Restauração do forro do Salão Nobre da Santa Casa de Misericórdia da Bahia

 

Estudo iconográfico e pictorial dos painéis do Salão Nobre da

Santa Casa de Misericórdia de Bahia

 

Considerações prévias que ajudarão a compreender as fontes históricas que encerram os quadros dos artesões do forro, tendo em conta que no recinto do Salão Nobre e Consistório da Santa Casa de Misericórdia de Bahia (capital do país até 1763) se escreveram importantes páginas da história colonial da Bahia e da posterior Federação do Brasil.

 

Títulos das separatas do “Livro Informe da Santa Casa”

I - As primeiras instituições hospitalares da América Latina

II - Dados preliminares sobre a fundação de Salvador

III - Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Salvador

IV - A escravatura 

V - As grandes mudanças propiciadas pelo novo estilo e pelas normas tridentinas

VI - Outras obras realizadas na Santa Casa em diferentes épocas

VII - A Misericórdia

VIII - A Misericórdia na Bahia

IX - Os desvios durante a colônia

X - Invasão da Bahia pelos holandeses

XI - Os problemas tectônicos e as fortificações em Salvador

XII - A construção de baluartes em Salvador

XIII - As desventuras da antiga catedral da Sé

XIV - Previdências para o desmanchado integral do forro do Salão Nobre da Santa Casa de Misericórdia da Bahia

 

I - As primeiras instituições hospitalares da América Latina

  No ano de 1048 os mercadores de Amalfi, do reino de Nápoles, estabeleceram em Jerusalém um monastério beneditino com um hospital dedicado a São João Batista, que se destinava a acudir os peregrinos. Em 1099, Godofredo IV de Bouillón, “Defensor do Santo Sepulcro” e caudilho da I Cruzada, fez importantes doações ao dito hospital pelo que seu diretor de nome Geraldo os separou da tutela dos beneditinos e fundou uma nova congregação militar e hospitalar chamada Hospitalários de São João ou Irmãos do Hospital de São João de Jerusalém. O sucessor de Godofredo lhes deu uma regra que foi confirmada em 1113 pelo papa Pascoal III. Em 1522 lutaram heroicamente durante seis meses contra o exército de Solimão III, porém foram derrotados. Por fim Carlos V os instalou na Ilha de Malta e desde então adotaram o nome de Cavaleiros de Malta, permanecendo na ilha até a Revolução Francesa. Esta Irmandade, cujos valorosos cavaleiros haviam demonstrado a eficiência contra Mahomet II (quando se intitulavam Cavaleiros de Rodas - 1310) havia adotado como distintivo uma cruz com pernas iguais e oito pontas, a mesma que se enchia com bons ventos nas velas dos Conquistadores da América.

Numa época carregada de simbolismos, profecias e monstros marinhos, as primeiras caravelas européias a chegarem aos países das “Índias Ocidentais”, começando pelas de Colombo, vinham protegidas pela Santa Cruz na sua figuração ideada pela antiqüíssima Ordem Real, Militar e Hospitalar das Mercês ou da Misericórdia (Reprodução da decoração da Carta Atlântica de 1563 de Luís Lázaro - Foto 001).

Não é casualidade que os primeiros assentamentos europeus, tanto dos portugueses no Brasil como dos espanhóis no México tiveram denominações relacionadas com a “Vera Cruz”, quer dizer, com a “Cruz Verdadeira” a dos Cruzados Hospitalários de São João ou de Malta: quando Pedro Álvares Cabral arribou as costas do Brasil em 22 de Abril de 1500 (país que acreditou ser uma ilha) a chamou de “Ilha da Vera Cruz”. E quando Hernán Cortés com seus barcos ancorou na Nova Espanha, em 21 de Abril de 1519, por ser Sexta-feira Santa e pela riqueza do país, denominou aquele ponto Vila Rica de la Vera Cruz, foi o ponto de partida da Conquista espanhola”. Pois, o quê tinha de mágico essa “Cruz Verdadeira”, que além de atender contra as enfermidades dos embarcados da época, tinha que ser a Cruz de Malta, própria da Ordem das Mercês, nascida dentro do antigo Hospital de Santa Eulália em Barcelona? “Segundo os melhores documentos relativos à fundação da Ordem, se iniciou esta por motivo de uma descensão da Virgem de Barcelona no coro da capela do nosocômio, por esta manifestação milagrosa pela qual o novo instituto que os Mercedários tiveram e que formava parte do Real Palácio de Barcelona se havia de chamar Santa Maria da Misericórdia ou das Mercês dos Cativossendo o rei Dom Jaime I o Conquistador, patrono principal da obra. O escudo da Ordem da Bemaventurada Virgem Maria da Merced (ou da Misericórdia) da Redenção dos Cativos é cortado e brasonado por duas peças heráldicas chamadas armas verdadeiras, tendo como timbre a coroa real, divisa da Maior distinção nos escudos. Seu primeiro quartel é de gules (vermelho) e tem em chefe, como peça honorável, uma cruz de Malta de prata. As lâminas 002  e 003 mostram o escudo mercedário e um carimbo dele em uma crônica de 1619. No segundo (inf.) apresenta os quatro paus de gules em campo de ouro. Estes paus do Escudo Catalão têm em seu princípio o caráter de recompensa militar. Uma firme tradição oral européia, escrita e artística, tem recolhido até o detalhe do fato original: Wilfredo I, O Velloso, Conde de Barcelona, exercia certa independência e soberania tal quais os condes de Castilha. Era efeito das circunstâncias particulares em que faziam a guerra contra os mouros. Um dia, Carlos El Calvo, Imperador dos Francos (1875-1877) requereu ajuda ao Conde Catalão para atacar os Normandos que invadiram seus domínios. A vitória foi do Imperador, graças ao heroísmo de Wilfredo, que foi ferido gravemente em batalha. Carlos acudiu junto ao seu leito no próprio acampamento e ali mesmo premiou seu relevante comportamento, concedendo-lhe armas heráldicas a ele e seus descendentes. Para isso, molhou os quatro dedos de sua mão direita no sangue que borbotava da ferida do Conde, os imprimiu sobre a rodela deste, desde o chefe até a ponta e deixou marcadas raias vermelhas, de desse momento em diante formaram os quatro paus de gules ou “barras” catalãs. As gravuras 004 e 005, em metal do s.XVIII, originais do gravador inglês Hopwood, O Velho (1752-1819) e impressas por Dronard de Paris, mostram, respectivamente; o momento em que Carlos o Calvo, estampa os paus de gules no escudo de Wilfredo I, o Velloso, e quando Jaime I, o Conquistador, invadiu Majorca e derrotou os mouros, sob o estandarte catalão (Frei Avelino Ferreira Ortiz, O Escudo Mercedário).

Muitas coroas reais européias exibiam em chefe a Cruz de Malta da Ordem de Cristo, entre elas a Imperial do Brasil, que se conserva em Petrópolis (foto 006). Também no próprio brasão da Casa Imperial do Brasil, a esfera armilar em ouro se sobrepõe à Cruz de Malta da Ordem de Cristo (lamina  007).

Nos séculos XII e XIII os reis de Aragão e de Castela fizeram várias tentativas para fundar instituições permanentes dedicadas à redenção de cativos, mas seus bons desejos foram estéreis. A raiz de haver investido a fortuna herdada da família, na redenção de cativos e, desanimado pelas escassas possibilidades de continuar nessa tarefa com êxito, S. Pedro Nolasco havia decidido pelo ostracismo. As palavras textuais de um pergaminho de 1260, corroborado pelos bolandistas (historiadores de Jean Bollandus) dizem o seguinte: “Havia se retirado S. Pedro Nolasco a noite do 1º ao 2 de Agosto do ano 1218 a consultar com Deus na oração, seu desejo de se fazer solidário, quando lhe apareceu a Santíssima Virgem e lhe mandou que fundara uma Ordem na qual exercitar-se a caridade redimindo cativos. Ele seria o primeiro a vestir o hábito branco da nova religião que havia de chamar-se Ordem de Santa Maria da Misericórdia ou das Mercês dos Cativos” (Selos ou Ata Notarial de 1260 - “Super vita et noribus de S. Pedro Nolasco; Constitucions d’ls Pares antichs del Orde de la Verge María de la Mercè, ordenadas por el maestre General frá Pedro de Amer em 1272”).

O primeiro hospital surgido na América Latina foi organizado pelo Governador Geral das Índias Ocidentais, Nicolás Ovando. Em 1501, a administração da Ilha espanhola (hoje território de Haiti e Santo Domingo) passava a ter seu segundo Governador. Ovando era um importante homem de Estado, pertencente a uma família da nobreza espanhola, Comendador de Lares na Ordem de Alcântara, era distinguido pelo Rei Fernando, o Católico, com sua amizade, havendo-lhe concedido honores e mercês. Devia substituir Francisco de Bobadilha, cujos desmandes e péssima administração havia produzido geral descontento, tanto entre os colonos como entre os indígenas.  Em 13 de Fevereiro de 1502, saiu Ovando de San Lucar de Barrameda com uma frota de 30 baixeis e 24 caravelas, a Maior esquadra que até então se havia reunido para cruzar o Atlântico. Nela vieram 2.500 pessoas, 23 eram casais que iam formar o núcleo populacional. Faziam parte da expedição muitos “artesões, construtores, com seus instrumentos”, já que o Governador se propôs fomentar a agricultura e a indústria em seus domínios e, ao mesmo tempo, ensinar os indígenas a trabalhar.

Em 1502, a administração da ilha começava com uma nova fase na qual se davam diretivas de como devia ser a “Organización de lo descubierto” e a continuação se anunciavam “las instrucciones de que fue provisto, desde el 16 de septiembre de 1501. Dicen de cómo la Corona há comenzado a estructurar una política indígena que, entre sus destacables características, presenta, junto a lo educacional, la beneficencia.”

Ao final de 1503, sob a evocação de São Nicolás de Bari (santo do governador geral Nicolas Ovando), se revela o primeiro hospital do Novo Mundo. Na carta de 2 de Novembro de 1695, o bispo Carvajal e Ribera, que em 1570, fundara um hospital para abrigar os índios doentes, escreve: “El principio de esta fundación fue um boxio donde hoy está la capilla de Nuestra Señora de Altagracia, que era de una negra piadosa, que recogía los pobres que podía, y los curaba según sus posibilidades, por no haber hospitalidad en esta ciudad [de Santo Domingo]. Aumentóse por limosnas de algunos vecinos y su primera iglesia fue esta dicha capilla. Vino a este tiempo por gobernador de esta isla don Nicolás de Ovando, comendador de Lares; tomó a su cargo esta santa obra, y edificó la fábrica material que hoy tiene, aplicó todo su peculio para ella, y por atención a este caballero tan principal, protector de dicho hospital, se le dedicó a Dios con título de San Nicolás”  (Os Hospitais Americanos de Outrora, pág. 185, Guilhermo Furlong, SJ, O Transplante Social).

Segundo o historiador Erwin Walter Palm, (Os Hospitais Antigos da Espanha) a capacidade desse pequeno hospital até 1503 se restringia a seis camas. Nesse ano os muros de barro não mais resistiram e o edifício foi reconstruído com Maior estabilidade ainda que também fosse preciso substituí-lo novamente em 1552. Desta construção ainda existem restos cujas pedras calcárias se mantêm compactas.

O Rei Fernando, na carta enviada a Diego Colón, em 3 de Maio de 1509, diz:  “soy informado de que la mayor parte de las gentes que de acá va, adolece en llegando a la dicha isla, y si no hubiere mucho recaudo en los hospitales de la Buenaventura y de la Concepción, que ahora dice que están hechos, peligrarían muchas personas, debéis de tener muy especial cuidado que los dichos dos hospitales estén muy proveídos de las cosas necesarias: y porque yo mandé dar en limosnas a cada uno de los dichos hospitales doscientos pesos de oro, debéis vos informar de la manera que se gastan, y si no se gastaron como deben, daréis orden cómo sean bien gastados. Y asimismo debéis informaros, si es necesario, que se hagan alguno o algunos más hospitales y viendo que son necesarios, dar orden cómo se hagan de la manera que hasta aquí lo ha hecho el Comendador Mayor de Alcántara”. Pela resposta de Diego Colón, se sabe que os três hospitais erigidos por Ovando continuavam funcionando.

Segundo o historiador Jesuíta P. Guillermo Furlong: “cuando, en 1520, llegó a Santo Domingo monseñor Alejandro Geraldini, primer obispo residente, el ilustre prelado pidió al Papa, en 1522, indulgencia para la futura construcción de un hospital destinado a albergar a los indios enfermos. No hay mayores noticias sobre esta fundación, aunque parece que la edificación definitiva fue encarada por el arzobispo Andrés de Carvajal, en 1570, quien tenía instrucciones concretas al respecto. Walter Palm informa que, al morir este pastor, en 1577, sus bienes fueron embargados por las deudas que debía a esta fábrica (la de la capilla del Sacramento de la Cátedra) y hospital.” Outro hospital para índios foi chamado de São Andrés, incendiado em 1586, durante o saqueio da cidade pelo sócio comercial da rainha Elizabeth da Inglaterra, o famoso pirata Drake.

O terceiro hospital da cidade de Santo Domingo foi o dos leprosos, chamado Hospital de São Lázaro, construído na altura do segundo decênio do s.XVI . A respeito da construção dos hospitais, as ordenanças de Felipe II, de 1573, estabeleciam que: “cuando se fundare y poblare alguna ciudad, villa o lugar, se pongan a los hospitales para pobres y enfermos de enfermedades que no sean contagiosas, junto a las Iglesias y por claustro de ellas, y para los enfermos de enfermedades contagiosas em lugares levantados, y partes que ningún viento dañoso, pasando por los hospitales, vaya a herir em las poblaciones.” Em todas as colônias lusitanas e espanholas da América, devido as não poucas preocupações dos governantes, muitas vezes essas obras meritórias eram executadas pelo mordomo da casa, que é sobre quem recaia toda a responsabilidade.    

Já em 1531, com a chegada ao México do franciscano espanhol Vasco de Quiroga, que havia sido nomeado Bispo de Michoacán, se abriu uma nova fase da atividade hospitalar na América Espanhola. Vasco de Quiroga, que era jurisconsulto, havia sido nomeado pela rainha ouvidor da primeira audiência estabelecida na Nova Espanha para julgar as acusações que se fizeram contra Hernán Cortés e Nuno de Guzmán. A notável atividade pastoral de cunho social, dedicada principalmente aos índios, do flamante pregador, começou com a construção de dois hospitais: o de Santa Fé (perto da capital mexicana) e o de Tzintzuntzan (Michoacán). Ao mesmo tempo fundava o colégio de São Nicolas (um dos mais antigos da América). Entre seus trabalhos, Vasco de Quiroga escreveu: Regras de ordenanças para o Governo dos Hospitais de Santa Fé e Michoacán.

 

II - Dados preliminares sobre a fundação de Salvador

 

Diz Varnhagem: “estudada minunciosamente a topografia do terreno vizinho, apresentaram-se pareceres para que a nova cidade assentasse sobre a peníncula de Itapagipe, isto é, nas imediações do sítio [hoje chamado Bonfim], para onde espontaneamente ora se vão agrupando muitos moradores. Ponderavam o de tal parecer que nessa península, começando a edificação desde o pontal, por ser o terreno plano, as ruas se traçariam melhor, as casas ficariam seguras e a abrigo de desmoronamentos que pareciam iminentes nas imediações do ancoradouro, e a fortificação se executaria com mais facilidade, pro isso que a defesa da banda da terra se limitava à de um pequeno istmo. Acresci que, quanto ao ancoradouro, mais seguro se achavam os navios, para aquela banda, dos ventos do quadrante do sul, visto que não seria difícil remover ou acautelar os inconvenientes de uma pequena restinga que por ali se estendia. Desse ancoradouro os navios descobririam ao longe da Barra, entre a ponta do padrão e a ilha de Itaparica e poderiam prevenir-se a tempo contra os inimigos que se apresentassem a entra-la”. “Apesar porém de tão judiciosas opiniões, prevaleceu a de subordinasse o assunto da cidade ao pouso até ali habitual dos vios, ajudando muito pra isso a circunstância de uma fonte na praia, e junto ao lugar mais conveniente para o cais, da qual os mesmos navios faziam aguada. Vinha esta paragem a ficar situada a meia distância, entre a reputada melhor e a povoação primitiva”.

“Há que advertir que do lado norte da baía desde a Barra ou antes deste o local vizinho a esta junto a primitiva povoação, para dentro o solo se eleva sobre a praia apresentando uma série de encostas pendoradas, cuja terra vermelha, então vestida ainda de mato virgem e em algumas partes já de capoeiras originadas pelas roças dos colonos do primeiro donatário, se desmorona com facilidade; a chapada de uma destas encostas mais vizinhas ao ancoradouro foi o sítio pelo qual Tomé de Souza por fim se decidiu, talvez porque, devendo a nova cidade ser a mesmo tempo praça forte, julgou conveniente a esta uma paragem tanto a cavaleiro sobre os contornos, com água potável perto corrente por um lado e nascente por outro circunstância que também se não dava em Itapagipe, e que era importante a quem não podia começar por construir um aqueduto”. (Cronista secular, Francisco Adolfo Varnhagem, Visconde de Porto Seguro, Historia Geral do Brasil, anotada por Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia).

