora iluminavam os atributos da Santa Casa
nas comemorações litúrgicas, principalmente durante
as solenidades de Semana Santa. Nas fotos
explicativas 55
e 56 se consideram as rochas das duas cartelas
e as argamassas de diferentes épocas :
1)
granulito (rocha eruptiva);
2)
restos de cimento de pozolana e cal;
3)
restos de cimento de cal hidráulica;
4)
restos de cimento moderno;
5)
arenito (rocha sedimentária do Cretáceo).
Os detalhes demonstram que os silhares
da primeira cartela estiveram situados em outra
parte e foram assentados com diferentes argamassas.
Da beirada inferior do granulito faltam esquírolas,
que evidenciam o emprego de talhadeiras para retirar
os compactos blocos da antiga localização.
Por lógica, prevaleceu a crença de
que a cartela e silhares em questão tenham pertencido
ao Hospital primitivo, fundado por Men de Sá e demolido
entre 1653 e 1654. Do ponto de vista estilístico
comparativo está claro que a peça de rocha eruptiva
foi elaborada em uma época anterior, já que suas
saliências se mostram próprias do Renascimento,
ou seja, são menos proeminentes que as do Barroco,
que prima no resto do conjunto alegórico. Deve-se
também ter em conta que em todo o Brasil costeiro
da época não existiam rochas vulcânicas. Isso leva
a acreditar que os silhares de granulito foram elaborados
fora do país, por exemplo, em Portugal, em cujas
costas abundam as canteiras de rochas graníticas.
(ver Adendo I). A foto 057
mostra o perfil da modinatura, e
na foto 058
aparece sobre arenito a data de 1695, em que se
rearmou o conjunto de peças, quando o então Provedor
Antônio Maciel Teixeira, que tomara posse no meado
deste ano, fundara a Enfermaria de Mulheres. Observe-se
a imperfeição da talha do arenito pela eventual
presença de um resto fóssil.
O fato de que a construção de um hospital
fizesse parte do plano fundador da cidadela
obedece à lógica, especialmente tendo-se em conta
que esta havia sido estrategicamente concebida com
bastiões defensivos numa colina de contornos íngremes.
É evidente que isto não podia ser diferente na Bahia,
já que como aconteceu em outros lugares durante
toda a conquista da América, o atendimento hospitalar
foi prioritário.
A limpeza profunda das pedras e a restauração
delas foi o que permitiu a correta leitura da modinatura
e também ajudou a corrigir alguns erros com respeito
aos dizeres. Tinham estes levantado dúvidas aos
historiadores, os quais a distância, haviam interpretado
erroneamente alguns detalhes das abreviaturas
e, principalmente, a data. A altura em que foram
instaladas as cartelas e em especial, a saliência
avultada da cartela inferior e a degradação do seu
arenito, também incidiram em equívocos. Por exemplo,
o historiador Carlos Ott leu a data como sendo 1696
e depois, como 1695. Assim diz : “Se
iniciou em 1691 a obra do novo hospital, do lado
da esquerda da Igreja. As informações sobre esta
construção são mais escassas. Mas temos no presente
caso a inscrição, colocada a maneira de nicho de
santo, freqüente em edifícios europeus, com o brasão
e data de 1696. Como este escudo se encontra
no segundo pavimento, podemos supor que em 1691
se começava a demolir o edifício do hospital
antigo, que estava no mesmo lugar. Atacou-se logo
em seguida a construção deste vasto e pesado edifício,
chegando-se ao segundo pavimento em 1695, o que
foi comunicado a posteridade através da inscrição,
único documento seguro desta obra.”
Como se vê no texto, se observam várias
imprecisões com respeito ao Hospital, a utilização
do novo prédio e como menos importante, a data e
a natureza da própria cártula. Na foto se vê a imperfeição
da superfície, devida ao fóssil e também a parábola
acentuada do campo da cartela, dificultando a leitura
correta. Estas presenças que impurificam os arenitos
das canteiras do Recôncavo são freqüentes assim
como também o são os sinais próprios de uma pedra
que também se apresenta com características de rocha
detrítica. A foto 059
capta o momento em que as cartelas são restauradas.
As talhas de arenito foram severamente danificadas
pelas chuvas salinas e, principalmente, pela destruição
eólica. Na foto 060
se observa em detalhe a intervenção realizada no
bordo de um rolo lateral da figura de Tritão, que
coroa a cartela inferior. Em 061
se vê uma ombreira de conglomerado arenítico,
da porta da sala do Provedor da Santa Casa e 062
mostra uma corrente de silhares do Forte Santo
Antônio. Esta espécie petrográfica foi preferida
nas antigas construções militares de Bahia.
O estudo minucioso das madeiras existentes
no madeiramento da planta inferior do Hospital se
fundamentou no exame dos restos dos muros e das
madeiras hipoteticamente mais antigas entre as encontradas
no local, e admitindo-se como verdadeiro o fato
de tratar-se de que façam parte de peças priscas,
foram separadas para seu estudo as duas únicas peças
de características relevantes pela sua peculiaridade
: uma coluna e uma viga que surpreenderam pelo peso
específico relativo e a coesão de suas fibras e,
especialmente, pela resistência ao processo de degradação
biológica da madeira em si e dos cravos ou restos
deles, já degradados. Tendo como fundamento prioritário
a observação com instrumental óptico de precisão,
se verificou que as superfícies das madeiras separadas,
mesmo depois de suportarem os rigores da tempérie
salina adversa, das contínuas precipitações tropicais
e das vicissitudes do abandono de séculos, ainda
conservavam múltiplas camadas de cal com incrustações
de caliche, de diferentes espessuras, tonalidades
e granulações ( fotos 063,
064,
065
e 066).
Na última foto se percebe o perfil poligonal da
coluna. Ambas as peças estavam confeccionadas em
madeira de sucupira (Diplotrops sp.) espécie
esta que durante a conquista resultou ser
a mais apreciada pelos construtores que chegavam
à Bahia. Prova da nobreza desta madeira se confere
no testemunho deixado pelo Capitão Artilheiro Gabriel
Soares de Souza. Ao referir-se a madeira de sucupira,
Soares de Souza disse: “não
são arvores muito façanhosas na grandura por serem
desordenadas nos troncos, mais tiram-se delas vigas,
esteios e fusos para engenhos, a madeira é parda
e muito rija [é tão] liada que nunca fende,
e para ligação de navios e barcos é a melhor que
há no mundo” (Gabriel Soares, Tratados descritivos do Brasil,
escrito no ano de 1568 e publicada em dois volumes
por Pirajá da Silva).
É bom lembrar que o Capitão Simão da
Gama de Andrade era um homem de Tomé de Souza que
foi beneficiado pela sesmaria que ligava o porto
com a mais importante fonte natural de água, sorte
de força de autoridade da época. As bicas eram conhecidas
pelo seu nome e proviam de água os navios que chegavam
a cidadela. A propriedade incluía também os terrenos
da Santa Casa e foram doados a esta a título do
mesmo, em nome do Governador Geral Tomé de Souza.
Não deve descartar-se a possibilidade de que Soares
tenha intervindo nas primeiras construções, como
o fizeram todos os pioneiros. Efetivamente, a característica
natural da sucupira é ser muito pesada; a massa
específica aparente (densidade),
a 15% de umidade
(g/cm³) é de 0,94 (ou
seja, muito pesada).
Durante o primeiro período colonial
a sucupira foi muito utilizada, tanto no âmbito
civil como no militar. Servia para a confecção de
partes indestrutíveis, como os cascos de madeira
das naus, até o momento em que as grandes embarcações
passaram a ser construídas em aço. Nesse momento
a espécie começava a escassear devido a grande demanda
dos estaleiros e também ao excelente carvão que
com ela se produzia. No sul da Bahia e no Espírito
Santo (zonas em que abundava) sua produção caiu drasticamente,
o que terminou inviabilizando sua exportação para
a Europa.
Na Santa Casa se construiu com ela o Hospital e,
por exigência da mesa diretiva, se confeccionaram
cambotas para o forro da Igreja. A coluna encontrada
nas ruínas do antigo Hospital era oitavada, como
muitas outras colunas que fizeram parte das estruturas
das igrejas das reduções guaraníticas do sul
(particularmente da Missão de São Ignácio Miní).
A foto 067
mostra a coluna no ateliê provisório da Santa
Casa. No detalhe se percebe o perfil dela e na 068
se vê a viga atravessando o pátio do Hospital.
Na atualidade a coluna pesa 48 kg e seu pé direito
chega a 2,80m. Porém a característica mais saliente
é que ainda conserva vestígios das diversas camadas
de cal com pigmentos de diferentes cores. Esta peculiaridade
indica que a função da cal não se limitava a manter
assépticos os ambientes, mas também criava efeitos
decorativos, que tendiam a alegrar os recintos.
Nas macro-fotos 069
,
070
e 071
se observam os cortes de enxó mostrando as inconfundíveis
características da sucupira, que durante a pesquisa
seletiva levada a cabo pelo Instituto se praticaram
em todas as madeiras duvidosas que se extraíam das
ruínas. A foto 072
mostra o momento em que as longarinas descartadas
eram transportadas. Neste caso, a experiência permitiu
identificar as inconfundíveis características da
sucupira. Nas zonas em que ainda existem pigmentos,
os pequenos restos de camada haviam sido danificados
pela água pluvial, que incidiu durante centenas
de anos sobre as madeiras. Chegou-se a verificar
meia dúzia de estratos superpostos de cal, entre
os quais aparecem capas pigmentadas (foto de
microscópio 073).
A crosta estava constituída por camadas de pintura
de cal, com ou sem pigmentos, e na capa superior
se verificaram resíduos de papelão. Nas fotos
074
e 075,
obtidas com magnificação 400 X, se observam diversas
camadas finas azuis, verdes, verde-azuladas e ocres,
e nas fotos 076
e 077
aparecem camadas finas de cores com tonalidades
anarquicamente dispostas.
Todas as amostras de pintura antiga
estudadas pertencem a pequenas partículas que se
desprenderam das peças durante a recuperação dos
restos após o desabamento. Alguns dos pigmentos
foram analisados por microscopia Raman, verificando-se
a presença de carbonatos de cobre (malaquita
e azurita) e de cores ferrosas (amarelos)
e férricas (vermelhos).
Lamentavelmente, a descontinuidade dos
restos de camadas pigmentadas superpostas torna
impossível saber se na pintura a cal dos recintos
do Hospital também existiam desenhos ou caracteres
inteligíveis. O que está claro é que na Irmandade
existia a inquietude por fazer dos recintos aminguados
e lúgubres, ambientes o mais agradável possível,
e que também as pinturas não somente recobriam o
madeirame, senão também os muros. A foto
078
mostra o momento em que os fragmentos de pintura
eram fixados para evitar o esmigalhado deles, e
como conseqüência, as perdas.