 

III - Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Salvador

 

A Confraria da Santa Casa de Misericórdia de Portugal na qual se espelharam todas as outras instituições do país, que com esse título surgiram nas suas Colônias, foi estatuída pelo padre-mestre Frei Miguel de Contreiras, religioso da Santíssima Trindade e confessor da Rainha D. Leonor, irmã do rei D. Manoel e esposa de D. João II.  O cronista Frei Luis de Souza se refere ao momento manifestando “que alguns cidadãos de Lisboa que passeavam no adro da Sé viram passar um padecente, para o qual se implorava a misericórdia de Deus e d’ahi lhes nascera o pensamento de fundar a Irmandade da Misericórdia como se lê na história de Sto. Domingos parte 1ª” (Panorama 1838 pág.279). De modo análogo, testemunhavam os historiadores Frei Nicolas de Oliveira, Duarte Nunes de Leão e também o alvará de Felipe III, assinado em 26 de Abril de 1627. Onde se lê:

“Eu El-Rey faço saber aos que este alvará virem que o provincial da ordem da SS. Trindade e redempção dos cativos me enviou a dizer por sua petição, que o Revm. Padre-mestre Frei Miguel de Contreiras, Religioso de sua Ordem, com outros pios varões que para isso ajuntara instituira nesta cidade a mui illustre Irmandade da Santa Misericórdia, donde emanaram as mais que haviam nestes reinos de Portugal e seus senhorios...” .

Em 5 de Agosto de 1498, figura como fundador da Misericórdia, “Frei Miguel de Contreiras, protegido pela Rainha, Regente do Reino na ausência de seu irmão El-Rei D. Manoel” (Livro I do tombo da Sta Casa a fls 259); sendo o registro datado de 1º de Novembro de 1637 e referenciado pelo Escrivão da Mesa, Mathias de Alves Lobato.

Além disso, o próprio Contreiras foi o primeiro Provedor da Misericórdia de Lisboa, entidade laica dependente da Coroa. Mais adiante, o Rei outorgou a Santa Casa a honra de “carregar os restos fúnebres dos Monarchas e dos Príncipes da família, desde a porta da Igreja até a primeira eça [catafalco], donde a inhumação terá lugar” (Doc. Provedor Comendador Teodoro Teixeira Gomes - Relatório apresentado à Mesa - 1913-1914).  Na Bahia era a Irmandade que fazia o próprio, com os cadáveres dos governadores (termo de resolução da mesa, de 6 de Junho de 1760, a fl.119 do livro 4 de acórdãos) e foi por ocasião do falecimento do vice-rei, Antonio de Almeida Soares e Portugal, 1º Marquês de Lavradio.     

Com o título de “Grandezas de Lisboa”, pág. 107, Panorama diz que “quando Felipe II chegou a Almada no anno de 1581, o provedor que já era D. Francisco de Sá Conde de Mattosinhos, e a mesa enviaram a sua presença dous irmãos, um nobre e outro plebêo, para o convidarem a ser irmão e protetor da Irmandade. O Rei acolheo-os com beniguidade e aceitou o convite; quando, porem ao se despedirem, ião-se os dous irmãos pondo de joelhos para lhe beijarem a mão em reconhecimento á mercê obtida, elle não o consentiu, dizendo-lhes: levantae-vos, quando chegastes me beijastes as maos como a vosso Rei, agora que sou vosso irmão não tendes que usar da mesma cerimonia”.    

Não é errôneo dizer que a Misericórdia do Brasil, como as de todo o mundo, foram instituídas por inspiração e empenho direto da Ordem religiosa fundada por São João da Mata e por São Félix de Valois e regida pelas regras confirmadas em Dezembro de 1198 por Inocêncio III, último pontífice da centúria. A relação da Santa Casa da Bahia com as obras trinitárias destes santos, se manifesta a partir das pesquisas realizadas durante a restauração do forro do Salão Nobre, começando do descobrimento da identidade da figura representada no painel de privilégio (quadro XIII) situado frente ao altar do Santo Cristo do Consistório, no Salão Nobre. O mui venerado Santo Cristo do Consistório, que até 30 de Junho de 1792 ocupava um modesto nicho com dois formosos castiçais fundidos em prata pelo ourives Joaquim Alberto Conceição de Matos, agora luzia em um altar que harmonizava ornatos Renascimento com Barrocos ricamente dourados (Doc. Sta. Casa de Misericórdia - 1792). Tanto os Trinitários Calçados, ou melhor, da Antiga Observância, como os Descalços, dirigiram seus objetivos no mesmo sentido.

A Ordem que tinha a casa matriz no mosteiro de Cerfroi, fundado pelos ditos Santos em Roma, se dividia em 23 províncias religiosas: 9 na França com 110 conventos; 6 na Espanha com 130 conventos; 3 na Itália com 45 conventos; 1 na Inglaterra com 20 conventos; 1 na Polônia com 18 conventos; 1 nos Reinos de Portugal, Astúrias e Rússia, com 11, 18 e 6 conventos respectivamente. A importância desta Ordem foi a propagação de seu culto por meio da predicação e da adoração do mistério da Santíssima Trindade e da Misericórdia, e o meio foi, já fundando ou estabelecendo a Ordem Terceira e as Confrarias. Constitui seu objetivo principal a prática das obras de misericórdia, especialmente à Hospitalidade e a redenção de cativos. Entre os muitos hospitais que fundaram os Trinitários merecem especial atenção os que a Ordem sustentou em Argel, Tunis e outros povos do N da África, onde se originava a escravidão. A missão atendia a “assistência espiritual e corporal dos escravos cristãos, para assistir aos doentes e para converter aos renegados e apóstatas, fortalecer na fé aos vacilantes com a administração dos Sacramentos e a predicação da palavra divina”. Entre seus santos se encontram muitos mártires que fizeram de seu objetivo peculiar, a prática das obras de Misericórdia. Com ele se encontravam seu reformador Padre Beato Juan Batista da Conceição, o Beato Juan Angélico Guilhermo da Escócia, o Beato Simão de Rojas (confessor da Rainha Isabel de Borbón esposa de Felipe IV) e o Padre-mestre Frei Miguel de Contreiras inspirador dos Hospitais de Misericórdia, de Portugal e do Brasil. Também realizaram uma sublime obra de redenção de cativos, o Padre Trinitário Frei Juan Gil que entre muitos logrou redimir do cativeiro a Miguel de Cervantes Saavedra e entre os santos que pertenceram a Ordem Terceira (secular) se destacou São Luis, Rei da França.

A grande obra trinitária se estendeu até fins do s.XVIII. A atual Ordem dos Trinitários foi reformada e continuou ainda que com número muito reduzido, com as obras para a congregação, regeneração e reabilitação da juventude de um ou outro sexo, para instruir e educar os vadios e as jovens extraviadas, sinalando-lhes algum oficio para uma vida honrada. Suas constituições atuais foram aprovadas pela Santa Sede, no dia 11 de Abril de 1901 (Pablo Delandres, L’ordre des Trinitaires - Toulose-1903 e P. Antonio de la Assunção. Les origines de l’ordre de la Très Sainte Trinité, d’apriès les documents - Roma-1925). Um aspecto negativo desta Ordem foi a sua freqüente participação no Santo Tribunal da Inquisição, para a qual aportou teólogos, examinadores da Nunciatura e juizes de concurso dos Tribunais diocesanos.    

 

Em Bahia

   O primeiro hospital da Bahia data de 29 de Março de 1549, foi fundado por Thomé de Sousa, Provedor da Casa Real de Lisboa que, em 1º de Fevereiro de 1549, fora nomeado Governador Geral do Brasil. O nosocômio era conhecido vulgarmente pelo nome de Hospital da Cidade, porém, sua padroeira era Nossa Senhora das Candeias, sendo o seu símbolo o monograma da Sagrada Visitação de Maria, a Santa Isabel. “já em 1592 eram orgulhos da Bahia três conventos e um colégio fora uma dezena de igrejas e o Hospital da Misericórdia, a Sé e seu cabido (...) não era mais a entanguida povoação do terceiro governador-geral (...) tinham casas nobres e altas” (Calmon, pág. 418). O acesso ao Hospital se realizava pela antiga ladeira da Misericórdia, a mesma na qual começavam a proliferar os estabelecimentos dos coureiros e artesões das solas com que se tapizavam as cadeiras. Na foto 008 o Salão Nobre (flecha) é visto desde a ladeira da Misericórdia, na parte baixa se vêem algumas oficinas nas encostas durante a colônia. Mais adiante o estabelecimento hospitalar passaria a chamar-se Hospital São Cristóvão, nome dado em 1682, sendo Provedor Bernardo Vieira Ravasco, Secretário de Estado do Brasil, que era irmão do P. Antonio Vieira. Na foto 009 se vê uma casa pequena das que se espalhavam pela beirada das ladeiras e na foto 010 e det. 011 um prédio onde existia um dos tantos armazéns. Depois o nosocômio passaria a chamar-se Santa Izabel, quando se construiu o novo edifício nos terrenos de Nazaré, comprados de Antonio Alves de Carvalho, em Maio de 1828. Na época, era provedor Manuel Ignácio da Cunha e Menezes sendo que “foi collocada a sua primeira pedra em 1828, sendo embutida uma medalha de ouro de três pollegadas de diametro com a seguinte inscripção comemorativa do fato - Pedro 1º Imperante, Bahienses Provinciæ, Præside Jos, Egid. Gord. de Barbs, Pietatiquo Domus Provision Eman, Ignat, da Cunha e Meneses; Hujus Plochodochu Lapis Hic Primus Fuit Iocatus, Ibid. Jun. Anno Cristi 1828, Brasiliæ Regeneration et Império Septimo (Doc. Sta. Casa de Mis.-1913). Ao Hospital cabia com escassos meios, enfrentar todas as infecções e calamidades da insalubridade. A inauguração, em 30 de Julho de 1893, se deveu ao Provedor Commendador Manoel de Souza Campos, que havia sido reeleito dez vezes. No relatório de 1892-1894, o próprio comendador diz: “a 30 de Julho de 1893, no meio de geral contentamento de nossos Irmãos, das Autoridades principaes do Estado, o Exm. Governador, o Exm. Vigario Capitular Bispo de Olinda, o Exm. Dr. Chefe de Polícia, commandante do 3º districto militar, o Intendente e o Concelho Municipal, os Consules de todas as nações e grande numero de pessoas de todas as classes. Nas poucas palavras que então dirigi, no caracter de Provedor, rememorei os acontecimentos a que estou me referindo; e declarei em nome da Mesa e Junta que o Hospital denominar-se-hia Hospital Santa Izabel, em homenagem à padroeira desta nossa humanitária e pia Instituição” (Foi este o primeiro Hospital e único existente no Brasil durante a conquista e com o qual a memória histórica está em débito, já que nos documentos antigos, é simplesmente mencionado como “o hospital”).

Em 1549, quando o Hospital da Misericórdia de Salvador se fundou, seu primeiro provedor foi o fidalgo Diogo Muniz Barreto, que por sua vez havia chegado com Tomé de Souza, como Provedor-Mor. Como todos os edifícios pioneiros, os muros da casa eram de taipa. Isso se infere de um fato casual: o falecimento do marinheiro Estevão Fernández da Távora, que antes de expirar no Hospital fez um testamento a favor de Muniz Barreto. Ao fidalgo se pagou em mercadorias, a quantia de mil e oitocentos reis, que era o salário do defunto, dos meses de Junho e Julho (novecentos reis por mês). O documento diz: “lego a ele o salário que tinha a receber e não podia gastar, pois se achava recolhido doente ao Hospital improvisado numa casa de Taipa” (Carta de Nóbrega ao Prof. de Portugal P. Simão Rodrigues - 6/1/1550).  No clima do recôncavo, extremamente suscetível a desagregação pelo alto índice de salinidade do ar, as construções mais precárias não resistiram e não passou muito tempo para que alguns de seus muros tivessem que ser reconstruídos de pedra e cal. Um relato da época consigna sem Maiores precisões que, durante a primeira fase construtiva, um forte vento derrubou um de seus muros. Na época da ocupação pelos holandeses, em 1624, o fogo dos atacantes destruiu um dos seus muros, produzindo a morte de dois cirurgiões que se encontravam trabalhando. Posteriormente, a casa foi ocupada e utilizada como “hospital de sangue” (Hosp. Ambulante Provisório para atender os feridos de guerra). Junto a lateral do nosocômio, separada por uma viela estreita chamada do Bispo. Na realidade, o palácio arquiepiscopal (nova casa do Bispo), ainda não existia, só foi fundado em 1711-1720, em terrenos comprados pelo Rei, nos melhores espaços do lugar, com o custo de oitenta mil réis. Ou seja, que o Bispo Pero Fernandez Sardinha ainda residia na casa contígua a Igreja da Ajuda, desse modo o termo “Rua do Bispo” correspondia a todo o entorno da Sé.  No frontispício da catedral que mirava o mar, existia uma ampla plataforma de dois planos escalonados, sustentados por um muro de contenção de pedra e uma base consolidada que era prolongação do adro da igreja. Esta circunstância, somada a posição excepcional de encontrar-se em posição estratégica para a defesa, obrou para que fosse precisamente ali, onde em cinco dias o Capitão Paulo Cardoso de Vargas decidira instalar uma bateria de artilharia. Ou seja, que as bombardas apontassem de forma direta ao ancoradouro das naus. Segundo o cronista Gabriel Soares, em seu Roteiro do Brasil (1584), a Sé estava “situada com o rosto sobre o mar da Bahia, defronte ao ancoradouro das naus, com um tabuleiro defronte da porta principal, bem a pique sobre o desembarcadouro, onde tem grande vista. A igreja é de três naves, altas e bem assombrada, a qual tem cinco capelas muito bem feitas e ornamentadas, e dois altares nas ombreiras da capela-mor. Esta Sé, está em redondo cercada de terreiro, mas não está acabada a torre dos signos e a do relógio” (Calmon, pág.241).        

O Capitam Gabriel Soares de Souza reporta em Roteiro (1587), que “de uma formosa rua de mercadores [que vai desde a Praça] até a Sé, no cabo da qual, da banda do mar, está situada a casa da misericórdia e hospital, cuja igreja já não é grande, mas mui bem acabada e ornamentada”.

No começo, o Hospital enfrentou sérios inconvenientes para manter-se com os escassos recursos com que contava. Somente em 1587, quando nos arredores a instituição começou a organizar seus engenhos açucareiros e, o Provedor Cristóvão Cardoso de Barros se empenhou em percorrer as plantações vizinhas, visitando aos colonos mais progressistas do Recôncavo, as coisas começaram a melhorar. Essa atividade pessoal dos Irmãos não somente deu solvência ao Hospital, mas a Casa adquiriu a confiança que precisava para conseguir o apoio e a captação de recursos provenientes de legados, heranças e doações. Um dos primeiros benfeitores foi o irmão Pedro Viegas Giraldes que em 1637, deixara para a Irmandade legatária “uma fazenda de gado em Pitinga, com setenta cabeças de gado e sessenta carneiros”. A doação obrigava a celebrar, na Misericórdia, duas missas semanais (Arq. Santa Casa - Igrejas e Recolhimentos).

Já em 1658, o privilégio outorgado pelo Rei à Santa Casa foi desrespeitado pelo Bispo de Salvador, Constantino Barradas, que enviou ao Visitador Archidiago Reverendo Francisco da Silva para observar e procurar testemunhas a respeito da situação dos novos altares da Igreja da Santa Casa.  Estes não haviam sido autorizados pelo Arcebispo, pelo fato da Casa não ter solicitado tal licença. Isto valeu a publicação de excomunhão para os Padres que celebrassem Missa em seus altares, tanto da igreja central como nos da Capela do Hospital (Acórdãos 1645-1674 - Santa Casa). Outro documento de 30 de Junho de 1733 dá conta do acatamento da Santa Casa ao Cerimonial Romano, que era rigorosamente preservado pelas Ordenanças do Concilium de Trento (Arq. Sta. Casa de Misericórdia - 1733). O grande congresso ecumênico havia sido inaugurado em 1562, na festa da Cátedra de São Pedro, pelo secretário Cardeal Borromeo. E dizer que em 1733, seus ditames estavam exercendo sua Maior pressão, especialmente em Portugal, já que ao contrário dos soberanos dos outros países que se haviam manifestado reticentes, seu rei Sebastião de Portugal havia feito questão de enviar todos os seus bispos ao Concilium. Mais também, foi o único que o fez desde o começo até o fechamento em 1564.   O edito tem haver com as normas litúrgicas tradicionais, nele se decide mudar a cor do pano do altar, que devendo ser branco, o insolitamente usado até o momento era preto, cor inexistente na liturgia missal não funerária.  

Não é difícil compreender, pelo tanto, o fato da nomenclatura do Hospital, que em princípio era de Nossa Senhora das Candeias, logo São Cristóvão e agora se trocara para o de Santa Isabel, decisão essa que tem tudo a ver com o sermão do Padre Vieira, proferido desde o púlpito da “capela” do Hospital, com o título “Visitacam de N.S.a Santa Isabel, na Misericórdia da Bahia, ano 1638” sendo que também estava relacionado com sua antiga devoção : a Sagrada Visitação. O nome de Santa Isabel era dado em Portugal a esta Santa por ser a “Padroeira da Ordem” (P.Vieira). Mas, não foi só o nome do Hospital o que sofreu a mudança, a partir da presença do P. Vieira na Santa Casa, a própria designação popular da capela se cambiou para a “oficial” de Igreja. O sermão ressalta os valores da Irmandade ante a dominação holandesa, mas, em especial destaca repetidas vezes a missão da entidade para com os “pobres” e os “doentes” (foto 012). Nos quatrocentos anos de vida, a Misericórdia sofreu entre os câmbios nomenclatórios, alguns vinculados a Portugal, no entanto, o mais notável foi o recentemente descoberto no artesoado do forro do Salão Nobre, mais precisamente no painel preferencial, o que se encontra sobre o altar do “Santo Cristo do Consistório”. Por desconhecimento, nesta pintura, os historiadores ignorando a cruz de Malta da Ordem do Santo Trinitário representado, creram ver a cena de “Cristo na Transfiguração”. Na realidade, a única representação pictórica de Cristo no antigo Consistório era a que ocupava o artesão central que obedece a cena bíblica da Misericórdia (Lucas, cap. 6), título que, durante a restauração, apareceu no filactério que havia sido recoberto pelas sucessivas capas de pintura aplicadas no decorrer de trezentos anos. O fato é que a figura defronte ao altar representa a São João da Mata, criador da Ordem dos Trinitários a qual pertencia o fundador das Misericórdias, Frei Miguel Contreiras. Esta Ordem nunca havia ingressado como tal no Brasil, ou pelo menos seu nome não aparece nos documentos. É interessante ressaltar que também, trás a restauração, apareceu na parte superior direita à visão do Santo que vislumbrou uma figura celestial representando um anjo com hábito trinitário, segurando com seus braços em cruz dois escravos, um branco e outro negro. É difícil compreender por que se realizou esta repintura aberrante e por que se guardou sigilo sobre muito desses fatos. Na realidade, em determinado momento existiu uma nítida preponderância por parte da Companhia de Jesus, que chegava fortemente apoiada pelo Papa e as Coroas. Desta maneira, a atuação de outras congregações e, em especial, a dos franciscanos, que haviam chegado a estas terras com Cabral, sendo parceiros durante a Conquista. Perderam pouco a pouco a supremacia para os jesuítas, a ponto de passar para a burguesia a diferença entre um frade e um monge. Deve-se considerar que durante a Conquista os expedicionários em geral, e em especial, os embarcados mais hierarquizados, que participavam dos eventuais sigilos, estavam submetidos a normas meridianamente estabelecidas. No caso dos clérigos, se encontravam sujeitos a regras monásticas próprias de um monacato cristão que, inspirado na vida de Jesus Cristo, pregava austeridade e ascetismo e, ao contrário do praticado posteriormente, era baseado no afeto mais que na obediência ao material.  Pelo tanto os monges, que sem ser anacoretas, pelas circunstâncias eram obrigados a trabalhar conventualmente, não eram nem podiam ser confundidos com os frades em geral. Com intenção ou não, a palavra frade foi pouco freqüente. Por exemplo, foram pouco mencionadas no Guayrá as duas primeiras Missões, que eram franciscanas, e também pouco se divulgou sobre a resistência dos franciscanos contra a invasão holandesa em Pernambuco, mais especialmente, em Igarassú, onde a Igreja Franciscana, matriz de São Cosme e São Damião e a de Santo Antônio (consideradas as primeiras no Brasil) foram saqueadas. Todos os monges foram massacrados ou presos, sem tomar conhecimento de que o Convento Santo Antônio era, na realidade, um robusto forte. A inscrição deixada na primeira das três tábuas pintadas em 1729, que lembram o fato, diz: “O primeiro de maio de 1632 pelas horas da manhã entrando os holandeses na vila, saquearam a matriz, cujo coadjuntor, ainda revestido das vestes sagradas com que acabava de celebrar, prenderam-lo, bem como os religiosos de São Francisco” (Museu da Igreja de Santo Antônio). Dessas quatro tábuas projetadas, a última não chegou a ser pintada, porque em fins de 1729 o vilarejo foi vitimado pelo“cólera morbus”. Geralmente os primeiros conventos do Brasil eram fortificados. Raramente, na correspondência da Companhia se faz referência aos Frades de outras Ordens, uma exceção se observa na carta do P. Ambrósio Pires aos Padres e Irmãos de Coimbra. Na carta datada em Porto Seguro, a 5 de Maio de 1554, o Padre relata a situação de “quatro o cinquo poblaciones al rededor, de una legua, dos, y tres. Una está más lexos, que es adonde Blas Tellez tiene una hazienda de açúcar, que está siete leguas. A esta no tengo yo ydo más que una sola vez, y estuve en ella algunos días, porque tiene aquel muy temeroso y rápido río en que se ahogó aquel bendito fraile chapuchino, que acá dexó muy buena fama.” O Rio adotou o nome de “Rio do Frade”, está ao S da Ajuda o que situa para esse lado o Engenho de Brás Telles. O frade capuchino é um dos dois padres de Santo Antonio de que já falava o Padre Nóbrega, numa carta dirigida desde Bahia, ao P. Simão Rodrigues, em 9 de Agosto de 1549 (Prim. Cartas dos Jesuítas no Brasil) e outra enviada ao mesmo Padre, desde Porto Seguro, em 1550, nas quais não se mencionam nomes. A primeira delas diz: “os gentiles são de diversas castas, unas se lhaman Goyanazes [Goianases], outros Carijós. Este es um gentio mejor que hay em esta costa, a los quales no a muchos años dos frayles castelhanos [Bernardo de Armenta e Alfonso de Leblon, ambos franciscanos] a los enseñar y tambien tomaram su doctrina, que temían ya casas de recogimiento para mujeres como monjas, y outra de hombres, como de frailes. Y esto duró mucho tiempo, hasta que el demonio llevó allá uma nao de salteadores, y captivaran muitos dellos. Trabajamos por recojer los salteados y algunos tenemos ya para los llevar a su tierra, com los quales yrá  um Padre de los nuestros “. Na carta de 1549 se lê: “Sono arrivati qua due Padri di Santo Antonio li quali stettero alcuni mesi in questo Porto Sicuro, et hanno lassato molto buono essempio di se et gran nome per le sue virtù, et erano italiani”.   

Destes dois frades franciscanos que estiveram catequizando os povos Carijós e Goianases também fala Nóbrega, na Informação das Terras do Brasil, §2, onde também seriam ignorados os nomes deles (Adulfo Van der Vat, em Princípios da Igreja no Brasil), se refere a Frei Jorge e Frei Diogo (frades desterrados) como sendo os ditos capuchinos da Ordem de São Francisco, aos quais fazem referência o Ir. Simão Rodrigues e o P. Nóbrega (Hist. da Colon. Port. no Brasil - Volume III - 271-283).  O importante é que sendo uma irmandade laica, a Santa Casa de Misericórdia era taxativamente respeitosa com as diretrizes da Coroa e sempre se manteve a margem das questões eclesiais, o que não deixou de causar-lhe alguns atritos.  

Nem bem despontava a Colônia deixando atrás a primeira época da conquista, na Santa Casa foram sepultadas pessoas eminentes da sociedade. Sabe-se, porém, que todos os enterramentos que tinham lugar no seu claustro eram privativos dos confrades, sendo que poucas vezes foram inumadas outras personalidades benfeitoras.  

O Capitão Simão da Gama de Andrade, por exemplo, o mesmo que desde sua nave São João Batista, comandava a segunda esquadra enviada ao Brasil por D. João III, jaz na Santa Casa. Segundo o historiador Arnold Wildberger: “Simão da Gama ao deixar a vida do mar estabeleceu-se na Bahia, onde foi ‘grande repúblico’; consta ter dito ele grande parte no estabelecimento da Casa da Santa Misericórdia da Bahia e por testamento reservou trezentos cruzados para despesa do seu sepultamento pedindo que fosse nela enterrado; de fato, tendo morrido de herpes, que lhe deram em uma perna, ali está o seu corpo e no túmulo encontra-se gravado o seguinte epitáfio:

Pela suma charidade

de Christo Crucificado

está aqui sepultado

SIMÃO DA GAMA D’ANDRADE” 

(Wildberger - Inst. Geog. e Hist. da Bahia - 20 de Janeiro de 1965). 

            É importante lembrar que Simão da Gama foi doador dos terrenos onde já havia sido levantado o primitivo “hospital da cidade”, que futuramente seria da Misericórdia. No obstante isso os mesários da Santa Casa não demonstraram ser muito agradecidos ao Capitão e, em 1652, por iniciativa do Irmão Jorge Araujo de Goes e Gonçalo Pinto de Freytas (ex-escrivão da alfândega e na época da Santa Casa), as missas dedicadas e pagas pelo próprio Gama de Andrade antes de morrer, foram retiradas do calendário da Irmandade. “Segundo achey por informação - diz Pinto de Freytas -, Simão da Gama [de Andrade] os chaons em que se fes esta Santa Caza e as Cazas que possue ao redor della mas não consta que fosse com obrigação alguma e que em seu testamento segundo a lembrança de quem o vio em que deixou sua terça [parte]  a esta Santa Caza não herdou ella mais que trezentos mil reis que se não sabe em que se empregarão e ia se duvidou se havia bens bastantes para se lhe dizerem as sinco missas que se lhe dizem cada semana e se achou que os não havia, mas para mais segurança se lhe continuou com a dita obrigação como se faz e se tomou huma logea para render para isso. Esta informação me deu o Irmão Jorge de  Araujo de Goes. De maneira que as cazas que estão nos chaons que deixou Simão da Gama fizerão os Irmãos desta Santa Caza e os bens que a ella deixou Maria Rodriguez molher que foy de Garcia da Villa e com dinheiro da Santa Caza e não tem nenhuma Capella de obrigação os quaes são os seguintes. Gonçalo Pinto de Freytas Escrivão da Alfândega que hora sou da Santa Caza e asigney”.  (Arq. da Sta. Casa de Misericórdia do Salvador).

         Em 7 de Janeiro de 1550, Simão da Gama havia partido capitaneando a segunda esquadra enviada pelo “El-Rey” ao Brasil, chegando a destino no mês de Março. Na nave capitânia São João Batista (navio conhecido como “Galeão Velho”) chegaram com ele os jesuítas Manuel de Paiva, Francisco Pires, Afonso Brás, Salvador Rodrigues e vários meninos órfãos. Nesse começo de ano, o P. Nóbrega começava a grande tarefa de fundar o Colégio da Companhia de Jesus, ampliando os limites da cidade. Estes padres recém-chegados foram seus principais colaboradores. Ao P. Francisco Pires, Nóbrega o recorda como sendo “bom operário da primeira hora”... “que faz toda obras de carpinteiro com mais perícia que qualquer outro oficial da terra”... “trabalha mais que dois oficiais” (Leite, T.II, pág.589). Afonso Brás considerado o “primeiro arquiteto do Brasil” trabalhou na Bahia, na capitania de Espírito Santo construiu o colégio dos Jesuítas e em 1553 foi chamado pelo P. Nóbrega para acompanhá-lo, já que se preparava “para entrar no sertão”. Posteriormente desistiu da empresa e colocou ao P. Afonso Brás para construir os primeiros edifícios de taipas de pilão em São Paulo de Piratininga, onde, em 1556, construiu o Colégio dos Jesuítas (hoje Pátio do Colégio). Ainda sendo idoso, trabalhou em São Vicente e Rio de Janeiro (1572). Após a expulsão dos Jesuítas do Brasil, o prédio construído por P. Brás, foi apropriado pelo governo e, depois de descaracterizado por profundas modificações, foi transformado em Palácio dos Governadores que funcionou entre 1765 e 1908. Durante essa época, a Igreja perde o precioso patrimônio por desabamentos gerados nessas reformas. Entre 1932 e 1953 o palácio do Governo passava a ser a Secretária de Educação. Por último, em 1959, o prédio é restituído a Companhia de Jesus, a qual se dedica a sua reconstrução segundo os planos originais. Na atualidade da edificação original só resta um muro de Taipa de Pilão de aprox. 40m com suas características intactas. É um dos pouquíssimos testemunhos da Arquitetura seiscentista de Afonso Brás, neste caso, executada no vilarejo de Piratininga fundado em 1554, sendo que o Pátio do Colégio foi erguido em 1556 (fotos 013 e 014).  Na foto 015 se observa um pequeno nicho. O processo consistiu na mistura de terra molhada, areia, palha, estrume, fibras vegetais e, em certos rebocos, se agregou sangue de boi. Na atualidade a relíquia é severamente conservada e protegida por grossos vitrais.

 

IV - A escravatura

 

Sem fazer mérito a respeito da escravidão das épocas mais antigas, quando Diana, deusa da noite e da lua, dava proteção aos escravos fugitivos, se podem sinalar dois momentos dela: a escravidão entre os mulçumanos e a que reaparece no s.XV que não é outra coisa que a “trata de negros” pelos europeus. No primeiro caso, o comércio de humanos germinado na Turquia, tinha como vítimas habitantes das costas do mediterrâneo que não fossem mulçumanos, e em especial, idólatras e gentis. Geralmente, os escravizados eram brancos, mas também os havia negros. A principal fonte da escravatura dos brancos era a guerra, sobretudo, na época das cruzadas, no entanto, era grande o número de piratas que atuava nas costas do Norte da África. Os mais importantes centros da pirataria de escravos se localizavam em Marrocos, Argel, Tunis e Trípoli. Apesar do Alcorão proibir a escravatura, o desígnio tinha valor somente para os mulçumanos, já que se admitia a dos sectários opostos a Maomé. O livro sagrado preconizava o perdão das faltas dos cativos e a manumissão destes. A conversão ao islamismo era o motivo da liberação. No entanto, a espaldas do Alcorão, a pirataria e o despotismo primavam. Ainda que, nessa época, sem obter resultados contundentes tocou a Espanha fazer uma dura guerra ao tráfico. Obra mais importante neste sentido, a realizou a igreja, mais pontualmente algumas Ordens religiosas. Entre elas, se destacaram a das Mercês e a dos Trinitários, ambas dedicadas principalmente à redenção de cativos. Em 1624, estas organizações fundaram uma missão religiosa permanente, dedicada a “manter na fé aos escravos europeus, cuidar em suas enfermidades aos cativos brancos e negros e resgata-los”. A Ordem Nossa Senhora das Mercês foi fundada em 1218, em Barcelona, por São Pedro Nolasco, São Raimundo Penhafort e o Rei Jaime I (O Conquistador) para “resgatar os cativos cristãos de mãos dos mouros”. Foi aprovada pelo Papa Gregório IX em 1235, e conservou seu caráter militar até 1317, quando adotou a Régia de Santo Agostinho. Este santo sábio foi, entre os católicos, o mais incisivo defensor dos escravos. A majestosa obra redentora da época, fez que Voltaire entrasse na questão, chamando “Heróis”, aqueles monges que dedicaram a vida a essa missão. Em 1725, Benedicto XIII declarou mendicantes aos missioneiros das Mercês e, em 1492, Cristóvão Colombo chegava a América trazendo entre os missioneiros vários clérigos mercedários que, posteriormente, participaram ativamente na conversão dos índios. Para esse então, a Ordem já se havia estendido por toda Europa.

Nos artesões do Salão Nobre da Santa Casa, entre os santos criadores de Ordens e redentores de escravos pintados por Antonio Simões Ribeiro, se encontra uma celebre cena que destaca a São Pedro Nolasco resgatando três clérigos de sua Ordem. Estes haviam sido saqueados e feitos cativos, quando tratavam, por meio da compra, obter o resgate de outros escravizados. Também figura no salão nobre Santo Agostino praticando suas ressurreições.