Entre
os estratos de algumas amostras se verificou a presença
de significativas camadas fuliginosas graxas. Estas
poderiam ser depósitos produzidos pelas desinfecções
que habitualmente se realizavam com densas fumaceiras
especialmente em tempos onde as enfermidades infecciosas
dizimam as populações. Nas micro-fotos 079
e 080
se vêem camadas fuliginosas obscuras entre camadas
de cal pigmentada. Deve-se ter em conta que estes
métodos sanitários foram praticados durante todo
o período colonial e particularmente durante as
epidemias incontroláveis do “colera-morbus”.
No começo, a fumaça era obtida em braseiros acesos
sobre os quais se espalhava feno das “esterqueiras”.
Porém, mais adiante os braseiros produziriam abundante
fumaça negra com a adição de “alcatram”,
líquido pardo-escuro que além de ser empregado na
assepsia dos ambientes mediante as emanações de
sua combustão, se usou também na medicina, desde
aproximadamente 1650. Não obstante isso, devido
aos antigos surtos epidêmicos graves acontecidos
em Salvador, a Santa Casa de Misericórdia, seguindo
os passos de outros núcleos hospitalares dependentes
de ordens religiosas, havia tomado medidas com respeito
aos enterros das vítimas de enfermidades. Este fato
é comprovado por dois documentos, o primeiro datado
de 1775, alude à “creação de carneiros” e
o segundo se refere à proibição dos sepultamentos
no claustro. O assentamento de 1775 diz assim :
“Aos dezenove días do mes
de Março de mil settecentos e setenta e cinco annos
desta Cidade do Salvador Bahia de Todos os Santos,
e consistorio da Caza da Santa Mizericordia dela,
estando em Meza redonda capitularmente congregados
o Irmão Provedor actual della o Capitam Fructuoso
Vicente Vianna, comigo Escrivão ao diante nomeado
e mais Irmaos Conselheiros da Meza abaixo asignados.
Foi proposto pelo dito Irmão Provedor, que sendo
esta Irmandade da Santa Mizericordia tão ilustre
e principal entre todas as mais desta Cidade, se
achava sem hum cemiterio o carneiro, em que se sepultassem
os corpos dos seus Irmaos defuntos, havendo para
esse effeito lugar tam proprio , e accomodado, o
qual era a Enfermaría Velha, que foi das mulheres,
que fica por baixo da Sachristia desta Santa Casa,
e occupa todo o vão della, aonde facilmente, e com
pouca despeza se podia conseguir o fim da dita obra
tão necessária, com a qual lhe parece cessará talvez
a repugnancia, que há de virem a sepultar-se nesta
Santa Caza muitos Irmaos que podíam lembrar-se della,
deixando-lhe alguma esmola O que propunha aos ditos
Irmãos da Meza, para que resolvessem a vista do
que fica dito, se era justo fazer-se o dito Cemeterio.
E sendo por elles ouvida a dita proposta, e ponderadas
todas as crircumstancias, que occorião em semelhante
materia, e as razoens apontadas pelo dito Irmão
Provedor uniformemente assentarão, que não só era
justa a dita obra, mas tambem se fazia muito necessaria,
para que se mandasse fixar edictal, para acurdirem
os Mestres Pedreiros, que a quizessem facer, dando-se
a quem mais commodamente ficesse; e sendo com effeito
posto edictal na porta travessa que entra para
a Igreja desta Santa Caza, em virtude delle
vieram a esta Meza algums Mestres Pedreiros, entre
os quaes, o que mais se accomodou foi o Mestre Ignacio
Anselmo de Goes, o qual se obrigou fazer o dito
cemeterio na conformidade do risco, que se lhe aprezentou
assignado por esta Meza, e pelo dito Mestre Pedreiro
(...) mandou
se commettesse ao dito Mestre Pedreiro a construcção
do mencionado cemeterio na forma sobredita, por
ser notória a sua pericia, e inteligencia que tem
de semelhantes obras; outrosim se obrigou o dito
Mestre facer, e construir o dito cemeterio com frontaes
(...) e aboveda das sepul[turas],
e com todas as mais circunstancias, que o risco
demostra. E pelo que toca a obra de Carpinteiro
que vem a ser, e forro, e o mais que lhe competir,
por ser de menos entidade, se assentó fosse de hornal,
e feita pelo Mestre Manoel Alvarez Campos, por se
achar a meses com o taboado do dito forro, lavrado
pelo dito Mestre”.(assinam : Provedor Fructuoso
Vicente Vianna, Manoel do O Freire, Padre Francisco
Jozê de Souza Pereira, Joachim Vieira da Silva,
Jozê Lopes dos Santos, Manoel Alvarez Revello [que
tinha sido chamado Manoel Álvares Campos], Ignacio
Anselmo Goes).
O segundo documento trata da seguinte portaria :
“O 28 de maio de
1805, proibiuse enterrar os doentes falecidos do
Hospital no claustro da Santa Casa, em vista de
ficar debaixo do mesmo claustro a cisterna de cuja
agua o Hospital se servia quotidianamente. Determinou-se,
na mesma data, que ‘logo de fallecer qualquier doente
o mande a enterrar no Semiterio que esta St. Caza
tem no sitio da Caza da Polvora destinado para esse
fim segundo o estilo praticado’, eos cadáveres deviam
ser conducidos para lá na tumba, acompalhados pelo
Capelão do Côro”.(Códice,
Vol. 86 - Portarias 1776-1817).
É importante assinalar que durante os trabalhos
de restauração, no pátio do Hospital, junto ao lugar
onde se encontrava o portão de entrada da “enfermaria
das mulheres”, foi descoberta uma jazida de
ossos humanos desordenadamente dispostos.
Na mesma época, quando os madeirames dos tetos de
construções importantes passaram a ser protegidos
com a técnica chamada “cobrir de preto”,
o alcatrão começou a ser usado na conservação das
madeiras. A exigência de adotar esse cuidado se
reflete em um assento que data da construção do
forro da Igreja de Frei Macário, que diz assim:
“Aos dous dias do mes de
novembro de mil seiscentos, e cincoenta e seis anos
nesta Cidade do Salvador Bahia de Todos os Santos
no consistorio da Santa Casa da Mizericordia della
estando ahi o Provedor da Santa Casa o Cappitam
Francisco Fernandez mandou chamar ante si a João
Henriques mestre de carpentaria e lhe disse se quería
fazer as obras da igreja nova desta Santa Caza de
carpentaría a saber: o madeiramento da igreja nova
com pernas de asnas e forrada por cima em preto
[com alcatrão]
e seo forro por baixo de paineis grudados
e suas molduras sobre couro o que será feito na
conformidade que elle dito provedor lhe ordenar
e mandar e todas as mais obras para que a dita igreja
forem neseçarias tudo com todo o primor e bem feito
sem que tenha falta alguma conforme a obra de modo
que se não ponha dúvida alguma na perfeição...”.
(Assinam o provedor Francisco Fernandes do Sim [ou
da Ilha], que era Cabalheiro da Ordem de Santiago
e o escrivão Francisco da Rocha Barbosa).
Deve reconhecer-se que a proteção das tábuas e caibros
com azeite de alcatrão de madeira, resultou ser
altamente eficaz. Tanto que, com algumas adaptações
relacionadas com a transformação do artesoado Renascimento,
em Barroco, o forro pôde ser re-utilizado para o
“ajornamento” da Igreja quando o mestre Antonio
Gaspar, contratado pela Santa Casa
“aos vinte dias do mes de Outubro de mil
setecentos e vinte”, se obrigava a “facer
toda a obra de Carpinteiro de que necessitace o
telhado, assim da armação delle como todo o mais
maderamento athe se assentar o forro em suas combotas
que han de pregar nos tirantes; e otrosy seria mais
obrigado a fazer o dito forro de volta na misma
forma do risco, e planta que a Meza havia asignado
sem diminuição alguma com todos os florões, e o
mais concernente ao forro de volta; e que tãobem
otrosy seria obrigado a envigar os dous coros
com suas [vigas] madres”. Assinam: “Provedor
Gonçalo Ravasco Cavalcanty e Albuquerque - Antonio
Rodrigues Lima - Manoel Álvares Pereira - João de
Miranda Ribeiro - João de Oliveira Bastos - Manoel
Gonçalvez Pinheiro - Andres Nunes de Mello - Miguel
Cardoso de Saa - Joseph Machado do Pessanha - Antonio
Alvares Silva - Manoel Barbosa de Lima - De Antonio
X
Gaspar da Rocha.
No termo de resolução do mencionado
documento, entre as directivas recalcadas em nota
a margem da folha 130r se obriga ao mestre carpinteiro
De Antonio X Gaspar da Rocha a fazer as cambotas
de sucupira para o levantamento do teto e forro
da nova igreja. O adendo do ano seguinte diz : “Em
30 de junho de 1721 se rezolveo em Mesa, ouvidos
isso officiaes que assentase o forro sobre pernas
de asnas; com declaração porem que se fizesse hum
gforro de cotelho sobre ellas; e que as combotas
fossem de socopiras;e nesta sorte se reforma esse
acórdão, e em todo o mais fica em seu vigor”.
A viga encontrada era originalmente de 5 m, possui
os cantos ligeiramente chanfrados e se encontra
profusamente cravejada com cravos e pregos de diferentes
formas e tamanhos, que indicam inúmeras substituições
das tábuas que serviam de piso à planta superior,
na foto 081
se vêem as perfurações dos cravos,
aumentadas pelo óxido. Na foto 082
podem-se ver cravos puntales e em
083
e 084,
um cravo palmeta usado para fixar madeiras,
e particularmente portas e janelas em cunhais. Na
última toma (revés da palmeta) se podem apreciar
os detalhes do forjado, e na 085
se vê uma destas peças cravada na pedra, sustentando
um paramento de madeira de maçaranduba. Nas fotos
086
e 087
se vêem diversos tipos de cravos encontrados
nos substratos do Hospital. A analise do aço com
que estão elaborados, e outros detalhes podem ser
vistos no Adendo II. As peças foram
recolhidas no sítio.
Em geral pode-se dizer que durante a
conquista os construtores se valiam, eventualmente,
das madeiras mais adequadas para levantar as vivendas,
porém a necessidade levara os pioneiros a estudarem
com precisão quais espécies vegetais madeiráveis
conseguiam obter nas proximidades dos assentamentos.
Isto se fez mais notório em Brasil onde as distâncias
para o traslado tornavam o transporte praticamente
impossível.
Nas missões jesuíticas do Sul, as madeiras
adequadas para as grandes construções das igrejas,
foram substituídas por madeiras que não existiam
na região Norte. Assim as colunas, algumas das quais
foram talhadas em forma prismática octogonal como
as primitivas do Hospital de Salvador, eram elaboradas
com troncos gigantescos de madeiras sumamente duras.
A propósito disso o Padre Jesuíta Joseph Cardiel,
em Dezembro de 1747 deixou o seguinte testemunho:
“cortam-se nos menguantes
de invierno ums árboles muito altos e grossos chamados
Tajivos e outros chamados Urundey,
mas fortes que o roble de Europa para pilares ou
forcões e outros de cedro e suas espécies, e de
louro para tesouras, latas [caibros roliços],
e tábuas. Secos já, se traem ao povo cada forcão
com 25 ou 30 pares de bois, Hácence em lãs naves
de enmedio y em donde há de ser la pared (Carta
e Relación de las Missiones Jesuíticas de la Província
del Paraguay annuas
de 1747 – Pub. Pela Secretário da Cultura da
Argentina em 1999).