A escravidão no Brasil se generalizou desde o começo da conquista, primeiro com o cativeiro dos índios, e logo com a queima de suas aldeias. Buscava-se qualquer pretexto para caçá-los em seus territórios ou produzir tensões que geraram duvidosas “guerras justas”, esta última solução conduzia a uma situação legal que deixava tranqüila a consciência dos grandes fazendeiros, dos governantes e até da Igreja. Depois de tudo, os que deixavam a Europa, não vinham a trabalhar na terra nem realizar trabalhos fadigosos e, é precisamente disso que a amplitude sem limites do território, exigia para levar adiante a multiplicação de canaviais, feitorias, fazendas de gado, exploração da madeira, etc. Por outro lado, quase todos os jesuítas, que bem se valeram dos escravos nas suas lavouras, ficavam bem calados. Pode-se citar como exceção o Padre Antônio Vieira que, 220 anos depois da morte de Santo Agostinho, menciona seus conceitos ao dirigir-se aos “Pretos”, dizendo: vos os Pretos que tão humilde figura fáceis no mundo, e na estimação dos homens; por vosso próprio nome, e por vossa própria nação, estais escritos e matriculados nos livros de Deus, e nas sagradas escrituras: não com menos título, nem com menos foro, que de Filhos da Mãe do mesmo Deus: Et populus Aethiopium illic” (Sermão XIV). Também se refere Vieira, a Santo Tomás de Villanova que reconheceu aos “Etíopes e os Pretos”: “O profeta pôs no último lugar os Etíopes e os Pretos; porque este é o lugar que lhes dá o mundo, e a baixa estimação com que são tratados dos outros homens, filhos de Adão como eles. Porém a Virgem Senhora, sendo Mãe do Altíssimo, não os despreza, nem se despreza de os ter por filhos; antes porque é Mãe do Altíssimo, por isso mesmo se preza de ser também sua Mãe”. Como não podia ser diferente, Santo Tomás de Villanova está presente no magnífico forro do Salão Nobre pintado por Simões Ribeiro. Vieira, nomeado predicador real por D. João VI, sendo jovem havia chegado ao Brasil, logo ao retornar a Lisboa, com 32 anos (1640), sofreu a forte perseguição do Santo Ofício e teve que fugir para Roma, onde foi protegido pela Rainha Cristina da Suécia. Pouco depois, em 1654, a soberana abdicou ao trono e, abraçando o catolicismo, fundou a Academia de Árcades, em Roma (importante escola dedicada à poesia e as boas letras, coisa que agradava a Vieira). 

No Brasil a primeira manifestação régia defendendo os índios, se verificou em 1549, depois do regime feudal das donatarias. O Regimento que trouxe Tomé de Sousa, que passou a ser a verdadeira carta magna do país, tendia a unificação territorial, mediante uma colonização paulatina. A data do documento erigido por D. Sebastião, Rei de Portugal, em 17 de Novembro de 1548, começa dizendo “o serviço de Deus e exaltamento de nossa fé. O serviço meu é proveito dos meus reinos e senhorios. O enobrecimento das capitanias e povoações das terras do Brasil é proveito dos naturais delas” (Os portugueses no Brasil até ao Governo Geral - 1548).

No país não existiu o sistema pérfido das mitas, adotadas pelos espanhóis no vice-reinado do Peru, sistema que teve origem nos turnos mineiros de trabalho, inventados pelos Incas para os afazeres dos ayllus. Lá, durante a colônia, as mitas se transformaram em verdadeiros pesadelos, não somente no âmbito da exploração escrava nos minérios que os retrotraia à Idade do Bronze, mas também no da construção de caminhos e edificação. Para isso, tiveram que ampliar a duração dos turnos, obrigando a utilizar até o esgotamento o esforço indígena. Mal alimentados e extenuados, os trabalhadores da mita morreram em grande número. As encomendas representavam outro modo abusivo disposto pelos conquistadores espanhóis para caçar aos índios. Se bem no Brasil, legalmente não existiram as encomendas propriamente ditas, era essa uma das ocupações flagrantes dos Bandeirantes. Prova disso, são as cartas deixadas pelos jesuítas do Guayrá (Carta do P. Nóbrega ao P. Simão Rodrigues - 10/3/1553 e Arq. da Sta. Casa 5/11/1644). Os próprios Jesuítas reconheciam a imprescindibilidade do trabalho escravo para tornar possível a massificação da catequese em todo o território. Na carta de 10 de Julho de 1552, dirigida ao P. Simão Rodrigues, o próprio P. Nóbrega comenta sobre a solicitude ao Rei, de “escravos” e “vacas” para o Colégio dos Meninos. No entanto, a Maior necessidade nesse sentido se gerava nas lavouras da Ordem, para essa finalidade, os escravos em grupos, ocupavam a senzala do Convento de São Joaquim, na Água de Meninos que mais que senzala era um verdadeiro ergástulo. Também, em 10 de Julho de 1552, o Padre solicitava “esmola de ferro e escravos” que supostamente seriam vendidos para o sustento dos meninos. Outro comentário de Nóbrega, com respeito ao tema, que resultou em interpretações desencontradas, se acha num escrito de Nóbrega, de 1558 (Arq. da Prov. Portuguesa), em que se lê: “A melhor dádiva que o El-Rei poderia fazer ao Colégio, era duas dúzias deles [escravos da Guiné], tanto homens como mulheres”, e na Hist.Col.Port do Brasil, Carlos Malheiro Dias diz que: “O Padre Nóbrega fizera marcar alguns índios”. O escrito por Nóbrega, diz textualmente: “Desta vestiaria fiz marcar outros escravos da terra” (Nóbrega, Cartas Jesuíticas. Acad. Brasileira. Col. Afrânio Peixoto – pág.138-139). Serafim Leite, no T. II - pág.348, defende, assegurando que a palavra deve-se ler mercar, a vez o autor da História da Companhia de Jesus no Brasil, agrega que “em toda a vasta documentação que possuímos, só uma vez achamos que se marcase um escravo”. Comunicado do P. Antônio de Sá, confidencialmente ao P. Geral contra o P. Pero Leitão. E acrescenta que ele o praticara “não com pequeno escândalo de todo o colégio” (Lusitania, archivum Societatis Jesu Romanum, pág.72-54). “Este escândalo ou reprovação geral ressaltava, por si só, aquele fato lamentável e isolado”. Se no Brasil a escravidão dos índios não chegou a ser tão espinhosa quanto o era o cativeiro dos africanos, não foi pela bondade dos senhores proprietários, e sim, pela própria idiossincrasia do aborígene que se mostrava indolente, adaptando-se com maior dificuldade ao trabalho. Como máquina, os negros rendiam muito mais, calculando-se a proporção de 4 a 1, e além disso aceitavam com docilidade e até com mais naturalidade, o fato de serem alugados (Doc. Ata de 20 de Novembro de 1646, Arq. Municipal).

Não existem dúvidas que os antigos povos africanos confinantes com a Nigrícia (atual Sudão), possuíam escravos negros, mais o tráfico destes, somente foi organizado e praticado pelos europeus, a partir do s. XV. Em 1434, o navegante português, Afonso Gonçalves explorava as costas da África, acompanhando ao notável marino Gil Eanes, navegante subvencionado pelo infante D. Henrique de Portugal (O navegante). Deste modo, Afonso Gonçalves havia chegado a Guiné, cinqüenta e oito anos antes do descobrimento da América. Gil Eanes que, em 1433, havia dobrado pela primeira vez o temido Cabo Bojador, chegando a Angra dos Ruivos e depois a Guiné, nas suas viagens posteriores teve a companhia de Afonso Gonçalves quem aproveitando a oportunidade, fez muitos cativos que mais adiante vendeu como escravos. Posteriormente, os portugueses continuaram praticando este tipo de pirataria, cujo fruto vendiam em Lisboa e, principalmente, em Servilla (Espanha), dando início assim, ao nefasto comércio que com desprezível ironia foi chamado “ébano negro”. Entretanto, antes da conquista da América, o tráfico não atingiu as dimensões que adquiriu a partir da colonização. No México, os espanhóis encontraram a escravidão já estabelecida entre a cultura dos índios, mas só como conseqüência de guerras tribais, condenas criminais, dívidas e venda voluntária. Em todos os casos, o escravo não perdia o direito de família e de propriedade. Ademais, a Maior parte dos prisioneiros de guerra, eram oferecidos nos sacrifícios humanos, que se praticavam nos templos. No Peru a escravidão como hoje é entendida, era desconhecida. Talvez, o único religioso que levantou a voz contra o vil comércio de escravos, revelando-se contra seus próprios confrades, ao denunciar-los como instigadores da “escravidão negra” nas Antilhas, foi o dominicano Frei Bartolomeu de las Casas. Este missioneiro, conhecido como “apostolo dos índios”, exerceu o Bispado em Chiapas (México). Seu pai havia chegado com Colombo à América e no regresso a Servilla lhe trouxe um índio para que lhe servisse de pajé. A raiz disso estudou Cânones em sua cidade natal e em 1502 embarcou para São Domingos. Em 1515, voltou a Espanha, onde se dedicou integralmente a defesa dos indígenas. De regresso ao México, passando por Santo Domingo e Guatemala, se lançou contra os terríveis escravocratas Ginés de Sepúlveda, Bartolomeu Frias Albornoz, Fernandez de Oviedo e muitos outros. Em 1519, apresentou queixas contra eles, frente ao Imperador Carlos V, quem, depois de consultar o assunto com teólogos importantes em Valladolid, acedeu a firma das leis de 1553, que foram consideradas as primeiras em defesa de seus protegidos. Durante sua larga contenda granjearam-se muitos inimigos, sobretudo depois de sua publicação Brevíssima relação da destruição das Índias.  

Na África, depois de capturados os negros com suas mulheres e filhos, comprados com freqüência aos maridos e os pais por um fuzil ou um barril de rum, eram conduzidos unidos de quatro ou acorrentados, desde o interior do país até o lugar de venda. Obrigados a transportar suas provisões e a andar grandes distâncias, muitos deles morriam no próprio percurso. Encerrados enquanto se esperava o momento de vendê-los, o capitão do navio ou o chefe da expedição encarregado do negócio, comprava os escravos com dinheiro ou a troca de mercadorias, freqüentemente, berloques, tabaco, rum aguardente, fuzis e telas de cores.

É de consenso geral que no Brasil, os primeiros escravos negros foram trazidos em 1538, ou melhor, que nesse ano já existiam (Pedro Calmon. Espírito da Sociedade Colonial – 1935). Em principio os navios negreiros chegavam ao Brasil sem dissimular a sua condição. As características eram inconfundíveis, os barcos tinham uma arrumação nas suas bodegas que permitia que os negros, que permaneciam acorrentados de dois em dois por um pé e uma mão, ficassem amontoados de maneira a ocupar o menor espaço possível, devendo dormir de lado e dispostos em pisos superpostos, com altura de dois pés entre um e outro. Depois de castigados os traficantes, pelas leis internacionais, os mesmos navios foram camuflados e o comércio continuou em mãos de piratas e de especuladores. Os escravos se haviam cotizado e os preços, sobretudo das negras, havia aumentado consideravelmente. A bordo do navio, as condições haviam melhorado e, dificilmente, os cativos morriam na viagem. Davam-lhes duas vezes por dia batatas, feijão e meio litro de água. Se fazia bom tempo, lhes obrigavam a dançar sobre a ponte sem tirar-lhes as correntes, para desentorpecer seus membros, submetendo-se ao látego os que se negavam a fazê-lo. 

O fato de que no vice-reinado do Peru, se importaram menos negros africanos que em outros países, se deveu à adaptação menos conflitante dos índios ao trabalho organizado. Possivelmente isso se deva ao grau de domesticação dos povos dessa região acostumados a viver organizadamente e praticando a mineração que bem conheciam. No Rio de la Plata, os primeiros escravos reportados pela História, foram dois serventes que acompanhavam ao genovês León Pancaldo, que em viagem a Peru foi surpreendido por um temporal, no Cabo de Hornos, que lhe fez perder várias de suas naves, obrigando-o a retornar até o Riachuelo com sua última embarcação. Esta nave terminou afundando em frente a Buenos Aires, que acabava de ser fundada por Pedro de Mendoza. Pancaldo era um opulento comerciante que com sua frota, atraído pela riqueza do vice-reinado e contrário ao comércio escravista, realizava travessias desde Europa. Sua fortuna tinha sido construída a partir da viagem de circunavegação com Juan Sebastián Elcano, na nave Vitória. Havia sido um de seus mais experientes pilotos e os dos escravos que com ele trazia, faziam parte de seu grupo pessoal realizando tarefas domésticas.

Em 1780, as idéias abolicionistas começaram a comover a Inglaterra, precisamente a nação que, por outro lado, era a mais propensa à pirataria e ao corso. O conceito havia sido importado dos Estados Unidos onde teria sua origem nos grupos quaquerianos da metade do s.XVIII, mais precisamente a partir das pregações de John Woolman, que se empenhou em combater a escravidão, preocupando-se com a sorte dos índios e dos negros e atacando a escravatura desde seu incisivo Journal, diário que havia iniciado aos 36 anos e foi publicado até 1774. Sua eterna luta foi contra a trata e a escravatura. A raiz da iniciativa de Woolman, os quaquerianos, libertaram os seus escravos e prometeram não ter outros. Na época, o ministro anglicano Ramsai, também escreveu contra a escravidão dos negros, provocando a ação dos abolicionistas que rapidamente se difundiu pelos Estados Unidos e Europa. Nesse país americano ocorria a mais feroz luta contra a escravidão, e por sua vez era o que possuía a maior atividade escravista. Em 1775, se fundou na Filadélfia uma sociedade abolicionista que elegeu como seu presidente, a Benjamin Franklin quem, em 1790, propôs ao Congresso a abolição da escravatura. O movimento ficou entorpecido a raiz da supressão do comércio de escravos na África, mais ainda se recuperou com o compromisso de Missouri, em 1820, alcançando dimensões inquietantes dez anos depois. Alguns estados terminaram com a escravidão, no entanto, outros como Luisiana resistiram, por exemplo, na assembléia de 16 de Março de 1830, se aprovou uma lei que demandava “severas penas ao que direta ou indiretamente difundira as idéias abolicionistas”.  A crueldade foi tal, que prontamente a ação escravista foi vencida. Nesta gesta se destacam, entre outros muitos, os nomes de Guillermo Lloyd Garrison, Benjamin Lundy, Smith Brown, alguns dos que apoiaram a causa, foram difusores e mártires do humanitário movimento. Com respeito aos índios, no arquivo de Washington existe farta documentação que mostra a forma legal com que se despojava aos índios o seu território: fazia-se “assinar” aos caciques (com uma cruz) folhas de grandes dimensões em que estes transferiam seus bens territoriais (Doc’s vistos pelo autor). Desde então na Europa e nos Estados Unidos, se começaram a definir os termos jurídicos perdidos no tempo: abolição e ab-rogação, ambas palavras tinham o mesmo significado e expressavam uma mesma idéia. No entanto, em termo jurídico, a primeira abrangia um conceito geral de ampla extensão, referia-se aos usos, costumes, religiões, instituições, etc., enquanto que a ab-rogação se limitava as leis, deixando em alguns casos, inalterável o fundamento que a abolição anulava. A abolição era o fim e término da acusação, pela qual o acusador se liberava da continuação e o réu era eximido dos efeitos do processo criminal: “Finis accusationis, qua reus reorum numero eximitur, et aboletur accusationis memoria”. A “abolitio” significava a “anulação de um procedimento criminal, incoado ou próximo a incorpora-se sem que, por essa circunstância, se prejulgara que não existia o delito perseguido”. Somente se suspendia o tramite do processo e se anulavam as atuações praticadas, no entanto, podia reproduzisse novamente a acusação pelo mesmo fato criminoso. Ou seja, que só ficava em suspenso a ação penal.

Na contenda também entraram Comissionados do clero, como o Bispo de Londres Bielby Portews; escritores como P. Guillermo Thomás Francisco Raynal; estadistas como Guillermo Pitt (Filho) e Carlos Jacobo Fox, e corpos colegiados científicos como a célebre Academia de Cambridge. Esta nobre instituição se empenhou na luta, dando começo as primeiras sociedades abolicionistas, entre elas se encontrava a chamada Sociedade do Sofrimento, fundada pelos quaquerianos ingleses que, em 1773, pedia ao parlamento a “melhora da sorte dos escravos africanos”. Em Paris, Jaime Pedro Brissot político fundador da sociedade antiescravista Les Amis des Noirs, que havendo produzido a ira de Robespierre, por sua posição anárquica contra a Europa monárquica, lhe custou à cabeça, foi guilhotinado em Paris, em 31 de Outubro de 1793, depois de haver publicado seu livro Thèorie des lois criminelles (1781) e Sur les noirs de l’Amérique Septentrionale (1790). No entanto, o mais distinguido dos abolicionistas foi o inglês Guillermo Wilberce que, com vontade férrea, fez da abolição o único motivo de sua atividade e de sua vida. A questão voltou aos Estados Unidos onde a abolição se opôs a uma tenaz colisão de interesses, chegando-se a considerar a “escravidão dos negros como uma missão civilizadora”. Defendendo-a, o tenebroso João Calduwell Calhoun (Secretário de guerra), nos Estados do sul, como sendo “a mais segura base das instituições livres do mundo”. Estas arremetidas como o Compromisso de Missouri de 1820 e a lei de Fugitivos de 1850, momentaneamente fizeram temer pelo resultado final da luta contra a escravidão.     