A partir da expulsão dos jesuítas, os
povos das missões do Sul se transferiram para o
Rio da Prata, levando com eles muitos detalhes referentes
à construção primitiva. Nestas latitudes predominaram
os artesões da madeira e principalmente do ferro
e da “carpintaria do grosso e do fino”. Assim,
em 1619, procedentes do Brasil, chegaram à Buenos
Aires os primeiros carpinteiros lusitanos. Eram
eles: Alfonso Carvalho e os irmãos Domingo e Manoel
Antônio Castro. A eles se seguiram outros “maestros
carpinteiros” portugueses que previamente haviam
trabalhado no Brasil. Com respeito aos “ferreiros
e confeccionadores de cravos” oriundos de Portugal,
o historiador jesuíta Guillermo Furlong disse que
“em Buenos Aires muchos
eram lusitanos (...). Si eram lusitanos los más
de los carpinteros em la segunda como em la primera
mitad del siglo XVII outro tanto hay que decir de
los herreros comenzando por Manoel Gonzáles, natural
de la ciudad del Porto, en Portugal, y casado com
uma hija de João Jurado, lusitano também e carpintero
de valia. Gonzáles se caso em 1631 com Maria Martinez,
criolo mas hija de lusitano. Lusitano era tambien
Antonio Vieira, natural de Castanhera, em Portugal,
y em 1643 llevaba ya treinta anos de residência
em Buenos Aires (pág.
684).
Ferragens coloniais de feitura portuguesa
foram freqüentes na Buenos Aires colonial. Entre
os desenhos publicados pelo arquiteto Vicente Nadal
Moura, correspondentes às tranquetas da Casa de
Exercícios Espirituais da capital Argentina, se
nota uma elaboração similar a encontrada no antigo
Hospital da Santa Casa da Bahia ( foto 088).
Se compara o desenho de uma peça semelhante, da
janela da Casa de Exercícios Espirituais de Buenos
Aires, s. XV, com uma peça idêntica de uma janela
do Hospital da Santa Casa de Salvador. Nas foto
089
e 090
se vê o mecanismo da peça, integralmente em ferro
forjado.
Entre os objetos líticos encontrados nas ruínas
do Hospital primitivo está uma moleta rústica de
pedra, empregada para o moído dos pigmentos.
É importante assinalar que as moletas já aperfeiçoadas
se empregaram até o final do s.XIX, quando pela
primeira vez as cores se ofereceram em bisnagas.
Entre 1881 e 1883 o maestro Vincent Van Gogh, estando
ainda em La Haya se depara com o branco em bisnagas
de óleo, preparado para a tinta de imprensa. Numa
carta a seu irmão Theo diz :
“De novo trabalhei com tinta de imprensa.
Esta semana tratei de mesclar a tinta com branco.
Encontrei duas maneiras de fazê-lo e que podem servir
com o branco, tal como sai do tubo ao óleo,
e quiçá melhor ainda com o branco de zinco comum
em pó que se pode conseguir em qualquer droguista;
diluindo-o com água ráz que não atravesse esse papel
não forma mancha como as de óleo do outro lado,
dado que seca muito rápido e desaparece. A tinta
de imprensa atua muito mais vigorosamente que a
tinta Chinesa”. Porém, somente
estando [o artista] em Arlés a sua pintura sofre
uma metamorfose substancial. É indubitável que para
essa mudança notável o gênio conta com novas cores
industrializadas pela firma Tasset & l’Hote
(da rua Fontaine de Paris). Tanto Tasset como l’Hote
eram amigos ao ponto de chamar-los “Tios” (cartas
a Theo 475 F). A firma tinha começado a moer os
pigmentos à óleo usando métodos mais avançados e,
pela primeira vez os apresenta em bisnagas. Assim
as moletas rapidamente caem em desuso. Nesse momento,
estes utensílios já eram de vidro maciço ou de porcelana.
A Carta 508 enviada desde Arlés diz
: “Meu querido Theo
: Querias perguntar-lhe à Tasset sua opinião sobre
a seguinte questão ? A mim me parece que quanto
mais finamente moída é uma cor, mais saturado de
óleo está. Mas não é preciso dizer que nós
não gostamos enormemente do óleo. Se se pintara
como o Sr. Gerome e os outros efetivistas fotográficos,
indubitavelmente pediríamos cores moídas muito finamente.
Ao contrário, não nos desgosta que a tela tenha
um aspecto tosco. Portanto, se em lugar de fazer
moer a cor sobre a pedra sabe Deus quantas horas
a moeram apenas o tempo que faz falta para faze-lo
dúctil, sem ocupar-se tanto da fineza do grau, se
teriam cores mais frescas que quiçá se enegreceriam
menos. Se quer fazer uma prova com os três cromos,
o veronês, o vermelhão, o mínio alaranjado, o cobalto,
o ultramarino, estou quase seguro que com muito
menos gastos teriam cores mais frescas e duráveis.
Então, a que preço ? Estou seguro que isto se deve
poder fazer. Provavelmente também para os “rojos”
vivos e o esmeralda, que são transparentes.
Agrego aqui um pedido que é urgente. Agora estou
pelo quarto quadro de girassóis.”
Outro especialista que posteriormente proveu de
pintura à Van Gogh foi Tanguy, porém seu moído era
menos apreciado e somente era usado dele algumas
cores.
Na Carta 699 F, de 29 de abril
de 1890 em um pedido a Theo diz :
“Agora me faziam
falta necessariamente cores, que em parte poderás
tomar no de Tanguy se está em apuros ou se tem ganas.
Mas por suposto não tem de ser mais caro que o outro.”
(o outro era Tasset, que
tinha todos os predicados).
As moletas utilizadas desde tempos imemoriais
eram confeccionadas em pedras duras para resistir,
não somente ao triturado dos pigmentos em pedra,
como o lápis-lazúli, a malaquita e outros, senão
também a micronização para o que se preferiam, as
de calcários duros. Entre as rochas vulcânicas,
a preferida pelos povos da antiguidade, tradicionalmente
foi o pórfido, rocha sumamente compacta e
dura.
A
moleta encontrada nos entulhos da Santa Casa da
Bahia (foto 091)
foi talhada em um seixo rolado de filito
compacto estratificado e pesa 707 gr.
Sua
forma cônica lhe valeu o nome popular de Pão de
Açúcar, termo adotado pelos moedores de pigmentos,
que comparavam sua forma com a dos torrões ou pequenos
blocos de açúcar que, na época, as usinas industrializavam
para consumo doméstico, com este formato.
A
forma anatômica da peça encontrada está formada
por três facetas perfeitamente polimentadas e uma
posterior rústica se adapta perfeitamente ao punho
da mão, sendo que sua base, levemente parabolóide,
particularmente lisa, apesar de seu largo enterramento,
ainda conserva partículas de um pigmento verde
terra chamado verde Verona na Europa,
que era o verde tradicional da arquitetura colonial.
O assento parabolóide da moleta indica que trabalhava
deslizando-se sobre uma pedra plana, porém levemente
ocada no centro, ou seja, que operava em um sistema
similar ao empregado pelos índios nos seus moinhos
chatos chamados de fricção.
As fotos 092
e 093
mostram o modo de empunhar o utensílio e na 094
se vê a base dele. Observem-se os restos de pigmento
verde terra, sumamente empregado na época
da colônia, ainda incrustados nos interstírcios.
Na 095
se observam os veios do rolado sedimentário
cristalino empregado. No croqui 096
se analisa tentativamente os cortes sofridos
pela rocha rolada para chegar a forma do
pilão, anatomicamente talhado. Na foto 097
se pode ver uma antiga moleta encontrada
na Argentina (publicação Museu Juan Cornelio Moyano,
da província de Mendoza). O utensílio está entalhado
em pórfido verde.
Numa prospecção realizada no forro da
Sala do Provedor , ex “Casa do Despacho”
pelo mestre marceneiro João de Miranda Ribeiro,
se constatou que as nervuras existentes originalmente
tinham sido de cor verde terra ( foto
098).
Posteriormente, por desconhecimento, se pintaram
de verde azulado e recentemente se repintaram de
ocre pardo. O forro tinha sido construído por ordem
do Provedor Reverendo Cônego Penitenciário, Chanceler
e Desembargador da Relação Eclesiástica Dr. Francisco
Martins Pereira.
Ao abordar os processos dos conhecimentos surgidos
em América durante o conflituoso período da Conquista,
se torna árduo avaliar de forma nítida a evolução
das culturas trazidas pelos europeus ao conjugar-se
com as autóctones. Nem sempre se chega a conhecer
de modo conclusivo a motivação que gerou a fusão,
o processo de harmonização ocorrido ao longo do
desenvolvimento e o tempo que levou para se instalar.
É uma verdade que no tempo transcorrido entre o
descobrimento e a organização colonial, mesmo sendo
este relativamente curto, convulsionado e na maioria
das vezes impreciso, confluíram cadenciosamente
culturas geradas em uma volumosa informação oral
ou escrita: por noções sólidas adquiridas pelo estudo
sistemático dos europeus e pela milenar experiência
natural dos povos aborígines.
Quando se estudam objetos ou materiais originais
dos sítios arqueológicos em que se contataram e
interagiram as diferentes etnias (que na América correspondiam aos europeus, índios e africanos),
se descobre uma crescente interação sócio-cultural,
que se deu a partir do momento em que os conquistadores
e os desbravadores iniciaram sua missão.
Durante os quatro longos anos em que se restauraram
as Obras de Arte da Santa Casa da decana cidade
de Salvador, se puderam registrar alguns dados vinculados
a estas culturas confluentes. As observações foram
cruzadas com dados fidedignos obtidos em outras
partes do Brasil, que apresentam características
arqueologicamente equivalentes.
Orientados pelos jesuítas, os índios aprenderam
diversos ofícios e técnicas desconhecidos por eles.
Porém possuíam muitos conhecimentos ligados à sabedoria
comum da natureza transmitida por tradição oral,
desde seus ancestrais. Não somente chegaram a ser
verdadeiros especialistas na confecção de canoas,
armas e vivendas, mas também dominavam um conjunto
de procedimentos ligados ao arte plumário,
à olaria primitiva, ao entalhado em pedra e à fiação
para a confecção de cordas usadas em diversas utilidades.
Algumas destas eram: o amarrado de suas cabanas,
dos paus à pique de suas tabas e embarcações,
à confecção de seus arcos e de suas redes de pesca
e também para manter aprisionados os inimigos durante
as guerras tribais. As fotos 099
e 100
mostram desenhos do cronista, desbravador e “Bombardeiro
de Bertioga” Hans Staden.