Se bem o mérito principal da abolição deve-se a Inglaterra, para levá-la a cabo acudiu a cooperação dos Estados estrangeiros, na realidade, isto se deve a uma argúcia para debilitar algumas colônias com o fim de imiscuir-se nos seus assuntos. Por um artigo adicional do tratado de Paris, de 30 de Maio de 1814, a Inglaterra conseguiu que a França se comprometesse a unir seus esforços aos próprios para lograr a abolição, e a partir de 1815, não interveio em nenhum tratado no qual não se contemplasse clausulas contra a trata de negros. Daí que no Congresso de Viena, no tratado de 8 de Fevereiro de 1815, no Congresso de Aquisgrán de 1818 e no de Verona, em 1822, se declarou a abolição da escravatura nos Estados assinantes. Como ainda estas declarações gerais não obtiveram grande resultado na prática, a Inglaterra negociou tratados particulares com Portugal (1815-1817), Espanha (1814-1817-1822), Holanda, Suécia, Dinamarca, Rússia, Áustria, Prússia, Nápoles, Toscana, Sardenha, cidades asiáticas, Haiti, Texas, México, Colômbia, Nueva Granada, Venezuela, Equador, Uruguai, Buenos Aires, Chile, Peru e Bolívia. Desta maneira, em 1850, estavam em vigor 24 tratados entre Grã Bretanha e as potências civilizadas, para a supressão do comércio de escravos. Ainda por temer-se que o comércio continuasse na modalidade de pirataria, em dez destes tratados se estabeleceu o direito de inspeção de barcos e a constituição de tribunais mistos, em outros 12 se reconheceu o direito de visita, mas ainda, mantendo a jurisdição dos tribunais nacionais, e em dois (Estados Unidos e França), não se admitiu direito algum, mas se permitiu a obrigação recíproca de manter uma esquadra nas costas da África. O direito de visita, como o indica Thomas Barclay (Le droit de visite, le trafic des escraves et la Conférence Antiesclavagista de Bruxelle, em la Revue de Droit International et de Législation comparée, vol.22, pág.316), deu lugar a muitas controvérsias e também favoreceu a captura dos navios negreiros. No tratado com Portugal, em 1812, se estipulou o desmantelamento e venda dos navios condenados como “negreiros”, a liberdade dos escravos encontrados neles e a aplicação até da pena de morte aos traficantes. No entanto, a inobservância do tratado retardou por algum tempo a cessação da trata, como ocorreu com Portugal. Chegou-se a tal ponto que a Câmara inglesa votou um Bill, chamado Bill Aberdeen pelo qual foram autorizados os buques ingleses para capturar aos navios “negreiros” portugueses. Para ter uma idéia desta lei, deve-se estudar tanto as conseqüências, como as circunstancias em que foi estabelecida: ao terminar a guerra civil do Rio Grande do Sul, que já se estendia por uma década, e tranqüilizado o país, o governo do Brasil, se via no “dever” de combater a trata de negros que, desobedecendo a lei de 4 de Novembro de 1831 (que proibia este comércio iníquo), devido ao contrabando, ia em franco aumento. A Inglaterra embaraçou ainda mais as coisas quando humilhou o Brasil com a votação, no congresso, do célebre Bill. Segundo essa nova exigência, os negreiros e navios deviam ser aprisionados pela marinha real inglesa, ainda que estivesse em águas jurisdicionais do Brasil, devendo ficar sujeitos aos tribunais ingleses. Ante a execução desta lei, foi tal a violência praticada pelos cruzeiros estrangeiros nas costas do país, que terminou indignando ao país inteiro. Aproveitando a situação, os traficantes intensificaram de tal maneira, seu comércio, que o número de escravos triplicou entre os anos de 1846 e 1850. Neste caso, o ministro da justiça Eusébio Queiroz, propôs e as Câmaras aprovaram quase por unanimidade, disposições mais enérgicas e eficientes que as da lei de 1831, numa nova lei lançada em 4 de Setembro, que passou a ser chamada Eusébio de Queiroz. A firmeza do Imperador e a energia inesgotável de Queiroz acabaram com a resistência dos poderosos traficantes do Rio de Janeiro, chegando a por fim a pérfida importação.  

Em 24 de Agosto de 1839, os processos foram encarregados ao Tribunal do Almirantado. Somente entre 1837 e 1847, os cruzeiros ingleses da costa Oeste da África capturaram 634 barcos negreiros e destruíram numerosas feitorias de escravos. Eram estas espécies de fortalezas ou castelos vizinhas à costa, sendo que os Maiores haviam sido construídos, a partir de 1650. Em 1682, um comerciante de Brandenburgo edificou três grandes castelos na Costa de Ouro, da Guiné (teatro principal da trata).  Mais adiante, em 1734, estas construções foram vendidas pelo Rei da Prúsia aos holandeses. Calcula-se que em 1788, dessa costa foram arrancados mais de 10.000.000 negros (Luis Fossard). Evidentemente, esta manobra da Inglaterra se valia de uma ação, verdadeiramente humanitária, para obter uma vigilância de todas as marinas do mundo. Ao mesmo tempo, conseguia um ostensivo policiamento, a supremacia dos mares e, concomitantemente, assegurava o monopólio agrícola e comercial de suas posições das Índias orientais, gerando o deterioro das plantações estabelecidas na América. Entre os últimos negros que se trouxe, se destacaram os que no Brasil se chamaram nagôs. Eram os iorubas, povos de excelente nível cultural que provinham do SO da república da Nigéria, com grupos isolados em Benin e N da região do Togo. Estes negros foram trazidos em grandes levas ao Brasil onde, devido a sua língua, adotaram esse nome. O dialeto se falava no Togo (alemã) e pertencia a variante central do grupo libio ou bereber, na realidade era um idioma nigero-congolês do Kawa, também conhecida como “língua do santo” ou “da costa”. Os iorubofalantes eram grupos islamizados (Hauçá, Tapa e  Borneu). O termo malê deriva do ioruba imalê, voz que significa professor ou senhor (Cacciatore). Os negros malê haviam sido os primeiros a organizar-se contra a escravidão, numa revolta de proporções sucedida em 1835. O movimento tentava criar na Bahia, um reinado negro mulçumano, chegando a liderar outros grupos que a diferença deles possuía um comportamento muito mais belicoso. Entre eles se sobressaiam os calabares que procediam do extremo N da baia de Biafra, uma das zonas mais insalubres pela seca e pelo desenvolvimento da malária que tornava os povos sumamente sofridos. Esta zona escravista tinha passado a ser explorada pela Espanha no s.XVII, já que, em 1577, havia sido cedida por Portugal. Outro povo com um acendrado espírito de luta foi o Hauçá, que também foi recrutado pelos malês, os quais conformavam a rama intelectual do movimento. A desobediência e a insubordinação dos Hauçás foram repetidas vezes denunciadas ao rei pelos terratenentes. Estes culpavam a D. Marcos de Noronha e Brito, 8º conde de Valdez, de “condescendência com os negros que se rebelavam”. Como conseqüência, o conde que havia sido o décimo quinto e último dos vice-reis do Brasil (1806-1808), e depois, com a chegada do príncipe regente passou a governar a Bahia (1808), foi retirado do seu cargo em 1817. A partir de 1671, a perversidade de muitos fazendeiros havia aguçado a paciência dos escravos, incitando-os a revoltar-se, adotando agrupações de diferentes características. Na carta escrita ao Rei D. Pedro, pelo governador Fernão Coutinho já alertava sobre o “perigo com o atrevimento destes negros” comparando-o com o dos holandeses, na década de 1630.    

Como conseqüência, a falta de negros se intentou suprir com cólis africanos, indianos e, principalmente, chineses livres e voluntariamente contratados por períodos fixos e um certo preço. Em alguns casos, a situação destes, como a dos imigrantes italianos que também começaram a chegar, ao principio se apresentava muito parecida com a dos escravos.  

No Paraguai, que regia as missões jesuíticas do Guayrá, a escravidão foi ab-rogada em 1869, a instância do nobre militar francês Luis Felipe Maria Fernando Gaston, Conde D’Eu, filho do Duque de Nemours e neto do Rei Luis Felipe. Aos 22 anos, o gentil homem havia contraído matrimônio com Isabel, primogênita do Imperador do Brasil, Pedro II. Nomeado por este, Marechal do exército brasileiro, se havia distinguido na luta contra Francisco Solano López, Presidente do Paraguai. Mas adiante, ao proclamar-se no Brasil a República, em 1889, se transladou a França. Com a abolição da escravidão no Paraguai, o Conde D’Eu demonstrou a vontade de D.Pedro II de decretar a liberdade dos escravos, em todo o território, antecipando seu propósito no Paraguai.

A abolição foi uma das máximas preocupações de D. Pedro II e de um grupo de intelectuais do Império, cuja atividade teve começo depois da guerra de secessão, nos Estados Unidos. Em 1866, o Imperador acionou um plano gradual para a liberação dos cativos. A minuta foi apresentada pelo advogado José Antonio Pimenta Bueno, Visconde e Marquês de São Vicente, ministro do Tribunal Supremo de Justiça, ministro de Negócios Estrangeiros e Senador do Império. O projeto foi minuciosamente estudado e aprovado com alguma modificação pelo Conselho de Estado. Durante a guerra do Paraguai, não existiu ocasião para pôr-lo em prática, mas ao finalizar esta, em 1870, a Câmara nomeou uma nova comissão composta pelos abolicionistas amigos do Imperador, que redigiu um projeto similar ao do Marquês de São Vicente. Os problemas não foram fáceis de resolver, já que o governo suportava a irracional oposição dos grandes interesses pessoais. Os trabalhos agrícolas dependiam dos escravos que constituíam uma quinta parte da povoação total do território. Diferencias de critérios no ministério exigiram outra vez, a presença do Marquês iniciador do movimento abolicionista. No entanto, acusado pelos ataques da oposição, incluindo o jornalismo, o sábio jurisconsulto se viu obrigado a retirar-se. José Maria da Silva Paranhos, Visconde de Rio Branco, formou outro gabinete que contrariando a obstinada oposição, adotou o projeto primitivo de “Emancipação gradual” (Convenção de 20 de Fevereiro).  A sanção coube a regente D. Isabel. A lei declarava livre a todos os meninos nascidos no Brasil, facilitava as manumissões e criava “fundos especiais para resgatar cada ano certa quantidade de escravos”. Ainda assim, somente em 1882, com 67 anos de atraso a respeito do tratado firmado com Inglaterra (1815-1817), se começou seriamente a respeitar a lei, ao prosperar a idéia de uma liberação total, que concederam em 1884 as províncias de Ceará e Amazonas. No mesmo ano, o baiano Rodolfo de Souza Dantas, Ministro do Império, apoiado pelo Imperador e pelos abolicionistas, solicitou ao parlamento a liberação dos escravos, a partir da idade de 60 anos. Esta iniciativa foi recusada numa moção contra o ministério, aprovada por 59 votos contra 52. O Imperador dissolveu a Câmara, no entanto, com as novas Eleições Gerais, os abolicionistas, num escrutínio proporcional ao anterior, foram novamente derrotados. Esta vez, o partido opositor obteve 52 votos contra 50. Ao contrário do que ocorria na Câmara, com o povo, a idéia de manumissão se acrescia. O ministério seguinte encabeçado pelo baiano José Antonio Saraiva, de tendência liberal, logrou com o apoio do conservadorismo o triunfo definitivo do projeto que liberava aos escravos sexagenários, que deviam respeitar ainda “três anos de plus”, aumentando o fundo de resgate anual e favorecendo a imigração européia.

Portugal havia sido um dos últimos países a honrar a assinatura do tratado para a redenção dos escravos de suas colônias. Mediante um decreto de 14 de Dezembro de 1854 e uma lei de 30 de Junho do ’56, se liberou aos escravos de propriedade do estado e também aos da prefeitura, das entidades benéficas e da Ordem da Misericórdia. Em 5 de Julho de 1856, a medida se fez extensiva aos da igreja e em 24 do mesmo mês a todos que nasceram, ainda que lhes impondo a obrigação de servir aos amos até os 20 anos. Pouco tempo depois, em 25 de Agosto, se aboliu a escravidão na Índia portuguesa, com extensão para Moçambique, a Guiné Alta e as ilhas desse golfo. A ascensão de Abraão Lincoln a Presidência dos Estados Unidos, a sanguinária guerra da secessão e o alçamento dos Estados do Sul, vencidos em 8 de Abril de 1864 foram os fatos que acicataram o acionar, não só dos abolicionistas locais, enrolados no partido dos vencedores, senão os grupos de outros países em que existiam sociedades ou grupos abolicionistas, entre eles o Brasil. Em 1887 em São Paulo, os Senadores João Alfredo de Oliveira e Antonio Prado, iniciaram uma enérgica e sagaz arremetida com a intenção de ampliar o alcance de uma lei “para abolir íntegra e incondicionalmente a escravidão”. Um efeito importante em tal sentido, foi o exemplo dado por toda a família Prado, cujos membros, espontaneamente deram liberdade a todos seus escravos. Foi uma ação generosa que comoveu o país e inspirou numerosas famílias que fizeram o mesmo com os seus. Desde Março do ano seguinte, o Ministro João Batista Wanderley, Barão de Cotegipe, apresentou a demissão por diferença de opinião. Depois de haver-se distinguido como Diplomático e Ministro da Marinha e Relações Públicas, durante a guerra do Paraguai, Cotegipe havia atuado em outras carteiras em que se mostrou insensível à realidade dos escravos, tornando-se um empedernido adversário da abolição. A Princesa Imperial Regente instruiu ao Conselheiro, Correia de Oliveira à instalação de um novo Ministério. Correia colocou ao seu lado o colega, Conselheiro Antônio Prado quem, no primeiro dia de mandato, declarou que sua missão era “libertar os escravos de todo o Brasil”. A notícia foi profusamente comentada nos meios jornalísticos nacionais e estrangeiros. Os adeptos do stato quo que considerava o trabalho servil imprescindível para a produção do agro, profetizavam, na mesma medida, a quebra do País. Nestas circunstâncias, Correia de Oliveira obteve, valendo-se de sua preclaridade e inteligência, o mais volumoso empréstimo estrangeiro que se conheceu: capital real 6.000.000 de libras esterlinas; nominal 6.297.300; tipo de emissão, o 97%; interes, 4 1/2 ; amortização 1% .

Por fim ambas as Câmaras aprovaram quase unanimemente a reforma e a seguir redigiram a nova lei de 13 de Maio de 1888, que eliminou quase sem restrição a escravidão em todo o Império. O cumprimento taxativo da lei foi vigiado por associações, como a Liga Redemptora fundada pelos doutores Joaquim José de Assis, o conselheiro Tito Franco de Almeida e José Henriques Cordeiro de Castro (Lei nº 2.040 – de 28/9/1871).

O Brasil passou a ser a última nação católica a redimir os escravos. Na África, a escravidão alcançou o s.XX, sendo o território do Rei Lewanica, situado ao N da Rodésia, o país que a aboliu somente em 1906. Esta determinação do Rei Lewanica se gerou quando de sua visita à Inglaterra, por ocasião da coroação de Eduardo VII. A metade dos habitantes desse reinado nascia já sujeita a escravidão quando o rei promulgou o decreto que, entre outras coisas dizia: “Se proíbe em absoluto a venda de seres humanos”; o decreto foi firmado com grande solenidade e celebrado com festa por todos os seus súbditos.  

A República da Libéria instituiu em 1879, a primeira Ordem de Redenção Africana que se compunha de três categorias: Grandes Cruzes, Comendadores e Oficiais.

Ao final, a Igreja Católica também intensificou sua campanha contra a trata. O cardeal primado da África Lavigerie começou um Movimento antiescravista e a agressividade com os tratantes, foi tal que terminou sendo acusado por estes de “alimentar segredos desígnios ocultando-os sobre o manto de uma propaganda humanitária”. O Cardeal recebeu o apoio irrestrito do Papa Leão XIII, e, com a encíclica Inplurimis, declarou que “a trata se opunha diretamente as leis divinas e naturais, e que nenhum outro comércio era mais cruel e desonesto”. Na carta de 18 de Outubro de 1888, o Papa deu total apoio a causa. A propaganda de Lavigerie, apoiado por muitos outros prelados, se deveu a fundação de várias sociedades antiescravistas como a italiana e se publicaram revistas como Le Mouvement Antiescravagiste, de Bruxelas, e o Bollettino del comitato antischiavista, de Parlemo (Eduardo Felipe Engelhardt.  La conférence de Bruxelles de 1890 et la traite marítime – Rev. de Droit International et de Législation Comparée, V.22, pág.603).                        

Em 1870, o número de escravos no Brasil era de 1.800.000; em 1873, de 1.584.000; em 1885, se reduziu a 1.050.000 e em 1887, a 743.419. Neste ano havia mais de 500.000 livres (filhos de escravos) e 18.946 sexagenários que deviam os três anos de plus.

Com a riqueza e a moleza se introduziram os abusos. A potestade do proprietário do escravo não tinha limite legal algum, sendo tão absoluta que até podia a seu capricho, dar morte ao escravo. Não obstante isso, a sociedade sinalava de mal tratante ao que, abusando de seu poder, matava ou maltratava arbitrariamente os seus escravos. Ou seja, que a costume corrigia a severidade do direito do amo.

Deve-se ter em conta que se torna difícil abordar um tema tão importante para humanidade como o foi a manumissão, porque o principal empecilho para completar uma revisão histórica nesse sentido, se gera pelo fato de os escravos carecer de todo direito desde o nascimento, sendo que o mais escrupulosamente demandado pelos amos era o de “testificar”.

 

V - As grandes mudanças propiciadas pelo novo estilo e pelas normas tridentinas

 

O robustecimento das coroas européias e a crise que envolveu a igreja católica a partir do século XIV, concorreram para a transformação do pontificado num principado italiano que se complicava com as lutas que distanciavam os Estados. Isto ocorria, não somente na península Itálica, senão também na Inglaterra (1351), na França (1438) e pouco depois na Alemanha. O Vaticano se isolava cada vez mais e concluía impossibilitado de cobrir as nomeações de eclesiásticos, gerando um verdadeiro sismo no seio das nações. Apoiado pela Companhia de Jesus, o Concilium de Trento, reorganizou a igreja romana, evitando que novos abalos destruíssem a unidade católica, ainda quando os monarcas atacaram ao Papa. Semelhante empresa só se poderia materializar mediante uma importante mudança social, e contando com uma difusão dos escritos e “leitura apropriada” a todos os níveis, como nunca antes se tinha visto.

Esta política protecionista teve seu desfecho em 1562 quando o governador Mem de Sá concede aos índios as primeiras sesmarias, idéia esta que contrariava aos colonos, ainda que fosse coincidente com as sugestões feitas pelo Padre Geral Diogo Lainez, que participava do Concílio de Trento e do próprio Nóbrega. No Discurso das Aldeias lê-se que o governador, por ordem da Rainha D. Catarina “vendo quão proveitosos e necessários eles (os índios) eram a esta Baía, e que senão podiam sustentar sem terem terras em que pudessem lavrar, lhas deu perto do mar, assim como da costa como do mar da Bahia (Recôncavo) para seu sustentamento de que teem suas cartas”.

A Santa Casa gozava Privilégios por ser uma Irmandade com dependência direta do Rei. Havia sido criada em Lisboa pelo Frade Trinitário Miguel de Contreiras, confessor da Rainha, e sua fundação ratificada por D. Leonor, estando esta a servir como Regente do Reino na ausência de seu irmão El-Rei D. Manoel, em 5 de Agosto de 1498.

 A presença da Misericórdia no Brasil se remonta a antes de 14 de Dezembro de 1549, quando a cidade de Salvador tomava forma. O fato de Miguel de Contreiras pertencer a Ordem Hospitalar da Santíssima Trindade aclara a presença, frente ao altar do venerado “Santo Cristo do Consistório”, no Salão Nobre, do esplendido painel com a imagem de São João da Mata, fundador da Ordem da Santíssima Trindade. O descobrimento durante a restauração do painel deste Santo, de pouca presença nos templos da Bahia, chegou a surpreender. No s.XVI, o Provincial da Ordem e Prior do convento espanhol Valdepeñas, São João Baptista da Conceição, havia cindido a Ordem, em Trinidários descalços e Reformados, e reduzido as casas da Irmandade na península ibérica e nas colônias. As “missas brancas” da Santíssima Trindade se celebravam no Brasil no 11º domingo (3ª semana do Saltério).

Durante a fundação da cidade, o Provedor Diogo Muniz Barreto, fidalgo da casa del Rei, dividia seu empenho em duas tarefas: por um lado não deixava o atendimento do Hospital da Santa Casa de Misericórdia, onde um licenciado médico socorria os enfermos, os acidentados e os necessitados, e pelo outro, empenhava seu esforço nos afazeres administrativos referidos a construção das casas e dos baluartes do cerco que deviam proteger a cidade.

Em 29 de Março de 1549 os Jesuítas chegavam ao Brasil, imbuídos de amplos privilégios régios. Sua missão educadora e teocrática vinha fortemente garantida pelas armas das Coroas de Portugal e Espanha. A sua chegada os religiosos encontraram “uma maneira de Igreja” e algumas casas que seriam seus primeiros refúgios. Levando-se em conta o processo seguido pela generalidade das conquistas na América, Pernambuco e Porto Seguro, é provável que na construção desta ermida tenham intervindo, direta ou indiretamente, frades franciscanos. No entanto, o que com certeza se sabe, é que nesse minúsculo casario vivia, desde quatro ou cinco décadas, um tal Diogo Álvares Correia “Caramuru”. Era um lusitano que havia formado família com a índia Catarina Paraguaçu, para o qual mais adiante Nóbrega pediria a Ordenação Régia e passaria a ser um dos seus primeiros predicadores, sendo reconhecido como o “pai e governador dos índios convertidos” (V. As primeiras construções de Salvador).         

A Companhia de Jesus se comprometia com a educação de colonos leigos e, especialmente, de índios que mostravam amizade e submissão com os portugueses. Estes parâmetros eram a razão primeira de sua presença na América (Carta do P. Manoel da Nóbrega ao P. Simão Rodrigues - Agosto de 1552 - P. Serafim Leite, pág. 8). A situação era idêntica a existente em todas as colônias ibéricas dos outros continentes, ou seja, que em todas elas se prestava especial atenção à leitura doutrinária e, em menor medida, a profana. Em Coimbra, durante o Reitorado de Diego Mirón (provincial de Portugal, entre 1551 e 1552), a Companhia aceitou o Colégio das Artes de Coimbra, fato importante que significava o triunfo da reforma católica (Anti-Reforma) (Doc. Leite tombo II pág.58*). No Brasil as ordens religiosas não pouparam esforços nem teorias pedagógicas para obterem êxito com o ensino, muitas vezes valendo-se de métodos pouco convencionais. Com as crianças gentias, as que chamavam columins, puseram o maior empenho, ainda que se expusessem às desaprovações que de diferentes setores recebiam.

É interessante recordar as críticas recebidas pelo Padre Nóbrega com respeito a sua maneira de missionar. O notável clérigo sertanista era censurado por reunir as crianças indígenas com os órfãos do Colégio dos Meninos de Jesus, oriundos de Portugal aos quais fazia cortar o cabelo a modo daqueles para criá-los em igualdade e intercambiando conhecimentos. Também enfrentou problemas por não consentir com o rito tradicional que dispunha que ao chegar aos sítios que iam ser desbravados, os grupos missionários fossem precedidos pelo responsável da missão, levantando a cruz. A falta consistia em que era um dos quatro meninos que com ele iam que o fazia, e não o próprio missioneiro. Está demais dizer que as críticas não foram ouvidas pelo Padre, que continuou com seu peculiar método didático (Dados recolhidos pelo Dr. Carlos Ott para o Exmº. Sr. Dr. Godofredo Filho, em 6/9/1958). Foi ele quem mais se preocupou por integrar aos meninos, compreendendo e assimilando seus dialetos tão diferentes e propiciando a criação da “cultura de contacto”.

Em um trecho da carta do P. Nóbrega, dirigida em fins de Julho de 1552 ao Provincial de Portugal P. Simão Rodrigues se lê: “Os mininos desta casa acustumavão cantar pelo mesmo toom dos Índios, e com seus instromentos, cantigas na língua em louvor de N. Senhor, com que se muyto athrahião os corações dos Índios, e asi alguns mininos da terra trazião o cabelo cortado à maneira dos Índios, que tudo para a todos ganharem. Estranhou-o muyto o Bispo e na primeira pregação falou nos custumes dos gentios muyto largo, por donde todo o auditorio o tomou por isso. E foy assi, porque a mym o reprehendeo muy asperamente, nem aproveitou escusar-me que, nom erão ritos nem  custumes dedicados a ídolos , nem que perjudicassem a fee catholica. Obedeci-lhe e asi o farey em tudo, porque por menos mal tenho deixarem-se de salvar gentios que sermos ambos divisos”. (S. Leite S.J., Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil I pág. 373).

A Companhia de Jesus foi a Ordem religiosa que mais condescendeu e compreendeu a cultura autóctone. Prova disso ficou registrada quando seus clérigos foram expulsos das Missões do Sul. As suas povoações passaram ao poder dos dominicanos que, principalmente por desconhecer a língua dos aborígines, não deram conta do cometido. O desfecho do drama em 1631 gerou a debandada dos índios que, em sua Maioria, fugiram para a selva ou foram escravizados pelos Bandeirantes.   

Na defesa dos Guaranis se destacou o P. Simão Mazeta, natural de Nápoles. Em mais de uma ocasião tinha seguido aos “mamelucos” (Bandeirantes), quando depois de invadir a Missão de San Ignácio, que ele dirigia desde sua fundação, escravizavam núcleos numerosos de índios e famílias inteiras, conduzidos acorrentados à São Paulo. A Carta Annua de 1608 relata que “Mazeta havia seguido os rastros dos mamelucos que volvíam [para São Paulo], com a presa y não pudiendo llevar com a deseada rapidez a los indios esclavisados, los abandonabam en las selvas. O mesmo Mazeta o referiu depois:  “Los tristes espectáculos que hemos hallado en el camino, de muchos pobres viejos, enfermos, ciegos, mancos y tullidos, pereciendo sim remedio, que quedabam em los deciertos por no poder seguir las banderas no sse puede escribir... a muchos luchando com la muerte. Com cinco ninõs dimos en el monte dando as últimas boqueadas; hallamos los caminos poblados de cadaveres. En unos jarales [sítio povoado de jarás muito enredado ou intrincado]sentimos os balidos de un tierno corderillo de algunos diez o doce meses; ellos nos sirvieron de guias; dimos con el que estaba desnudilho e temblando de frio; dos léguas le llevamos en los brazos, calentandole com el aliento; bautizamosle “debajo de condicion”[batismo sem água] hasta que dimos con la gente acuartelada; buscamos una india que le diese leche y vida; y no fué pequeña maravilla por el embarazo que pusieran aquellos brutos a esta obra tan propia de la humana compasion. A  unos indios que a instancia nuestra, del todo rendidos, sacaron las argollas, sin poder remediar maldad tan horrenda, les pegaron fuego, y si alguno huía de las llamas,  los perfidos  Tupies los volvían a arrojar a ellas. Com o P. Justo Mancilha pasó el P. Mazeta a San Pablo, pisando las ensangrentadas huellas de los criminales bandeirantes, com el fin de quejarse a las autoridades civiles y religiosas de los excesos e inhumanidades de aquellos moradores de esa ciudad. Poco es lo obtuvieram de satisfactorio. De los 15.000 indios robados de las reducciones, solo obtuvieron la libertad de 50”. (Guillermo Furlong  S.J. - Carta Annua de 1608).

Na realidade, entre as primeiras ordens religiosas missioneiras que chegaram ao Brasil, se haviam destacado a de São Francisco, isto aconteceu em Pernambuco, mais pontualmente, em Igarassú.

Na Bahia, logo da primeira ermida construída por Caramuru, talvez dirigida pelos primeiros clérigos Franciscanos, os Jesuítas levantaram a sua primeira igreja de taipa e palha, a qual foi refeita em 1552. “Chegamos a esta Baya a 29 dias do mes de março de 1549. Andamos na viagem oito somanas. Achamos a terra da paz e quarenta o cinqüenta moradores na povoação que antes era. [Vila Velha ou Povoação de Pereira, fundada pelo primeiro Governador Geral do Braasil Tomé de Souza, que saiu a 1 de Fevereiro de 1549] Receberam-nos com grande alegria; e achamos huma maneira de igreja, junto da qual logo nos apousentamos los Padres e Irmaos em umas casas a par della, que nam foy pouca consolação para nós, para dizermos misas e confessarmos; e nisso nos ocupamos agora” (Carta de P. Nóbrega ao provincial de Portugal P. Simão Rodrigues).

Em 10 de Julho de 1552, em carta à Simão Rodrigues, Nóbrega diz: “Há nossa igreja que ficemos se nos cae, porque hera de taipa de mao e de palha. Agora ajuntarei estes senhores mais honrados que nos ajudem a repararla até que Deus queira dar outra Igreja de mais dura, se a V.R. parecer bem falar com El-Rei senão os padres que vierem faram outra, que víram com fervores, que dure outros tres annos, porque nossas mãos ja nao poderam facer outra, senão se for daquí quinhentas legoas pello certão”. (S. Leite, Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil).

Os franciscanos nunca chegaram a contar com o poder ao qual acederam os clérigos da recentemente criada Companhia de Jesus (hoje, Sociedade de Jesus). A Ordem que havia sido fundada em 1540 pelo ex-militar Ignácio de Loyola devia o seu nome: “Companhia”, ao caráter militar que seu idealizador lhe havia imprimido e que muito tinha haver com a Ordem de Cristo fundada por D. Dionísio de Portugal no s.XIV, cujos integrantes uniam à profissão religiosa o voto de “defender a religião de Cristo por meio das armas”. Esta característica somada a uma notável cultura, grande capacidade organizativa e rigor de seu fundador, era tudo o que a Contra-reforma necessitava para enfrentar as não menos preceptorais inovações doutrinárias dos Protestantes, cujos doutores eram ilustres figuras da igreja como João Calvino, Felipe Melancton, Úlrico Zuinglio e o intemperante agostiniano Martinho Lutero.

A invenção da imprensa de tipos móveis, já se usava nas Missões Jesuíticas do Sul do Brasil, quando também havia dado seus frutos na Europa. Lá havia passado rapidamente a ser um valioso apoio para que os clérigos intelectuais divulgassem amplamente suas teses contra-reformistas. No museu do Cabildo de Buenos Aires, se conserva a primeira prensa utilizada pelos Jesuítas nas missões e, depois de sua expulsão do Brasil passou a funcionar no colégio portenho, onde se imprimiram os primeiros jornais e publicações que surgiram nessa capital (hoje Manzana de las Luzes).         

Ao mesmo tempo em que a impressão da literatura religiosa proliferava, se produziam importantes câmbios litúrgicos, a partir do surgimento do Barroco. As recomendações que já haviam sido amplamente difundidas na Europa pelo Concilium de Trento, no sentido de proporcionar luz aos interiores dos templos para facilitar a leitura, rapidamente se propagavam por todas as colônias.

As novas igrejas “tinham que ter grandes janelas altas, com vidros brancos”, e as antigas que não tinham suficiente luz, deveriam ser modificadas em tal sentido. Alguns historiadores, estudiosos da Arquitetura Religiosa antiga, por desconhecer as recomendações do Concilium destinadas às colônias transoceânicas, se manifestaram surpresos pela desconcertante altura em que se situaram as aberturas, e também as dimensões das novas janelas nas construções “modernas” jesuíticas, do mesmo modo não puderam justificar os grossos vidros brancos que se aplicavam nelas. Referente a igreja da missão de São Ignácio Mini, o arquiteto e historiador espanhol, Vicente Nadal Moura, em seu trabalho Monumentos Históricos de Missiones diz: “Nos muros laterais, correm nas partes altas, o começo de sendas fileiras de janelas inacessíveis, que surpreendem também pela sua luz inusitada para a época, que fazem pensar como puderam estar fechadas ditas aberturas, possivelmente divididas em panos fixos com pedras translúcidas ou vidros; de estes se tem achado restos ligeiramente opalinos, e de 4 milímetros de espessura.” (Comissão Nacional de Museus y Monumentos Históricos - Buenos Aires). 

Vários autores atribuem determinados tipos de modalidades construtivas, a prolífera atividade edilícia dos Jesuítas. Isto não significa que o intuito haja sido criar um novo estilo e nem sequer uma estilização secundária.  Na realidade, foram eles que mais impulsionaram a Contra Reforma difundida pelo Vaticano a partir do Concilio de Trento, e suas inventivas estavam relacionadas à catequese, a educação e, em geral, a difusão da fé católica. No tema que concerne à arquitetura e a arte nos templos, o Concilio não ditou preceitos nem emitiu decretos. No entanto, a respeito da arte nas igrejas, a junta conciliar declarou: “a natureza do homem, sendo tal que não pode facilmente, e sem alguns apoios externos, elevar-se a meditação das coisas divinas, por isso, a igreja como uma boa madre, estabeleceu certos usos (...) as luzes, os ensinamentos, os ornatos e muitas outras coisas parecidas”. Enquanto trata da arquitetura, se bem não emitira normas, as razões fundamentais ante as novas regras geraram novas necessidades funcionais que os Jesuítas continuaram a difundir depois de fenecido o Concílio em 1563.  Em 1577, o arcebispo de Milão e protetor de Portugal, dos Países Baixos e dos cantões católicos da Suíça, São Carlos Borromeo (sobrinho de Pio IV) publicou Instruções para a Arquitetura Religiosa. Era o compendio do estabelecido durante todo o Concílio e, principalmente, do que fora tratado nas últimas reuniões. Foi encarregado de reformar as artes e a música e difundiu ensinamentos e disposições conciliares práticas. Recomendou que a construção dos templos tivesse como “maneira da Companhia de Jesus” a planta da Igreja do Iesus, idealizada pelo notável construtor da Ordem, Giovanni Tristano, em 1568, e concluída pelo ilustre arquiteto italiano Vignola (Jacobo Barozzi). Escolhido por Felipe II, havia intervindo nas construções do Monastério do Escorial, Palácio Ducal de Parma, Palácio da Caprarola em Viterbo, e o canal navegável de Bologna.