Sob algumas circunstâncias, em muitas
destas habilidades, haviam experimentado importantes
progressos. No caso da cerâmica, por exemplo, antes
mesmo da chegada dos conquistadores, o desenvolvimento
obtido tinha alcançado um nível considerável. Posteriormente,
com os progressos trazidos pelos jesuítas, que a
seu modo se esmeraram em culturalizar mediante o
ensino de ofícios e, particularmente naqueles em
que os indígenas e os negros contribuíram com sua
experiência, se consolidaram novas concepções que
desembocaram na interação e associação das culturas.
No caso da cerâmica, as melhorias incluíram a construção
de fornos, para tijolos e baldosas ornamentadas
e confecção de vasos, estatuetas, fornilhos para
cachimbos e contas de colares.
Existem evidências que entre os tijolos mais antigos
achados nos substratos do Hospital, alguns haviam
pertencido à tijoleiras decoradas. São dáctilo-ornamentos
retilíneos, similares aos recolhidos entre restos
das “casas indígenas” habitadas por naturais
da reducção de São Ignácio Miní. Esta povoação
foi fundada em 1610 na província de Missiones, fazendo
parte das Reduções Jesuíticas do Guairá. Na foto
101
e det.
102 e 103
se observa um fragmento de tijolo proveniente
deste povoado. Pelo geral, as impressões deixadas
no barro formavam linhas paralelas de dois, três
ou quatro riscos, segundo os dedos empregados para
efetuar a pressão. Porém, no caso particular das
peças encontradas em São Ignácio, as linhas das
baldosas mostravam esquemas radiados e também se
diferenciavam pela espessura, que nelas, às vezes
chegava a 4 cm, ainda que raramente era uniforme.
Por sua vez a posição destes também caracteriza
o ornamento. (Este
tipo de decoração faz parte dos lineamentos chamados
justapostos ou conjugados). Os debuxos datílicos mais
rudimentares eram retas, que quase sempre formavam
diagonais de diferentes ângulos com respeito aos
laterais dos tijolos e portanto, tijoleiras (pisos
tijolados)
formadas por estas
decorações apareciam como texturas anárquicas. Especialmente
os tijolos de São Ignácio Miní eram de dimensões
particularmente diferenciadas, chegando até 7 cm
de espessura, e sua confecção era precária. É importante
levar em conta que estes pisos rústicos somente
foram encontrados em alguns habitáculos, já que
nos ambientes principais se empregaram cerâmicas,
algumas das quais, vindas da Europa, muitas delas
luxuosas, engobadas e vidradas. Algumas eram quadradas
ou octogonais e seus temas eram pintados ou em alto-relevo
moldado, formando guardas e figuras antropomorfas,
zoomorfas e fitomorfas de gosto refinado. No
trabalho
104 e 105
se vêem dois dos desenhos de baldosas fabricadas
com terra vermelha do local, que pertencera a Igreja
e recintos principais, e que foram estudadas por
Vicente Nadal Moura, em sua notável publicação manuscrita
: La Ruínas de San Igáncio
Miní.
Na realidade, as grandes igrejas das Missões Jesuíticas
correspondiam ao Barroco mais esplendoroso e sua
decadência se deveu unicamente à expulsão dos Jesuítas
do território (1767-1768) e ainda, com destruição,
incêndio e saqueio de suas povoações, por parte
dos Bandeirantes do Sul. Na excelência das baldosas
destes recintos se vê a influência dos grandes arquitetos
italianos que chegaram entre os anos de 1637 e 1639,
destacando-se os notáveis, Irmão Pedro Brassanelli,
na época chamado “Pequeno Michelangelo”, que foi
o construtor da Igreja e o Padre Ángel Camilo Petragrassa.
Ambos trabalharam intensamente no Guairá, fundando
diversos povos e templos (Cartas Annuas 1637-1639).
O Irmão Brassanelli não só trabalhou na Reducção
de São Ignácio Miní, sobre o Rio Paranapané ou Paranapanema,
na cercania de sua desembocadura no Rio Paraná,
senão também em grande parte do Guairá.
Não se sabe em quantos templos trabalhou Brassanelli,
se sabe sim que em 1696 começava a construir a Igreja
de São Borja (o povo mais antigo, dos sete que se
encontravam no atual território do Brasil), a obra
foi concluída em 1705. A demora se deveu às guerras
com os índios Guenoas (importante grupo Charrua
que habitava o norte do atual território uruguaio),
e contra os portugueses da Colônia Sacramento. Posteriormente
construiu a Igreja da Missão de Loreto, cuja fundação
foi mencionada em inventários levantados em 1767,
os quais citam detalhes da construção. Porém consta
que em 1718 Brassanelli estava construindo a Igreja
de Itapuá, no Rio Paraná. Com respeito a obra da
Igreja de São Ignácio Miní, consta que o Irmão concluiu
a obra que ele tinha começado “cuando el
Provincial [do bispado de Paraguai] le ordenó
el 28 de marzo de 1724 que se trasladara a ella
e terminara lo comenzado”(Memoriais dos Provinciales
- s.XVIII). O povoado, com sua igreja primitiva,
tinha sido fundado em 1632 e assentado definitivamente
em 11 de junho de 1696, pelo P. Maciel de Lorenzana,
que foi seu primeiro clérigo, e os Padres Simón
Mazeta e José Cataldino, cujos restos estão inumados
nas próprias ruínas da igreja. O povoado foi incediado
junto com os de Loreto, Santa Ana, Candelária e
Corpus.
Também em Niterói existem tijoleiras primitivas
executadas por índios imediatamente após a expulsão
dos franceses da Baia de Guanabara quando se consolidou
a Reconquista dos Temiminós, liderados por seu Cacique
Martim Afonso, (Arariboia). Na época foram
povoar as costas da atual Niterói, sendo que sequer
havia padres estáveis na região. No momento se fundou
a Igreja de São Lourenço dos Índios. Nesta igrejinha
ainda se encontram duas tijoleiras intactas que
são as melhor conservadas e as únicas conhecidas
pertencentes à época que apresentavam vidrado nas
superfícies. As fotos
106,
107, 108,
109
e 110
mostram partes delas. Elas cobrem a sacristia
e o chão da Capela Mor, onde alguns autores asseguram
que foi enterrado o corpo do Cacique temiminó. Na
foto
111 se vêem os tijolos quadrados pertencentes
ao pavimento da Capela-Mor, nelas se vê o quadrângulo
onde se acredita que se encontram os restos do herói
índio. A flecha indica a baldosa central com uma
cruz de três linhas zigueazaguentes marcadas com
três dedos (foto 112).
Na sacristia a decoração também está feita em baldosas
quadradas, algumas das quais ainda conservam parte
de vidrados avermelhados ou amarelados ocre (fotos
113,
114, 115,
116,
117 e 118).
Nas duas últimas se observam ziguezagueados duplos
e triplos e ponteados feitos com a ponta dos dedos.
É importante assinalar que nem as baldosas, nem
os tijolos assim como o acabamento vidrado não eram
conhecidos pelos índios e que os padres chegavam
à sesmaria somente para celebrar missas e realizar
afazeres litúrgicos Nas fotos
119, 120,
121,
122,
123
e 124
se vêm as baldosas da sacristia sem revestimento
vidrado, a maioria delas por causa do desgaste.
Na última foto se vêem longos ziguezagues em posições
anárquicas. Na foto
125 se observa o lineamento justaposto,
na beirada de uma telha primitiva, da mesma Igreja.
Dos fragmentos de tijolos antigos encontrados nos
substratos mais velhos do Hospital, foram separados
os que apresentam sinais fidedignos de haverem pertencido
aos pavimentos primitivos, dos que teriam feito
parte do pavimento posterior também decorado. Os
primeiros, sem sobra de dúvida, têm os lineamentos
vinculados com os das Missões do Sul, com os de
Niterói e com os da igrejinha de Montserrat As
foto
126 e dets.
127 e 128
mostram um tijolo primitivo do Hospital com quatro
sulcos diagonais. A espessura dos blocos encontrados
na Santa Casa não passavam de dois centímetros,
assemelhando-se aos de Niterói e mais delgados que
os das Missões do Guairá (comparem-se as fotos
103 e 128).
Na foto
129 se vê um ladrilho rebatido, de borda,
com duas linhas paralelas trabalhadas com os dedos
separados. Estas decorações laterais que sempre
acompanham os lados menores foram adotadas em um
novo pavimento que tinha existido no Hospital. Algumas
destas peças foram encontradas em estratos superficiais
e apresentam a característica de haverem sido incisas
com varas que, em alguns casos, funcionavam como
pentes. As fotos
130 e 131
mostram tijolos com estas características.
Observe-se que além das marcas paralelas, em algumas
peças existem outras menos profundas, perpendiculares
as anteriores.
As fotos
132 e 133
são figurações do trabalho decorativo nas olarias.
Muitos dos fragmentos mais antigos encontrados,
exibem indícios de fazerem parte da própria formatação
dos blocos ou das eventualidades sofridas pela argila
antes de sua secagem. São eles pisadas de cachorros
(fotos
134 e 135
tiradas nas tijoleiras de Niterói) e marcas
de dedos (fotos
136 e 137
geradas nas olarias). Uma das principais peculiaridades
consistem nas impressões de mãos pequenas que indicam
o trabalho de crianças, não maiores de 12 anos (fotos
138,
139,
140 e 141).
No tijolo ( fotos 142,
143
e 144)
se observam marcas nas quais se podem ver impressões
digitais (flecha). Além disso, apresenta os caracteres
seguintes : M
8 que marcariam medidas ou quantidade
de peças.
As foto
145 e det.
146 mostram tijolos da Capela
do Mosteiro de Nossa Senhora de Mont Serrat, que
foi fundada em 1580 por Garcia D’Ávila, homem de
armas de Tomé de Souza. Possivelmente, a tijoleira
date de 1609, quando a capela passou aos monges
de São Bento, que mais tarde a reconstruiriam. Alguns
autores sustentam que a Capela pertenceu ao sitio
de Mont Serrat da Boa Viagem (Itaparipe ou Itapagipe)
e que passou de modo litigioso a propriedade de
São Bento à raiz de um acordo com a Santa Casa,
onde Garcia D’Ávila passou seus últimos dias, até
morrer em 1609.
A antiga tijoleira pertence a sacristia
existente atrás do altar. Lamentavelmente, em épocas
recentes, este recinto teve seu pavimento removido
e reacomodado com cimento Portland, sendo
que a maioria de seus blocos foram invertidos ou
parcialmente recobertos, ficando poucos a vista.
Das próprias olarias procedem muitos utensílios
domésticos que anteriormente eram elaborados por
indígenas, que trabalhavam seus cozimento em fornalhas
ou simplesmente à céu aberto. Nas fotos
147 e 148
se vê um cachimbo usado por escravos negros da Bahia.
Apresenta um fornilho típico, entalhado em madeira.
Frequentemente estas peças estavam relacionadas
com rituais africanos, na foto se vê a fisionomia
de um negro com traços faciais mefistofélicos. Observe-se
que na frente da figura se vê uma das duas perfurações
em que tinha chifres (V.Adendo VI). Já as
fotos
149, 150,
151,
152, 153
e 154
pertencem a um cachimbo confeccionado em cerâmica
avançada e está elaborado em terracota formada em
molde bilateral. Apresenta decoração característica
dos arabescos do Sudão trazidos por indivíduos do
povo Malê e sempre possuem uma perfuração para serem
pendurados no cinto. Nas duas últimas fotos se vê
este detalhe e a base do fornilho onde se percebe
a perfeita união do tasselado. A diferença dos africanos,
os cachimbos de cerâmica empregados pelos índios
são muito abundantes e se caracterizavam por terem
sempre uma estrutura em ângulo reto e além disso,
se diferenciavam facilmente pelo decorado predominantemente
retilíneo (fotos
155, 156,
157
e 158).
Em Niterói foram encontrados vários cachimbos indígenas
e nenhum que caracterizava a procedência africana.
Isto se deve a que nunca ali houve escravos. O povo
nasceu a partir de sesmarias concedidas aos Temiminós
do cacique Araribóia, desde a liberação do Rio de
Janeiro da dominação francesa. Nas fotos
159 e 160
se vê uma conta de rosário de terracota de argila
vermelha com superfície alisada por brunido úmido,
com um engobo negro e vidrado, recolhido no forno
de cerâmica da Missão de São José. Nesta olaria,
operada por índios se encontraram fragmentos de
esculturas religiosas que possuíam a mesma técnica.
Estes procedimentos não eram conhecidos pelos naturais
antes da chegada dos jesuítas. (V. Adendo III).
Nas fotos
161 e 162,
e nas 163
e 164
se vêem pequenos cacos que faziam parte
da argamassa pozolânica conglomerada que fixava
os tijolos nos paramentos do Hospital. Nas duas
últimas se vê um resto de cerâmica indígena. Observe-se
em seu interior os detalhes da construção da pequena
vasilha indígena lavrada, amassando a argila em
rodelas que, posteriormente se unem e se tornejam
com os próprios dedos até chegar a borda que se
corta à faca.
Entre as principais fibras têxteis vegetais
autóctones que encontraram os conquistadores ao
chegar a América foram a malva branca ou
malva bruxa (Whalteria americana L.)
que conheceu Cristóvão Colombo ao chegar a ilha
Espanhola, hoje Cuba (V. Adendo IV) e
o algodão, que tinha sido industrializado e usado
em belos tecidos pelos índios do Peru, desde uma
era longínqua que se remonta à 1.500 AC. A única
espécie nativa existente corresponde à espécie Gossypium
barbadense. Excelentes trabalhos têxteis foram
produzidos na zona de Cajamarca, Lambayeque (Huari)
e cuja antiguidade oscila entre 600 e 700 a.C. Não
menos vetusta foi a industrialização da fibra de
algumas palmeiras, sendo que uma das mais empregadas
foram as da palma carandai. No entanto as
fibras para a confecção de cordas mais resistentes,
elaboradas em todos os diâmetros, foram as de Chaguar
ou Caraguatá, conhecida pelos colonos portugueses
como “garabatá” ou como “cardo” ou “cardo bravo”
pelos jesuítas de São Vicente e Piratinga (entre
eles, pelo beato Anchieta). O vegetal corresponde
a “Bromelia serra”, classificada por Linneo.
O chaguar também foi classificado pelo
alemão Jorge Hieronymus, que estudou suas propriedades.
Na atualidade se reconhecem três espécies que se
distinguem, entre outras coisas, pela coloração
de suas flores, que vai de branco a vermelho, sendo
que todas as plantas proporcionam fibras têxteis.
A partir destas plantas se produzem fios tão resistentes
quanto as melhores fibras vegetais têxteis do mundo.
Trabalhadas estas pelos naturais, terminou gerando,
em colaboração com as novas técnicas aportadas pelos
conquistadores europeus, diversas indústrias, algumas
das quais resultaram de grande utilidade para a
colônia.
Na foto
165 se vê uma planta de chaguar,
com suas folhas de espinhos fortes dispostas em
sentido contraposto entre si, sua floração e suas
sementes. Na foto
166 e det.
167 o tipo de posicionamento dos espinhos.
A foto
168 mostra um feixe de palhinhas depois
do enriado. Neste estágio o material perde
a mucilagem restante para depois ser submetido a
um desfibrado mediante um forte surrado com varas,
até produzir as meadas (169).
Na foto
170 se vêem as meadas já desfibradas e enroladas
para seu emprego. Por último se procedia a cordagem.
A cordeleria podia ser fina ou grossa. Neste
último caso a fibra recebia um tratamento mais aprimorado
para depois ser encordada e preparada em madeixas
(171).
Na foto de microscópio
172, 100X se observam as características
da fibra. No destaque inferior se vê o corte transversal
tentativo dos filamentos. Esta peculiaridade faz
com que as fibras apareçam afinando e engrossando-se
sem chegar a produzir as espiras que mostram as
fibras mais achatadas ou cintadas (foto
173, 100X e 174,
400X). Na foto 400X 175
se vê a terminação de um pacote cortado,
de fibras.
Os indígenas usavam as elaborações mais
rústicas para as cordas grossas e as esteiras em
que dormiam. No entanto, com as finas confeccionavam
cordéis e todo o tipo de tecidos, de diversos pontos.
Nas fotos
176 e 177
se vêem espécies de sacolas usadas pelos índios
Matacos e Pilagás (do Rio Picomaio) e na 178
se aprecia um tecido aberto, confeccionado
com espinhos de Pau Binal (179)
(Chaco Paraguaio). Entre os objetos de maior
utilidade se encontravam as redes de pesca. Na
foto
180 se vê uma, usada pelos povos Tobas,
do Rio Vermejo e que permaneceu muito tempo submersa
no rio. Em 181,
um cordel trançado e em 182
um convencional sujeitando um típico vaso que fora
obsequiado pelo Cacique Mataco Juan Cajal. O cordel
é de fibra de chaguar. Na
183 se vê o adereço de uma coroa
da tribo Carajá (Ilha do Bananal). Observe-se que
os cordéis estão confeccionados com dois fio de
diferentes cores.
Os tecidos mais apertados e fortes eram
tramados com diversos tipos de pontos sumamente
constritos. Alguns deles eram tão fortes que os
jesuítas presumiam que as flechas não passavam por
eles. Na
184 e 185
se vêem dois tecidos com estas características.
Foi o Irmão coadjuntor Diogo Jácome
quem, em plena época da Conquista, mais se ocupou
da “industrialização”. Havia chegado a Salvador
junto a outros companheiros em 29 de março de 1549,
com o primeiro Governador Geral do Brasil, Thomé
de Souza, que os trouxe na Nave Conceição (pertencente à Armada do Capitão Mor Fernando Peres de Andrade),
mas que ele próprio comandava (Calmon, pág. 222). Os primeiros Jesuítas vinham orientados
pelo jovem P. Manuel da Nóbrega e, além do Irmão
Jácome, chegaram os padres Leonardo Nunez, Antônio
Pires, João de Azpicuelta Navarro, Manuel Lourenço
e o Irmão Vicente Rodrigues. A inquietude do Irmão
Jácome o levou não só a inventar técnicas próprias,
aproveitando o conhecimento dos naturais, senão
que se ocupou de transmiti-las aos seus companheiros
da primeira expedição jesuíta a terras de América
e pouco tempo depois, aos da segunda que arribaram
na armada do Governador Duarte da Costa. Entre
os sete companheiros novos estava o Irmão Joseph
de Anchieta que foi, segundo ele próprio, seu primeiro
aluno de artesanato e quem mais ponderou e divulgou
as técnicas. Em 1554, deixava o seguinte testemunho:
“as alpercatas faziam-nas
os Irmãos. aprendi um ofício que me ensinou a necessidade,
que é fazer alpercatas, e sou já bom mestre e tenho
feito muitas aos Irmãos, porque se não pode andar
por cá com sapatos de coiro pelos montes” (...)
“O modo de as fazer, era este:
iam ao campo, traziam certos cardos ou caragoatás
bravos, lançavam-nos na água, por 15 ou 20 dias,
até que apodreciam. Dêstes tiravam estrigas grandes,
como de linho, e mais rijas que o linho” (Carta
do Ir. Joseph de Anchieta ao P. Diego Laynes, expedida
em São Vicente, em 1 de Junho de 1560)
É notável! O processo de
separação das fibras, que estava longe de gerar
uma podridão, tinha sido empregado na Europa desde
tempos imemoriais para desfibrar o linho,
onde adotava o nome de “riada”, ou seja,
que a técnica já era conhecida pelos naturais da
América, sendo posteriormente aproveitada pelos
europeus para a industrialização do chaguar
ou caraguatá e especialmente para as aplicações
posteriores. A fibra, autóctone, havia sido utilizada
por muitas culturas pré-colombianas do Bi-reinado
de Peru e do Brasil. A incógnita se gera porque
não existem evidências para assegurar com precisão
quantos e quais foram os povos aborígines que se
valeram dela.
O achado de um fragmento de rosário
antigo entre o entulho do substrato do pavimento
do antigo Hospital, revelou mais uma prova importante
da presteza com que na América se fusionaram as
culturas européia e aborígene. Curiosamente o fio
que une as contas tem as inquestionáveis características
das cordas obtidas torcendo os filamentos com a
palma da mão sobre a nádega. O trabalho era realizado
pelas mulheres indígenas, que dominavam amplamente
a técnica de torcer o fio. Para chegar a
esta conclusão se tem contado com o acaso, já que
o fino cordel se encontrava inerentemente associado
a uma opalina, precariamente fundida, formando um
antigo rosário. A antiguidade da peça em tão
notável associação está comprovada pelo tipo de
fibra empregada na confecção, mas principalmente
pelo ancestral sistema de fiação, próprio dos povos
indígenas. Com respeito a opalina de fundição elementar,
se percebem as dificuldades técnicas com que se
tropeçou para a elaboração, porém se entende que
se trata de um material desconhecido até o momento,
pelos naturais. A cruz, a medalha e as contas que
constituem o rosário estão confeccionadas em opalina
branca, o mais rústico e elementar dos vidros. Este
material podia ser elaborado em tasselos simples
e depois se soldar.
“Salvador 000 – Geral/Estado/Exclusiva/Rosário raro
– Biaggio Talento – 00ls – 05.04.2006
SALVADOR – Um pequeno rosário de mais de 400 anos,
encontrado nas ruínas do Hospital Nossa Senhora
das Candeias, da Santa Casa de Misericórdia de Salvador
está sendo considerado como uma das provas mais
interessantes e contundentes de “cultura de contato”,
efetivada no encontro do colonizador português com
o índio brasileiro.
As
contas, a medalha e a cruz do rosário são feitos
de opalina, o mais simples e rudimentar dos vidros,
sendo unidos por fibras de caraguatá, vegetal de
propriedades têxteis encontrado em abundância na
Bahia no início da colonização. A motivação da fabricação
revelada na peça, era a Religião Católica, uma das
forças motrizes da aventura portuguesa na época
das grandes navegações e descobrimentos.