Além das mudanças referentes às necessidades de incentivar as práticas litúrgicas e facilitar os ofícios religiosos paroquiais, se podem apontar algumas particularidades de caráter edilício que se verificaram no interior da Igreja da Santa Casa. A nave tinha experimentado um novo ordenamento que priorizava a simetria. A partir da construção de um altar lateral, ornado de talhas douradas com os emblemas que evocam a São Jorge (fotos 016, 017 e 018), para acompanhar ao que existia desde a provedoria de Francisco Fernandes do Sim (ou da Ilha) de 1557, que homenageava Santo Antônio, se realizaram outros acertos nesse sentido. As fotos 019 e 020 mostram detalhes do altar dedicado a Santo Antônio, cuja concepção adota o mesmo critério com respeito aos atributos do orago, nos detalhes aparece a cruz, o menino, o livro e um lírio.

Como corresponde às imagens de São Jorge próprias para altares, a deste retábulo está de pé com suas armas, ou seja, sem a cavalgadura e o dragão. Na foto 021 se vê a imagem após a restauração. Se mostra com a espada embainhada na mão esquerda e na direita, a lança. Nas fotos 022, 023, 024, 025 e 026 se vêem alguns momentos da intervenção, na 027 se notam as perdas na mão esquerda e na 028 se observa a decapagem na zona inferior. Em todas as áreas a operação se apresentava sumamente delicada devido à dureza das camadas agregadas sobre as bases frouxas que em muitas partes demandaram uma fixação prévia às tarefas de consolidação. As fotos 029, 030 e 031 mostram o elmo sendo liberado das camadas de massa e pinturas apócrifas. Em algumas partes ainda ficaram dourados que tiveram de ser protegidos tal como as policromias. Observe-se que nesta zona se tinha perdido a cimeira (um clássico penacho de três penas). No lugar que esta ocupava apareciam perfurações com resquícios de encavilhados de diferentes épocas. Outros orifícios correspondiam a diferentes épocas indicando que em algum momento se tinham inserido penas naturais ou grupos delas. Na atual restauração se completou a cimeira entalhada e se restauraram os dourados. Na armadura (foto 032), ao retirar-se a pintura agregada, aparecia a original cujas escamas, diferentemente das fingidas, eram de cor azulada. Na foto 033 se percebe que os detalhes das escamas tinham sofrido um enérgico lixado que, em algumas partes, havia causado a perda dos caracteres delicados. Na foto 034 se vê o rosto da imagem no momento em que se retiram os estratos agregados e se recupera a pintura original. Como em todos os casos, os retoques tiveram caráter minimalista.

 Uma pequena portinhola existente na lateral esq. da nave logo detrás do púlpito, que dava acesso direto ao Hospital, foi eliminada, e em seu lugar se pintou outra idêntica equivalente a da direita. Esta solução estética se realizou ainda tendo que sacrificar dois painéis de azulejos que acompanhavam o espaço deixado pela portinhola (foto 035). Na foto 036 se vê um tipo destas portinholas, o exemplo pertence à Igreja do Convento de Santo Antônio, de Igarassú, fundado em 1588, quando era custódio da província Frei Melchior de Santa Catarina, que tinha chegado da Europa com quatro religiosas, em 1585.

Está demais dizer que a modalidade não se generalizou e além disso, na verdade, nunca se considerou como imposição. No entanto, se tiveram sim, em conta disposições como a de aplicar “janelões de vidro não coloreados a fim de que os fiéis pudessem seguir o ofício religioso em seus livros”. Também nestas recomendações, se encontra o porquê da elevação dos altares e, principalmente, da aparição dos imponentes tronos que determinam sendo uma das principais características dos retábulos barrocos. Também nele se observou a preferência de peças humanas tridimensionais “esculturas modeladas ou entalhadas e sempre encarnadas e policromadas”. Este detalhe ficou de manifesto no altar-mor da Santa Casa, onde se substituiu um excelente quadro da Anunciação pintado em 1777 especialmente para essa finalidade por José Joaquim da Rocha, para ser instalado em seu lugar uma imagem relativamente pequena de Nossa Senhora da Conceição, num pequeno dossel. Na realidade a peanha onde foi colocada a pequena imagem tinha sido instalada para que os padres que rezavam as missas, ao terminarem o ofício, subissem até ela pela escada detrás do retábulo, levando o ostensório. Ali, a custódia onde se ostentava a hóstia consagrada ficava em esposição por alguns dias. Esta modalidade se prolongou por algum tempo e até chegou a ser adotada por outras igrejas de Salvador. Porém, um documento de 1774 permite completar a história harmonizando as datas desta importante reforma com pesquisas atuais. O documento completo diz: “Aos vinte e dois de junho de mil settecentos e setenta e quatro anos nesta Cidade do Salvador Bahia de Todos os Santos, e Caza do Consistorio de Santa Mizericordia , estando em Meza redonda comgregados  o Irmão Provedor Fructuoso Vicente Vianna, Familiar do Santo Officio, Homem de Negocio desta Praça e Ex-Deputado da Meza de Inspecção, comigo Escrivão e mais Irmãos da Meza abaixo asignados. Foy proposto pello dito Irmão Provedor que sendo o Culto Divino o objecto da nossa profunda Veneração, e ser Christo Senhor Nosso nos sagrados templos tratado com a mayor grandeza, aparato, e riqueza, segundo as possibilidades da terra asim para alegria das almas dos fieis Christãos, como para confusão total dos hereges, pello aseyo e respeito com que se deve tratar a Deus accidentalmente; e que sendo esta Santa Caza huma das principais Igrejas desta Cidade, onde actualmente comcorrem o povo e pessoas mais qualificadas della nas asistencias das festas mais solenes, se fazia digno de reparo o retabulo da Capella mor, que se achava totalmente aruinado, podre, e quasy a cahir, e imcapas de nelle se expor o Divino Sacramento nos dias festivos, e com evidente perigo do sacerdote, que o leva nas mãos ao trono para o expor, e que para evitar o risco, e danno que podia acontecer, parecia a elle dito Provedor se mandace dazer hum retabulo novo para o Altar da Capella mor, com duas toxeiras para o seu ornato, pello melhor artifice, e pello modello mais moderno que se podece escogitar, para o que se ponhão editais publicos afim de que os Mestres Intalhadores desta Cidade aparecessem nesta Caza do Despacho com os seus riscos, para a vista delles se escolher o melhor, e ajustar o preço da dita obra. O que ouvido por todos votarão uniformemente que era justo, e de grande louvor, e atenção a referida proposição do dito Irmão Provedor, pello que mandondo-se afixar os ditos editaes  forão aprezentados em Meza varios riscos, dos quais só o do Mestre Antonio Rodrigues Mendes, foi o que melhor agradou, asim pela demonstração de ser feito pello methodo mais moderno que prezentemente pode lembrar, como pela certeza das mediçoens. E sendo chamado o dito Mestre, esta Meza se encarregou de fazer o dito Retabulo, e toxeiras, com toda a perfeição, com declaração porem, que quando deliniace, e plantace a madeira do Retabulo para a volta de sima delle, faria que a moldura que goarnece por detras dos Santos Doutores, postos sobre os capiteis, goarnecerá tambem a meya cana que vay direita para sima, para daly buscar a cupula; e que em sima desta, podendo ser, sem defeito de prospecto de toda a obra, se porá a gloria da Santíssima Trindade com seus Serafins, e rayos, que ainda a seu tempo se resolverá sendo comducentes a mesma obra que se acha demonstrada no risco que se entregou asignado pellos Irmãos desta Meza; e que as toxeiras as faria pella do risco numero dois, exceptuando deste sômente a caza, e prato de sima, pondo-lhe a que tem o primeiro risco numero hum como vay declarado com duas linhas de tinta no mesmo debuxo; e depois de tudo lhe ser bem ponderado, não teve duvida em cousa alguma, e se ajustou com a mesma Meza, de fazer, e acentar a dita obra do Retabulo e toxeiras, dentro do tempo de hum anno que principiará a correr do dia da data deste Termo, que findará em o outro tal do anno proximo futuro de mil settecentos, secenta e sinco, de sorte que tudo venha a servir na festa da Vizitação de Nossa Senhora a Santa Izabel, e tudo pella quantia de hum conto, e cem mil reis, pagos em tres iguais soluçoens a saber, a primeira de trezentos secenta e seis mil, seiscentos e seis reis, para principio da obra e asignar deste Termo, a segunda a seis mezes, e a terceira no fim de toda a obra, e seu acentamento; bem entendido que toda será bem limpa e com toda a perfeição de madeira de bom cedro, sem branco, nem corrupção alguma, tudo pela referida quantia sem que possa em tempo algum pedir por sy ou seus herdeiros, qualquer mayor pagamento que seja, a titulos de acrescimos, pois os que possão sobrevir, vão todos comsiderados e ajustados pelo referido preço. E que outrossim depois de asentado o dito retabulo, e as toxeiras, tudo será comferido pellos proprios riscos, e faltando-se alguma couza da obra que nelles vay delineada, será obrigado a po-la na sua ultima perfeição que ha de servir, como tudo o mais que tocar ao acentamento della, sem o que não poderâ receber o ultimo pagamento, e se obriga que não cumprindo asim como fica ajustado, poderâ a Meza mandar acabar tudo a custa do dito Mestre. E porque asim o prometeu cumprir por sy e seus herdeiros debaixo da hypotheca de todos os seus bens, e se deu por entregue da quantia referida do primeiro pagamento, se mandou lavrar este Termo, em que asignou com o dito Provedor e Irmãos Concelheyros da Meza, e comigo Innocencio Joze da Costa Escrivam actual da Meza que esta sobreescrevy e asigney.

Assig.  Provedor Fructuoso Vicente Vianna – Innocencio Joze da Costa 1774 – Antônio Joseph Mo...... – João da Costa Xavier – Domingos da Silva Paranhos – Joze Martinz Bandeira – Francisco Joze da Gouvea – Pedro Alexandrino Soares – Jozê Antonio de Castro – Antonio Rodrigues Mendes”. (Arq. Sta. Casa de Misericórdia, folhas 237v-238r).               

À luz deste documento e depois de ter-se estudado exaustivamente as peças funcionais existentes na parte alta do altar mor e, particularmente, o anverso do mesmo, se pode assegurar que o costume de expor o Santíssimo Sacramento na parte alta do retábulo, é muito anterior a confecção do atual. Quiçá se remonte a 1695 quando o mestre entalhador Manuel Pereira “fez novas obras no retábulo anterior”, já que possuía um quadro da Visitação de dimensões ou formato insuficiente para a “boca do retábulo novo”, que não era outra coisa que a abertura da parte alta, onde a obra se alternava com a exposição do Santíssimo Sacramento. Quando se construiu o novo altar se continuou tal costume e este, ao mesmo tempo, recebeu o novo quadro da Visitação.  Isto se elucida devido à evidente existência de um painel móvel com a forma na qual a pintura que se realizou para o altar ia encaixada e, em seu lugar se aplicava outra tábua na que se sustentava a peanha. É provável que o antigo quadro que “se achava danificado, rotto, e com pintura muito antiga, além de ser muito curto e não encher toda a boca do retabulo novo” (Doc. 9 de Abril de 1777) não tivesse o formato dado à nova por José Joaquim da Rocha. Porém o mecanismo era o mesmo que o usado anteriormente e até é possível que a escada seja a mesma. Isto se infere pelo estado caótico das madeiras, muito diferenciado das que compõem o altar (foto 037).

A foto 038 mostra o frontis do altar “novo”. Na parte alta se vê a peanha, onde atualmente permanece a imagem policromada da Virgem, e antigamente também servia para apresentar o Santíssimo Sacramento durante os rituais da Semana Santa. Em torno ao requadro pode-se ver a forma do painel onde se expunha a obra de José Joaquim da Rocha (flechas). No revés do retábulo se percebe a forma onde se encaixava o quadro. E nas fotos 039, 040, 041 e 042 as flechas cinza indicam as laterais da área que era retirada para instalar o quadro, as brancas a forma da beirada superior, as pretas os locais em que existiram as duas tramelas e a amarela, graças a perda de uma das duas pequenas tábuas que completam a parte alta, se pode ver o encaixe. Na última foto pode ver-se a peanha. A funcionalidade permitia retirar provisoriamente o quadro da Visitação durante o ofício de Corpus Christi, que é quando se expunha o Santíssimo Sacramento, ou seja, quando se colocava a tábua com a peanha. O ritual antigamente chamado do Pentecoste era celebrado cinqüenta dias depois da Páscoa do Cordeiro (entre 10 de Maio e 13 de Junho, segundo se refere nos Fatos dos Apóstolos - Cap. II). Concluída a cerimônia, que por vezes durava vários dias, se restituía o quadro que exaltava à Santa Isabel. O altar condizia com o símbolo da Ave Maria, com o quadro da Visitação, com a cartela confeccionada em granulito de Portugal e com o próprio nome do Hospital. Observe-se que a peanha se encontra sumamente carcomida por cupins. Na foto 043 se vê a relativamente pequena imagem da Virgem que atualmente ocupa esse dossel, substituindo o quadro da Visitação. Para este quadro, em Agosto de 1849, segundo consta nos documentos, “a Santa Casa pagou 9$600 por huma caixa de madeira para nella se guardar o painel novo da Vesitação”. Na atualidade, só existe o quadro pintado em 1780, destinado ao altar, para o qual o pintor não teria posto marco algum, porém para a cópia nova o próprio pintor confeccionou uma formosa moldura em cedro com ornatos vazados e ricamente dourada, condizente com a importância do quadro. Na foto 044 que mostra a obra já restaurada, se observa o belíssimo quadro da Visitação de Nossa Senhora a sua prima-irmã Santa Isabel, que profere as palavras sacras do“Ave Maria”. As fotos permitem apreciar alguns passos da restauração do quadro com sua moldura. Na foto 045 se vê a obra antes da restauração. Em 046, 047, 048 e 049 se observam alguns estágios da intervenção na figura de Santa Isabel. Nelas se vê a remoção de plastes velhos e pintura apócrifa. Na segunda foto, com luz ultravioleta de onda medianamente curta, se observam emassados que cobriam algumas quebraduras (observe-se a diferença no óleo), e na última se vê a zona depois do restauro. A figura de São Zacarias, com repinte estimado em 90% , o que pode ser apreciado na seqüência 050, 051, 052 e 053. Começa esta com a zona antes da restauração e, a seguir, se vê o começo da remoção da repintura (note-se a diferença na barba e cabelo). Na foto seguinte se pode ver a área já liberada dos estratos agregados e na última, depois da restauração. A intervenção na figura da Virgem Maria se observa nas fotos 054, 055 e 056. Na primeira se destaca o andamento do trabalho. Pode ver-se a diferença entre o nimbo original que vai aparecendo a esquerda e a repintura burda da direita. Na segunda foto se vê a imagem depois de restaurada e na terceira, um detalhe da paisagem do entorno. Nas fotos 057, 058 e 059 pode ver-se o processo na figura do Santo Padre (perceba-se as dessemelhanças na pintura do resplendor do Espírito Santo). As fotos 060 e 061 mostram o cajado e a posição da mão de São José antes e depois de ser recuperada a pintura original. Nas fotos 062, 063 e 064 se vêem a mão se Santa Izabel, a arquitetura e um pé do querubim. Em 065 e 066 se vê São José antes e depois do restauro, em 067 e 068 o processo de remoção do verniz descomposto do rosto de um querubim e em 069 detalhes do chassis antigo e do novo.

Na foto 070 se vê a montagem da obra já reentelada e no det. 071 o revés do coroamento da moldura antes da consolidação. As fotos 072, 073 e 074 mostram detalhes da intervenção: consolidação, talhado das partes perdidas e douração, e nas 075 e 076 se vê o sistema de sustentação feito especialmente em bronze.