“Temos
aí a junção da técnica européia da fabricação da
opalina com a da utilização das fibras pelos indígenas
numa mesma peça”, resumiu o restaurador argentino
Domingo Tellechea que trabalha na recuperação das
obras de arte da Santa Casa desde 2001 e encontrou
o raríssimo rosário quando examinava os últimos
restos ruinosos do antigo Hospital, de Nossa Senhora
das Candeias, o primeiro da Colônia, que começou
a ser construído em 1549, quando Thomé de Souza
fundou Salvador. A peça se encaixa perfeitamente
nos relatos dos primeiros jesuítas que começaram
o trabalho de catequização do Novo Mundo e mantiveram
uma intensa relação com os indígenas, protegendo-os,
inclusive, de alguns portugueses que tentavam escravizá-los”
Uma carta do beato José de Anchieta, escrita em
1560 em Salvador, para padre Diogo Laynes que se
encontrava na Vila de São Vicente, cita o jesuíta
que fabricava os primeiros rosários no Brasil. Ao
relatar que os missionários davam essas peças aos
índios para que eles pudessem dizer muitas vezes
a Ave Maria para aumentar a devoção pela Mãe de
Jesus.
“Ao
examinar o rosário Tellechea desvendou como ele
foi feito. Para fabricar a opalina mistura-se areia
e nitro (obtido das cinzas vegetais do mangue ricos
em nitrato de sódio) levando ao fogo até se obter
uma massa chamada “amonitra”. Com essa massa, e
usando-se moldes, foram feitas as contas, a medalha
com a imagem de Nossa Senhora e o crucifixo, unidos
com fios de caraguatá. “Percebemos também que o
trançado do fio é em forma de ‘s’, típica dos índios
da América do Sul, ao contrário dos fios de fibras
produzidas na Europa com trançado em ‘z’”, contou
o restaurador. Uma prega encontrada na medalha mostra
que a massa vítrea se encontrava em processo de
endurecimento quando o fio foi aplicado.
Domingo Tellechea
considera o rosário uma peça arqueológica de grande
valor para quem estuda o início da Colonização.
“É exemplo dos mais significativos de culturas compartilhadas,
tão importante quanto os tijolos fabricados por
europeus com decoração indígena que também encontramos
no antigo Hospital, na Igreja de Monte Serrat de
Salvador, na Igreja de São Lourenço dos Índios de
Niterói e nas Missões Jesuíticas do Sul, particularmente,
na redução de Santo Ignácio Miní”,
Biaggio Talento, O Estado de São Paulo, Salvador
Bahia.
A foto
186 mostra um detalhe do fragmento do rosário
tal como foi encontrado. Na medalha dele se vê,
em ambas as faces, a imagem da Virgem em sua acepção
de Coração de Maria. Na figuração, a Virgem assinala
o coração com sua mão direita, enquanto a esquerda
sustém um ramalhete de lírios (187).
Na
188 se vê a peça já restaurada e na 189
se calculam as dimensões das imagens e das contas
diferenciadas. Na comparação 190
se observam as faces da medalha e na 191
a face do crucifixo. As contas estão
formadas por duas semi-esferas (192).
A 193
assinala a união do taselado e na 194
se observa a lucidez da opalina na parte superior
da cruz, e a perfeição da cordagem, bem como as
zonas onde se quebraram algumas contas (det.
195). Observe-se a translucidez da opalina.
Na mencionada carta enviada pelo então
Irmão Joseph de Anchieta, de São Vicente, se lê:
“También se les enseña
a rezar particularmente, y para esto les damos rosarios
para que, diziendo muchas vezes la Ave María, tengan
principal amor y devotión a N. Señora. Estos
rosarios haze el Hermano Diego Jácome (Teles,
Crónica 1479, Leite) al torno mui
polidos, aunque
él nunca aprendió ni exercitó esta arte, mas constreñido
por la obedientia y charidad tentó esta obra nunca
antes dél usada, y no solo él salió maestro mas
también algunos Hermanos, los quales gastan en ello
algunas horas, maxime en hazer rosarios, los quales
distribuidos assí a los portugueses como a nuestros
nuevos christianos no son pequeños incitamente de
devoción”.
(É
evidente que Anchieta, quando fala dos rosarios,
se refere a dois artesanatos diferentes :
o produzido com torno,
que obedecia a antiga especialidade do Irmão Diego
Jácome e que requeria adestramento manual
e ferramentas, e a outros rosarios menores que podiam
ser fabricados por outros irmãos,
e que eram distribuídos, tanto aos
portugueses como aos
indígenas).
É interessante resenhar que nesta época
também se elaboravam rosários de madeira dura ou
casca de côco, cujas contas eram muito volumosas.
Logicamente que estes dixes não serviam para a oração
e, além disso, eram custosos, devido a que para
sua manufatura, requeriam uma habilidade muito mais
refinada.
No que se refere a técnica de produção,
o fio apresenta a peculiaridade de possuir o torcimento
em “S”, modalidade esta que somente se verifica
em pouquíssimas peças (sempre indígenas), e ainda
assim, se vê em tecidos ou fios pré-colombianos
muito excepcionais, já que na grande maioria se
observa o fiado clássico universal em “Z”
próprio dos fusos, rocas (ruecas) e fiados
modernos (V. Adendo V, extraído do livro
Pintura em Restauro). Até aqui somente
se fez referência à matéria prima : a fibra de caraguatá,
aporte da técnica dominada pelos indígenas e
a fabricação de dixes de vidro, introduzida pelos
europeus.
Os aborígenes trabalhavam todo o tipo
de fios, desde os mais finos, até as grossas cordas
com que amarravam suas canoas ou imobilizavam aos
seus inimigos cativos, passando pelos cordéis
de cipó para serrar madeiras ou para os tensores
de seus arcos de caça, a técnica era largamente
abrangida por eles.
Para ter uma idéia da fortaleza das
cordas indígenas vale prestar atenção aos desenhos
de Hans Staden, publicados no seu trabalho Viagem
ao Brasil, em 1557. É evidente que estas
cordas só podiam estar confeccionadas com “caraguatá”,
única planta têxtil de fortaleza semelhante
conhecida na América austral. A continuação se transcreverá
um relato do Irmão Anchieta, referido a cordas empregadas
em rituais : “
Un poço antes de la mañana em que lo avian de matar
(ao prisioneiro)
un índio de Piratininga christiano muy estimado
entre todos hizo uma habla al derredor de lãs casas
(como es su costumbre) amonestando a los suyos que
dexassem a los Hermanos hazer con el enemigo todo
lo que juzgassen serle necessário para su ánima,
sino que lo ternian a él por cruel enemigo y destruidor.
Venida el alva, quando su ánima avía de ser vestida
del resplandor del sol de justítia, sacáronle al
terrero estando presente uma grande multitud, atado
por la cinta com cuerdas luengas, lãs quales tienen
muchos de una parte y d’outra, todo lo demás suelto.
Llégase el que lo avia de matar, usando primero
de sus ceremonias y ritos; dízele la solenne palabra
: “morirás”! Gritáronle entonces los Hermanos que
se pusiesse de rodilhas, lo qual él luego cumplió,
alevantando los ojos y manos al cielo y llamando
el sacratíssimo nombre de Jesu. Le quebró la cabeça
con um palo y voló su aníma dichosa para gozar de
gloria immortal en los cielos. Plega a el Señor
que tal muerte nos dé siéndo-nos quebrada la cabeça
por amor de Christo. Él muerto, quitáronle lãs cuerdas
y dexáronle sin le hazer más cosa alguna, el qual
los Hermanos enbolvieron em uma red y trayéndolo
a cuestas a Piratininga lo enterraron em la Iglesia
para se levantar com los justos en la venida del
Señor”.
Na aplicação de técnicas a grande contribuição
européia se deveu à inventiva dos jesuítas, que
na referida carta de Anchieta, diz o seguinte:
“No dexaré de dezir,
pues que vino a propósito, que quase ninguna arte
ay de lãs necesarias para elcommún uso de la vida
que los Hermanos no sepan hazer. Hazemos vestidos,
çapatos, principalmente alpargates de um hilo como
cáñamo, que nosotros tiramos de unos cardos echados
em el agua y curtidos, los quales alpagartes son
mui necesarios por lo aspereza de las selvas, y
las grandes inchientes de lãs águas, lãs quales
es necesario passar muchas vezes por grande spatio
hasta la cinta y aún hasta los pechos; barbear,
curar heridas, sangrar, hazer casas y cosas de barro,
y otras semejantes no se busca fuera, de manera
que la otiosidad no tiene lugar alguno em casa”.
Porém, na própria produção da fibra, existiu
o aporte dos europeus que transmitiram costumes
estrangeiros para melhorar o enriado e facilitar
a obtenção das loncas em que a priori
se dividem as folhas.
O chaguar teve seu primeiro estudo
científico com a chegada em 1872 do notável botânico
alemão Jorge Hieronimus, do Museu de Berlin, quem
contratado pela Academia de Ciências de Córdoba,
se transladou ao Cone Sul para realizar estudos
fitogeográficos. Depois de concluir a investigação
que abrangia desde a Patagônia ao Mato Grosso, publicou
seu primeiro trabalho que titulou Observaciones
Fitogeográficas sobre la Vegetación Sud Continental,
nesta obra compendiou os frutos de sua pesquisa.
Foi professor de botânica em Córdoba, membro da
Academia Nacional de Ciências da Argentina, onde
publicou a revista Sistema Natural de los Vegetais
(1877). E no departamento de agricultura, publicou
uma lista de 605 espécies vegetais, cientificamente
classificadas entre as quais se encontrava o chaguar
ou caraguatá, ou “cardo bravo”, com
dados significativos sobre suas propriedades têxteis
e tintoriais e seu emprego pelos naturais. Em suas
publicações, que somam oito volumes, aparecem classificadas
três espécies de chaguar : ch. das
penhas (Dyckia floribunda); ch. do monte
(Filladsia rubra); e a mais conhecida, Bromélia
serra, também classificada como Neoglaziovia
variegata, pela Botânica de Hoehne.
“Usam-se os filamentos – escreve Hieronimus
– para fazer fios, cordas, tecidos, e os índios
do grande Chaco, sabem com elas trabalhar bolsas,
ponchos e camisas, nas quais pretendem não podem
penetrar as flechas. Os rizomas torrados
na cinza, servem de alimento aos índios em caso
de penúria”.
As opalinas surgiram com ajuda das fráguas de fole,
com o que fabricavam cravos e soldavam peças de
ferro. Isto se deduz porque para produzir esta pasta
vítrea (vidro pastoso), se tinha que contar com
ajuda de pequenos fornos, capazes de atingir temperaturas
próximas à 1200ºC, coisa impossível a fogo aberto,
porém fácil numa frágua do tipo usado na época,
se se conta com um pequeno crisol ou um forno improvisado,
fechado à carvão sumamente compacto, como o obtido
na época com a sucupira, madeira muito dura, sem
porisidade. Para conseguir este vidro maciço,
factível de ser formado em molde, se usava areia
branca, previamente triturada e depois misturada
com três partes de nitro, de seu peso ou volume.
Uma vez em fusão, a mistura passava ao forno formado
na própria boca da frágua, onde se transformava
na massa chamada “amonitra”, suscetível de
adaptar-se a moldes negativos que podiam ter sido
de diversos metais previamente estampados ou troquelados.
Porém também podiam empregar-se moldes feitos com
o próprio vidro. A opalina primitiva rústica é a
mais antiga forma de vidro, sendo as matérias-primas
a areia e o nitro obtido do borralho de vegetais
do mangue, ou próximo do mar, que são as mais ricas
em nitrato de sódio (substitutivo do nitrato
de potássio, contido nas cinzas das plantas
do interior do território). Na Bahia, os
afloramentos de areias quartzosas brancas fazem
parte da atual paisagem aérea que lembra as palavras
de Estrabón: “entre Tolemaida
e Tiro a ribeira estava coberta de montículos dos
que se extraia a areia conveniente para fazer vidro”
(Estrabón, Geografia).
Cada um dos dixes que compunham o rosário estavam
moldados em duas partes, que formavam suas caras.
Estas, a sua vez, mantinham o cordel de caraguatá
entre si. Para isso, primeiro se moldava uma das
partes, logo sobre ela se assentava o fio e a seguir
se modelava a segunda, para depois, com o vidro
ainda pastoso e sem retirar-se do molde, assentar-se
sobre a primeira completando a rocalha com o cordel
incerto. O vidro se fixava ao fio de modo
não muito firme, como se comprova pela facilidade
com que, ao quebrar-se as contas, se hão desprendido
algumas pérolas (deve ter se conta que isso se produz,
após a peça ter resistido enterrada a frioleira
de aprox. 400 anos). Esta manipulação se torna evidente
porque nas faces da medalha se observa uma prega,
sinal que, no momento da colada, a massa vítrea
se encontrava em processo de endurecimento.
Adendos
Granulito é uma rocha eruptiva da família
dos granitos, que se caracteriza porque a mica negra
esta associada à branca, a plagioclassa desaparece
ou ao menos é rara, e os grãos de quartzo tendem
a adotar formas cristalinas. O trânsito dos granitos
se efetua insensivelmente pelas partículas de mica
branca ou de duas micas, nos que a moscovita
aparece e os grãos de quartzo tendem a individualizar-se.
Isto induz a crer que nos granulitos clássicos todo
o quartzo haja de ter contornos cristalinos, o qual
é uma exceção mais dá lugar a formar-se grupos sinuosos
que se deslizam entre os outros minerais, moldando-os.
Como o granito, o quartzo forma aqui grãos bem individualizados
e isolados, tendo cada um sua orientação especial.
Ao microscópio a placa toma o aspecto de um mosaico
cujos elementos estão diversamente coloridos ; dá-se
uma série de trânsitos de um tipo a outro : assim
o célebre granito de Baveno é granulito
pelo seu quartzo, mas a mica branca falta quase
por completo.
As estruturas granítica, granulítica
e pigmatóide se consideram estratos ou capas
sucessivas (perfeitamente diferenciadas) da completa
separação ou individualização dos elementos mineralógicos
de um magma que forma a pasta das rochas ácidas.
Segundo o célebre petrógrafo francês, Miguel Levi,
no primeiro caso, o quartzo e o feldspato
(mais recentes) se apresentam completamente separados
em agrupações distintas ; no segundo, o quartzo
que é posterior ao feldspato, se isola em grão que
aparecem se ainda não houvessem tido tempo de reunir-se
uns aos outros, e no terceiro, ambos elementos se
encontram distribuídos simultaneamente. Nas três
séries, os minerais constituintes são quase sempre
visíveis à simples vista. Porém, salvo exceções,
as granulações maiores são as das pegmatitas
e as menores as dos granulitos.
Nos granulitos propriamente ditos, os
elementos se estabelecem nas seguintes ordens:
I
– Mica negra, oligoclassa, ortosa, quartzo dihexaédrico
; acessoriamente : turmalina, esmeralda, zircão,
topázio, esfena, anfíbol, granate, apatito, magnetita.
II
– Ortosa ou anortosa, microclina com filões diminutos
de albita ou de quartzo granulítico, mica
branca ; eventualmente ainda se encontra lepidolita,
andalucita rosada, distena, cordierita, corindão,
etc.
Entre as variedades de granulitos figuram
: Alpita, Alasquita e Luxulianita.
O granulito oferece variedades anfibólicas
mais básicas que o tipo normal, já que o feldespato
é em parte oligoclassa. Em Córsega se encontram
variedades curiosas de granulitos sódicos com riebeckita
e egirina, indo a ortosa normal acompanhada de anortosa.
As granoliparitas de Laparent também
se incluem entre as variedades de granulito. Abundam
na ilha de Elba nas costas da Argélia e Túnez, contém
mica negra epigenizada parcialmente em clorita,
quartzio bipiramidado, ortosa vítrea e oligoclassa,
oferecendo uma textura finamente granulada. A
foto
196 mostra as características petrográficas
e na 197
e det.
198 se vêem pequenas degradações da rocha.
Em 199
se pode ver uma imperfeição natural do bloco. Na
200, as marcas deixadas pela talhadeira
quando os silhares foram removidos do antigo assentamento
e na 201
as flechas indicam a presença de restos de uma argamassa
pozolânica (avermelhada) que teriam pertencido ao
embrechado anterior.
|
Fe
matriz, elemento majoritário |
|
Elemento
Cravo %mm |
Cravo
cabeça de diamante |
Cravo
pequeno cabeça de diamante |
Cravo
cabeça aplainada |
Cravo
pequeno asa de mosca |
Cravo
cabeça chata |
Cravo
cabeça asa de mosca |
|
Antiguidade
aproximada |
(s.
XVII) |
(s.
XVII) |
(s.
XVII) |
(s.
XVII) |
(s.
XVIII) |
(s.
XVIII) |
|
Fe
- Ferro |
Matriz |
Matriz |
Matriz |
Matriz |
Matriz |
Matriz |
|
Cr
- Cromo |
0,012% |
0,012% |
0,011% |
0,011% |
0,012% |
0,010% |
|
Cu
- Cobre |
0,12% |
0,016% |
0,18% |
0,047% |
0,013% |
0,006% |
|
Co
- Cobalto |
0,010% |
0,055% |
0,13% |
0,054% |
0,056% |
0,052% |
|
Mn
- Manganês |
0,013
% |
0,020% |
0,067% |
0,053% |
0,10% |
0,006% |
|
Ni
- Níquel |
0,097% |
0,097% |
0,15% |
0,0007% |
0,019% |
0,004% |
|
Pb
- Chumbo |
0,33% |
0,33% |
0,32% |
0,33% |
0,32% |
0,33% |
|
W
- Tungstênio |
0,050% |
0,042% |
0,041% |
0,046% |
0,050% |
0,042% |
|
V
- Vanádio |
0,008% |
0,016% |
0,009% |
0,012% |
0,013% |
0,008% |
|
Sn
- Estanho |
0,020% |
0,027% |
0,019% |
0,021% |
0,019% |
0,019% |
|
Zn
- Zinco |
0,018% |
0,018% |
0,018% |
0,017% |
0,017% |
0,017% |
Entre os testemunhos arqueológicos que ajudam a
compor a história jesuítica das antigas Missões,
assume uma especial importância aqueles que emergem
do silêncio para relatar a história de modo mais
axiomático. Cabe lembrar um interessante estudo
realizado pelos arquitetos Jorge Gazzaneo e Mary
Gonzalez, quando descobriram os notáveis sistemas
hidráulicos nas ruínas de São Ignácio Miní. No entanto,
a memória nem sempre é tão fidedigna, outras vezes
os dados históricos somente se conhecem por antigos
escritos que resultas exíguos ; é o caso do conhecimento
limitado que se tem das fundições metalíferas que
se encontravam na Missão de Apóstoles e sobre as
quais não restou mais que o conhecimento vago
de saber que em algum lugar deste povoado agora
inexistente, houve uma fundição.
Para colocar-se no tempo, e como dado
histórico deve se recordar que a Missão de São José
foi fundada em 1633, um ano após a de São Ignácio
Miní e em uníssono com a de Apóstoles. Nesse momento
a população total das reduções era de 48.491 almas
; os índios foram instruídos em todos os ofícios
: eram ferreiros, carpinteiros, tecedores, estatuários,
pintores, canteiros, prateiros, gravadores, impressores,
fundidores de sinos, rosarieros, entre outros grêmios.
No transcorrer de um século e meio a obra dos jesuítas
logrou assentar em populações firmes 100.000 índios,
ou seja, até 1768. A instrução técnica havia sido
trazida, primeiro do Peru pelo Padre S. J. Diego
de Oñate (1615 - 1623) e logo diretamente de Espanha
pelos Provinciais que lhe seguiram, cuja formação
era peninsular. Na Província de Missiones, a menos
de 50 quilômetros ao SE de Posadas, se encontra
o sítio de onde se assentava a Missão de São José,
que em tempos relativamente próximos foi condenada
à desaparição, sendo que as pedras da cantaria se
observam nas construções atuais. Deste modo, a deplorável
insensibilidade acabou com um dos importantes testemunhos
do esplendor arquitetônico que havia superado a
importância edilícia do Rio de la Plata.
A exploração das zonas relacionadas
com o antigo assentamento teve lugar dentro do programa
de pesquisas históricas (1975 - 1976) dependente
do Museu da Casa de Governo. Quiçá um dos principais
logros desta empresa foi desvendar os aspectos relacionados
com a cerâmica que se produzia nas Missões Jesuíticas.
Durante a prospecção foram encontrados
partes de objetos de cerâmica de todo tipo, tanto
autóctone como peninsular, fragmentos de vitrais,
ferramentas metálicas, cravos, cachimbos indígenas,
medalhas de bronze e ouro, ferragens, utensílios
líticos finamente polidos, etc.
Em virtude de da espessura dos bosques
missioneiros e do manto vegetal que cobre com sua
sombra perpétua todo o eventual resto de civilização,
a exploração das paragens, que em algum momento
constituíram o entorno da égide jesuíta, resulta
penosa e demorada. Nestas circunstâncias, após o
achado em plena selva, de restos de um forno de
tijolos e uma quantidade de restos de ladrilhos
que foram liberados da mata à marchete, se descobriu
sob as samambaias uma obragem cuja a razão a constituía
uma manufatura onde se havia cozido cerâmica. Era
evidente que muitas das peças que ali se coziam
haviam sido modeladas in-situ, num recinto
de 4x4 metros, existente a 30 metros do forno e
que consistia em um habitáculo semi-encravado no
terreno, cujas paredes agora caídas, eram blocos
de pedra. No entanto, apesar da quantidade de peças
que foram recolhidas no lugar, o descobrimento mais
importante era o do próprio forno, que ainda muito
degradado, proporcionava detalhes prístinos sobre
a atividade cerâmica dos jesuítas missionários.
É evidente que no forno da obragem se
haviam confeccionado cerâmicas policromadas (imagens
religiosas, crucifixos, rosários, etc.) com técnicas
autóctones que operavam aplicando cores argilosas
em úmido sobre as peças cruas, para logo integrar-se
durante o cozido, ou seja, com colorações de engobo,
técnica que na América do Sul somente foi encontrada
em algumas culturas do bi-reinado do Peru. No entanto,
outrossim se realizaram esmaltados de elaboração
bastante avançada, técnicas estas que também não
existiam na América pré-colombina e além, curiosamente
se encontraram peças com caracteres incisos classicamente
aborígines, recobertas com excelentes esmaltes.
As fotos 159 e 160 mostram em detalhe a conta
de rosário ornada na obragem : o interior é de argila
vermelha com superfície alisada por brunido úmido,
com decoração geométrica incisa de inspiração indígena
e posteriormente coberta com um esmalte negro, muito
fino. Apesar da jazida não haver proporcionado objetos
grandes íntegros, permitiu realizar um interessante
estudo das cerâmicas missionárias ; ficou claro
também que a maior parte das peças possuíam um acabamento
adequado a uma posterior pintura não cerâmica.
É importante, porém, ter em conta que
a utilidade imediata destes fornos consistia na
fabricação de telhas, já que, durante a Conquista
e desbravamento, estas garantiam a sobrevivência
nos ataques de índios e eventualmente, de Bandeirantes.
Numa ordenança ditada em 4 de Setembro de 1714,
pelo Provincial do Bispado de Paraguay e dirigida
à Missão de São Ignácio Mini, entre muitas diretivas
para a construção de casas para os gentios, se lê
: “Las cassas que se hicieron
de nuevo para los índios seram en los cimientos
[alicerces] ,
y tres quartas, o una vara de ellas de piedra, lo
demás de adobres. Y no de tapia francesa, que no
dura, y esta durazión es a que lo que principalnte a
de atender. Quitesse quanto antes la paja com q
estan algunas cassas de los índios cubierta, y se
pondrán de teja para que no suceda alguna quemazón
que se puede temer. Y para que esto se pueda executar
encargo se acaben de perficionar los hornos de
teja”.
O forno encontrado nos terrenos da Missão
de São José, relativamente cercano à São Ignácio
Miní, que ainda disputando espaço com as raízes
conservava sua integridade, corresponde ao modelo
do antigo forno de talude semelhante aos
usados em toda a península ibérica, que se valia
dos declives do terreno para facilitar a circulação
dos vapores em seu interior. O croqui
202 mostra um corte sagital da construção
e, na que “A” é a câmara ; “B” o conduto de tiragem
para a fumaça (canhão) e “C” é a saída quadrangular
em cuja parte superior se adequava o tramo final
da chaminé, que era removível. Também fazia parte
da obragem um pequeno manancial de águas claras,
que se encontrava a 30 metros do forno e que, no
momento do achado, passava inadvertido sob a espessa
vegetação. As principais características do forno
são as seguintes : a câmara de cozimento tem 4 metros
de longitude, está construída com laterais de pedra
quadrada e abóbada de tijolos. O conjunto configura
um corte em forma de arco arábico. No momento do
achado, no piso desta parte do forno existia uma
camada de 13 cm de cinzas muito consolidadas pelo
tempo e as águas da chuva (foto
203). À câmara, se projeta numa chaminé
que começa em um canhão reto, com tiro de 16 metros,
cuja inclinação é de 4º e todos os seus cortes apresentam
a forma de arco primitivo, com diferentes assimetrias.
Em sua totalidade o canhão está constituído por
tijolos, cujas superfícies na atualidade estão transformadas
em escórias e, em seu extremo superior, existe uma
pequena câmara quadrangular que serviu de receptáculo
para juntar os restos da combustão. É notório que
sobre este espaço se situava a parte final da chaminé,
cuja posição era vertical e havia sido levantada
em metal, do qual existiam apenas restos. Também
de metal seria a porta frontal do forno e o sustentáculo
sobre o qual se coziam as argilas. A situação deste
era regulável, já que se posicionava sobre pilhas
de pequenas ladrilhos quadrados e de pouca espessura,
capazes de completar um apoio com altura desejada.
Estas pilhas se encontravam perfeitamente encaixadas
nas paredes de pedra, de maneira tal que não só
constituíam um suporte de grande firmeza, senão
que ao não sobressair da parede, mantinha integralmente
o espaço útil da câmara.
As tarefas de limpeza foram realizadas
em estratos ainda que o material encontrado se achasse
sumamente abalado devido aos múltiplos derrubes
e surgimentos vegetais que se enredavam nos antigos
restos. Na foto
204 e det.
205 se vê a lateral esq., de onde se aprecia
uma das sustentações. Observem-se os blocos granes
existentes na câmara de cocção. As dimensões
dos ladrilhos que existiam dentro do forno para
sustentar as peças em processo de cozimento éram
de 10,9 x 10,9 x 3,8, e são os mesmos que foram
usados profusamente nas vivendas missionárias, nas
que ao parecer, lhes deu diversas utilidades. Na
foto
206 se observa a camada de escórias e cinza
acumuladas na parte central da chaminé, e na 207
se vê a abóbada na parte final. Em todo interior
os tijolos estão transformados em escórias e parte
deles já desabaram.
O terreno em que se encontrou a obragem
apresenta a típica cor laranja-avermelhada da zona
missionária e das cerâmicas ali fabricadas. A
foto
208 mostra uma árvore caída por efeito de
uma tempestade ocorrida durante o trabalho de limpeza.
Observe-se a cor da terra da zona.
Na foto
209 e dets.
210 e 211
se vê um pedaço de ladrilho da Missão Jesuítica
dos arredores de São Ignácio Miní. Neste povo, os
blocos cerâmicos apresentam espessuras consideráveis.
Os liquens (em destaque) indicam que a peça foi
colhida na superfície do solo.
As fotos
212 e 213
captam o momento em que Tellechea está restaurando
um coroamento de dintel de um portal profusamente
decorado. O bloco ornamental é de arenito vermelho
e nele está cinzelada uma grande coroa. Porém a
sustentação de maior força nas construções está
elaborada em uma rocha basáltica, as vezes ocelífera,
que na zona se encontra formando o leito do Rio
Paraná.
Argamassas pozolânicas do Recôncavo
Bahiano : os cimentos pozolânicos
chamados “terra romana”, usados na antiguidade para
obter embrechados fortes, eram estruturados com
todo o tipo de materiais de retenção. Nos
empregados na Santa Casa predominavam os cacos de
telhas e os fragmentos de conchas. Na foto
214 se vê o único resto existente de um
remoto baluarte defensivo esquecido pela História
que defendia o flanco esq. do antigo Forte Santo
Antônio do Porto da Barra. O bastião sobreviveu
ao tempo, em condições que, como se imagina, na
pequena praia invadida e açoitada pelas águas marinhas,
são muito desfavoráveis. Isto indica a solidez do
embrechado do muro com terra romana. Observe-se
o agregado com pedaços de conchas que asseguravam
a travação. O exemplo serve para avaliar a resistência
destas argamassas (as quais as vezes se adicionava
cal e ainda gordura de baleia), e, principalmente
a excelente propriedade hidráulica das jazidas terro-arenosas
do lugar.
Existe
mais de 800 espécies de Malva de países cálidos
e temperados de todo o mundo. Na América Central
e Caribe se encontra silvestre a “malva branca”
ou “cimarrona” (Whalteria americana),
que desde tempos imemoriais foi usada pelos
indígenas. A aplicação com fins terapêuticos emolientes
foi muito usada, porém sem resultado conhecido.
Esta utilidade se atribuía a abundante mucilagem
que contém, na realidade o principal proveito que
levou a produção massiva se gerou a partir de suas
finíssimas fibras. Os naturais se valiam delas para
a confecção de tecidos, cordas e cordéis sumamente
resistentes, que durante a colonização já começavam
a ser barateadas mediante a mistura com diferentes
filamentos de juta, que ao produto, só lhe transmitem
rusticidade. Na foto
215 se vê a largura das meadas, em 216
os estágios do desfibrado e na 217
o poço de águas sulfurosas onde se praticava
o enriado. O material fotográfico foi cedido pela
revista The Américas, para o Boletim da
União Panamericana, que o publicou em sua edição
de setembro de 1916.
Em realidade, o sentido da torção do fio somente
se pode determinar de um modo relativo. Supondo-se
que o extremo dele gira em forma espiral para a
direita, o corpo adota um espiralado que, querendo
se realizar pelo outro extremo com o mesmo sentido
se deverá transmitir um movimento contrário, ou
seja, para a esquerda. Isto significa que para poder
dizer que um fio se apresenta helicoidal em determinado
sentido, é imprescindível saber qual dos extremos
foi o começo do retorcimento (ou seja, o que no
momento da torção permanecia imóvel) e, por conseguinte,
qual dos extremos foi torcido. Isto se torna fácil
com um método simples idealizado pela indústria
têxtil, para determiná-lo. Portanto, para a identificação
de um movimento ou direção de torção de um
fio, parte-se de que se traçam dois perpendiculares
ao eixo (figura
218) a b
e a´ b’, encerrando um segmento
que contenha uma volta de torção. Assim, as fibras
que se encontram entre as perpendiculares formarão
a diagonal c d , gerada pela
direção dos filamentos, que vem sendo chamado ângulo
elix, ou seja, que neste caso formam a figura
que lembra a letra Z, como se vê em
“J” . Seguindo este mesmo critério, quando
o retorcido é invertido com respeito ao anterior,
“B” , se formará uma imagem que se assemelha
a um S, como o mostra “K”. Daí
é que se determina que a direção de torção é
“em Z” ou “em S” segundo seja o sentido
e desde qualquer posição que se observe um fio,
sempre terá sua direção de torcido “em Z”
ou “em S” não importando a marcha de fabricação
original (livro Pintura em Restauro - páginas
T:I - págs. 753 e 759 - T:III - págs. 2205/8 e 2237).
As fibras do cordel do rosário se analisaram
do seguinte modo : se limparam com solventes, logo
foram separadas com agulha e auxílio de uma lupa
estereoscópica de luz rasante e oblíqua. As fibras
tratadas e isoladas foram incluídas para seu estudo
microscópico, que confirmou, no seu resultado, serem
de chaguar , segundo as seguintes características
:
Longitude da fibra 34-50 mm
Dimensão das partes largas 2,7 μ
Fibras
unidas de a pares 5,7 μ
Espessura
menor 2 μ
Adendo
VI
Cachimbo
típico do estilo africano
As
fotos
219, 220,
221
e 222
mostram um típico fornilho de madeira, de estilo
africano, que fazia parte de um cachimbo lavrado
no período colonial, e na foto
223 a linha
branca indica o percurso do conduto do fumo em ângulo
de 46º.
Instituto Domingo Tellechea de Conservação e Restauro |