Para ter uma idéia da motivação do Concílio de Trento em preocupar-se pela leitura nos templos, há que se transladar ao tempo em que faltavam muitos anos para que se descobrisse uma técnica que solucionasse o problema da escuridão. A claridade aproveitável para a leitura, não somente nas colônias como também na própria Europa, estava limitada pelas horas de luz natural. Prescindindo das lâmpadas de óleo, de azeites e dos tocheiros de archotes ou fachos que durante o começo do s.XVIII ainda se usavam, pode assegura-se que durante todo o Renascimento não se realizou progresso algum na iluminação artificial privada ou pública. Era esta irregular, e nas colônias muito mais escassa que no tempo do Império Romano. Ao escurecer cerravam-se as casas e tudo ficava na escuridão. Nas igrejas, além do velador de azeite, que indicava a permanente presença de Deus no altar e raramente em algum oratório, se acendia uma lanterna de campanário, ou seja, iluminava algum ex-voto. Na Congregação Mariana da Bahia que assumia a invocação de Nossa Senhora da Paz, no ano de 1617, oferecia uma lâmpada suspensa de prata “para estar acessa em certos tempos no altar da Mãe de Deus” (Brasília 8, 228v-Leite X, pág.342). O toque de oração anunciava o Ângelus (que na época somente se rezava à caída da tarde). As ruas sumidas nas trevas da noite, em que a lua era sempre bem vinda, ficavam a mercê dos bandidos. Estes espreitavam o cidadão que por necessidade se via obrigado a sair de noite.  As lanternas de mão eram o único meio de que os particulares dispunham. Consistiam em caixinhas armadas com telas, dentro das quais, uma base servia de sustentação a uma pequena lâmpada de azeite com uma torcida de algodão. Mais adiante, com a fabricação de velas, estas eram envoltas num cone de papel que as resguardavam do vento. A partir do s.XVI apareceram em algumas esquinas principais da cidade os faróis públicos e alguns vizinhos ricos colocavam enormes tocheiros de cera sobre candeeiros de cobre. Outra manifestação que requeria iluminação prolongada era o rito do Círio Pascal, que consistia numa vela de dimensões diferenciadas, que permanecia acessa por vários dias. Também para a sinalização da navegação, nunca se economizaram lâmpadas e nem combustíveis. Quando, em 15 de Abril de 1624, o governador Diogo Mendonça Furtado preparava a artilharia para defender a cidade da esquadra holandesa, por recado vindo do morro de São Paulo, teve a notícia que durante a noite do dia 10, havia sido avistada uma nave solitária. “por a dita nave fazer farol” o governador soube que a armada em pleno estava por perto e pronto atacaria. De fato, entrada a noite de 7 de Maio, 26 naus com 10 lanchas e batéis ingressavam na baía (Doc. Leite - 15 de Abril de 1624).

            Durante a primeira época, os colonos abastados compravam azeite, tanto de oliveira trazido da Europa como ordinário, enquanto as igrejas o recebiam como esmola de El-Rei, do mesmo modo que a cera de boa qualidade.  Como o anunciava Nóbrega, já contavam com cera da terra em abundância”. Em outra parte se lê: “Muchas vezes vienem muitos índios com grandes presentes de venados y gallinas, peces cera e mel a los sacerdotes a pedirles que los bapticem ...”  (Carta de P. Leonardo Nunes ao P. Nóbrega - São Vicente - 29 de Junho de 1552). Freqüentemente, os azeites eram salgados para que os pavios acrescentassem fulgência à luz. Também se usaram gomo-resinas que se queimavam nos turíbulos durante os festejos. O próprio incenso, que primitivamente era trazido da Guiné ou das costas somalis, era produzido pelas espécies vegetais Bowelia sacra e B. papyrífera, as quais os jesuítas nomeavam olibantum. Posteriormente estes produtos foram trocados pela resina de molle, um arbusto autóctone da pré-cordilheira dos Andes, desde a Patagônia até o Vice-Reinado do Peru. Esta substância, cuja fragrância ao ser queimada, se confunde com o incenso da Guiné, que resultava mais oneroso e por vezes escasseava, se usava nos turíbulos para a defumação. As fotos 077, 078, 079 e 080 mostram a planta, a gomo-resina e os frutos do molle e, e nas 081 e 082 se vê uma gomo-resina negra, fruto de outra espécie de molle que produz idêntica fragrância.  As secreções do arbusto Schinus molle L., que é a matéria resinosa, também chamada “balsamo das missões”, é produzida pela picada de um inseto nas ramas do molle. Como esse inseto somente existe nas zonas pré-cordilheiranas, de nada valeu adaptar a planta ao clima atlântico, onde as mudas trazidas do Peru chegavam a uma vitalidade notável. A diferença é que nos terrenos arenosos e climas secos da cordilheira, as plantas são de cor verde cinza. Mas isso não bastava, faltava a picada do coccídio, que não existia nestas costas, para gerar a resina. Além disso, nas festividades se usaram tocheiros feitos com segmentos de paus de algumas plantas resinosas como o ipê, que depois de ter seu extremo acendido produz uma chama constante. Ipê é uma abreviação dos dialetos tupis ipeuna ou ipeperoba, também chamada tagib, tagiba ou lapacho nas missões do Guayrá. (Cartas Annuas das Missões Guaraníticas de Loreto e San Ignácio Míni - 1641-1643).  Mas, talvez seja mais adequado o nome dado pelos colonos: “palo candeia”. Desde que chegaram, os lusitanos entenderam a mensagem dos índios sobre a prevenção dos incêndios que devastavam suas tabas. Bem sabiam que o alumiar com as grandes tochas acendidas tinha que ser condicionado a uma vigilância permanente (Arquivo Jesuíta Padre Furlong - 1644). Precisamente para contestar a tendência a confundir as festas e serviços litúrgicos com rituais romanos (lupercales, as festas de Ceres e outras manifestações místicas), foi que a igreja católica instituiu a festa da Candelária (Nossa Senhora da Candelária ou das Candeias). Talvez, as imagens desta Nossa Senhora tenham sido as mais iluminadas. Dentro da Congregação Mariana a exaltação de Nossa Senhora das Candeias, alcançou grande relevância no Brasil. Sua festa se celebrava com oitavário o dia 2 de Fevereiro, dia da Purificação, quando se fazia procissão solene com candeias benzidas, que eram levadas durante a missa. Na solenidade dos templos, excepcionalmente se usavam tenebrários de até 10 velas. A luz lateral destes castiçais característicos era vertical e plana, o que proporcionava uma luz particular que realçava as formas e as efígies, com notáveis claroscuros. Esta circunstância inspirou a pintura tenebrista preferida pelo Concilium Tridentino, em seu esforço por apresentar uma imaginária mais real, “pisando a terra”, E dizer, contrariando o maneirismo que apresentava as figuras em posições instáveis com fundos etéreos. Na atualidade se conserva um magnífico tenebrário de treze velas grandes no Museu da Catedral da Bahia (foto 083). Estes lampadários foram muito utilizados durante a colônia para o ritual do Ofício das Trevas. A igreja ficava em penumbra, iluminada por um destes artefatos e, a medida que se liam os salmos, que consistem em um conjunto de lamentações e preces, as velas uma a uma iam-se apagando até a obscuridade total. A preferência pelo tenebrismo manifestada em Trento, também influiu nos pintores brasileiros, que se adaptaram a essa tendência. Na Santa Casa, se manifestou no forro da nave e nos artesões do forro renascentista da sacristia, onde o pintor João Álvares Correia deixou obras notáveis dessa escola. O artista trabalhou nela entre 1668-1670, isso se desprende de um documento do arquivo da Casa onde se constata que em 3 de Julho de 1699, a Santa Casa pagou 46$000 ao “pintor [João] Álvares Correia por conta da pintura que faz no forro da sacristia”.

A partir de um conceito histórico o termo “maneirismo” se aplicou desde o final do s.XVIII para se referir ao caráter das obras produzidas por artistas, que a partir dos finais do s.XVI alteraram os ensinamentos dos maestros renascentistas. A idéia derivada dos estudos vaticanos levados a cabo pelo arqueólogo Gian Pietro Bellori quem ostentava o título, concedido pelo papa Clemente X, de “Antiquário da Cidade de Roma”. Em seu estudo “Vite de Pittori scultori ed archittetti moderni” (1672). Bellori marca a “diferenciação entre a experiência da arte seguindo a natura, e a produção influenciada pela maneira” (...) “que favorecia as figuras femininas e, em nada, as masculinas”. Passado o momento das interpretações ligeiras alimentadas durante o s.XVI e ante a reavaliação das linhas artísticas da época, o conceito maneira deixa de ser adjudicado a tal ou qual “estilo” individualizando-se como tendência pictórica.

Esta inclinação que irrompe durante o período renascentista, como um movimento sólido e amplo, que envolve todos os estamentos das Artes do pincel, se termina transferindo para o Barroco, sem antes sofrer a poderosa influência da antimaneira, impulsada pelo Vaticano.  Pode-se dizer que, ante o enfoque analítico contemporâneo, o maneirismo aparece independente do renascentismo.

O maneirismo e o tenebrismo foram empregados na arte religiosa com o intuito de exaltar o sentimento dos fiéis, mas em diferentes sentidos: o primeiro foi adotado buscando no refinamento do etéreo ou do “vaporoso”, e na sutileza da máxima passividade, o sossego necessário para a concentração. Aplicou-se em todas as pinturas ornamentais e também nos quadros dos santos. Pelo contrário, o tenebrismo tendia a exaltar a emoção, a dor, o pesar, a tristeza e a aflição, e foi assumido pela pintura de imagens principais, sendo que raramente aparece em figuras meramente decorativas.  Portanto, o maneirismo e o tenebrismo são modalidades de pintura que, de não mediar uma grande imaginação, não podem ser transladados ao campo da Arquitetura. No entanto, alguns autores, fazendo uso de uma visão mirabolante descobrem a presença de linhas sepertinatas próprias da “maneira”, por exemplo, em uma coluna espiralada ou salomônica. Tanto um como o outro estilo, estão restritos a arte pictórica e se torna difícil não relaciona-los com as figuras compositivas da pintura, especialmente, com as humanas e circunstancialmente com as de animais. Ambos termos: maneirismo e tenebrismo em certos momentos e por desconhecimento, foram considerados pejorativos: o primeiro por excesso de refinamento que chegava a colocar os temas importantes fora do centro do mapa estrutural da obra, e o tenebrismo porque as pinturas eram consideradas “tenebrosas”, ou seja, que exageravam no simples realismo dramatizado para “reacionar”, segundo diziam, contra o intelectualismo. A antinomia se gera nas mudanças drásticas da política, imposta, na época pelo Vaticano. O maneirismo apresentava uma certa morbidez e sensualidade manifestada veladamente no estudo do desnudo, a coloração insinuante e o alargamento das figuras que se apresentavam levemente curvadas em espaldas, cadeiras e extremidades, dando a impressão de movimentos suaves. O figurativismo se encontrava, como pensavam seus incentivadores, sumamente intelectualizado, como longe do expectador e sem pretender transmitir a personalidade dos personagens representados. A nova disciplina “moralizadora” da igreja, encarnada pelo tenebrismo sob o nome de caravagismo, se fazia presente mesmo antes da difusão de dois tratados de pintura sacra de Ribera pelo Vaticano. A tendência era acentuar os contrastes determinados pela luz e as sombras, de modo que o iluminado fosse interrompido forçadamente pela escuridão. Também, se exagerou nas cores vermelhas das encarnações tendentes a transmitir dor e a exaltar as imagens e, particularmente, as dos Santos Mártires. Esta inclinação terminou gerando a contramaneira ou antimaneira, nos fins do s.XVII. O movimento suplantou, se bem que de modo não abrupto, ao maneirismo iniciado em 1520. Tendo em conta que, a luz transmite um grau de expressão significativo, se transforma em um fator simbólico no campo das artes plásticas sacras. A luz simbólica não só provoca o modelado do “volume”, assim como, atua como poder ativo da obra convertendo-se em matéria. A forte claridade se obtém por condições perceptuais, o objeto emerge de um mundo escuro pela relatividade, quanto maior a escuridão, mais brilhante se percebe os claros da zona iluminada. As sombras se concentram e se aprofundam, e a luz se retrai a seus limites ressaltando e destacando seu significativo simbólico. O tenebrismo trata de mudar a simbologia de certas tonalidades usadas em outros períodos para expressar determinados conteúdos e fazer que o mundo claro-escuro responda a significação que deseja transmitir. Alguns autores sustentam que estes preceitos deram fama e prestigio a Ribeira, cuja pintura serviu de exemplo para toda a igreja. Mas, na verdade, também lhe causaram o estancamento, prova disso é que as pinturas de sua última etapa na qual sua paleta se aclara são na atualidade, muito mais apreciadas. Ainda assim não deixam de ser representativas do tenebrismo.

Na Igreja de Santo Antonio, de Igarassú, (uma das duas igrejas mais antigas do Brasil), que foi uma das primeiras que tiveram seu altar reconstruído em estilo Barroco coexistiam a duas tendências. Além disso, como ocorreu em alguns casos, se empregou o claro-escuro do tenebrismo para as figuras maneiristas, que segundo se acredita, o templo teve o frontispício reconstruído por Frei Macário de São João, ou em seu estilo (foto 084). As fotos 085 e det. 086 mostram pinturas maneiristas do artesoado da galilé. Da mesma época, são as pinturas do artesonado no baixo-coro, na foto 087 se vê Nossa Senhora da Conceição que ainda possuindo linhas sepertinatas apresenta sombras sumamente intensas que destacam os claros provenientes de uma luz simbólica. Parte da vestimenta da Virgem (que ocupa o painel central) é de cor inadequadamente vermelha. Também, vermelho é o perizoma da magnífica imagem de Cristo que se encontra na parte alta do coro (foto 088).  Ao ser restaurada esta obra em 1999, se descobriu sob a cor branca do repinte, o vermelhão original, que surpreendeu por não condizer com a iconografia clássica mariana e cristã. Nas fotos 089, 090 e 091 se vê a remoção da pintura branca e o retoque.

Nos forros da Santa Casa convivem na atualidade as duas tendências: em um princípio, ainda que não usando cores decididamente sombrias, a pintura de João Álvares Correa revelou uma forte inclinação ao tenebrismo. Entretanto a palheta do Salão Nobre, devida à Simões Ribeiro, extravasa a sensação colorista com nuances venezistas, que modelam suavemente as figuras severas dos santos, as delicadas donzelas iluminadas pela atmosfera da natureza e as linhas espontâneas do mestre recém-chegado de Portugal.

O notável crítico de arte Lionello Venturi se refere ao momento pictórico dizendo : “o mais brilhante e, ao mesmo tempo, mais glorioso centro de pintura, não apenas de Itália mas também de toda Europa (...) foi sobretudo através de Veneza que o Settecentos se tornou grande”.(Le Origine della Pinttura Veneziana).

Pelo fato de que comumente os quadros religiosos não serem assinados, é difícil descobrir os autores das obras, sobretudo quando às disposições da época, para tornar as pinturas mais “realistas”, mudaram as palhetas. Isto se pode verificar na obra do beneditino alemão Frei Ricardo do Pilar que chegou ao Brasil, em 1660, e sua pintura mudou notoriamente durante os 40 anos que transcorreram até sua morte em 1702.

O historiador Reinaldo dos Santos, na sua Conferência de Artes de Lisboa (1943), disse: “quando passemos ao século XVII tudo se adoçara; mas a estrutura do retrato torna-se frouxa e amaneira-se sob os influxos mal assimilados da Itália e da França. É então que reconhecemos o que havia de caráter na Arte do s.XVII, sobretudo quando consideramos a par da pintura e da Maior parte das artes decorativas, a própria literatura seiscentista em que lampeja o gênio sem par de Antonio Vieira. A Arte do s.XVII, ostentara outra riqueza, outra magnificência; mais a do s.XVII teve mais caráter e exprimiu com mais fidelidade o fundo da sensibilidade nacional” (Leite, Monumenta Brasiliæ, IV, pág.56).

Depois da chegada, em 1601, do governador geral Diogo Botelho que mostrava disposição para o progresso à custa de restringir de vez, a liberdade dos índios (Portaria do Governador Antônio Telles da Silva - 1642), se instalou um grupo de arpoadores de baleias, procedente de Viscaya, primeiro em Recife de onde pouco tempo depois passou a Bahia, estabelecendo-se na Ilha de Itaparica. Então o recôncavo, como todas as grandes entrâncias da costa atlântica, era um lugar de procriação dos grandes e cobiçados cetáceos, sobretudo porque a casa deles ainda não era gravada por imposto algum. O grupo que chegara em 1602 a cargo de Pedro Orecha, operava com suas duas naves. Prontamente, não só a iluminação das casas melhorou muito, senão também toda a indústria, e, por conseguinte a economia, que se viu favorecida ao se começar a usar lâmpadas alimentadas com espermaceti (azeite extraído da cabeça dos cetáceos). Barato, abundante e no duplo pavio dos queimadores proporcionava uma luz branca que superava a de outros combustíveis líquidos, usados até o momento na Bahia.

Somente nas atas da Camara de Vereações, de 1642 (livro I-1641-1642), aparece um documento que testifica que as “pescarias das baleias estão rematados per três anos em preso de catorze mil e quinhentos cruzados  sae cada anno hum cont[o] e ojto sentos mil reis e sesenta e seis mil reis [seis] centos [e] sesenta [e] seis reis---1 quonto 866U” (Sebastião da Rocha Pitta – Escrivão da Câmara) (Ata da Câmara de Senadores, Livro I – 141-2, Bahia).       

Aproximadamente, em 1665, surge nas ruas empedradas, a figura do “sereno”, mítico personagem, cujo importante serviço no princípio foi custeado pelos vizinhos. Na prática era um faroleiro que carregando uma escada mantinha acessos os faróis de azeite ou graxa de toda a cidade. Aqui esta função foi acrescentada com o pregão que anunciava cada hora, durante a noite.

O Hospital da Misericórdia aparece nas plantas mais antigas da cidade, junto à parte externa da porta do Carmo, ou seja, é tão antigo quanto à própria cidade. Da igreja do Hospital se possui dados menos exatos, mas um documento é verdadeiramente eloqüente: No Tratado Descritivo do Brasil, pág.135, (1587), Gabriel Soares de Sousa, relata que “em 1584 a igreja do hospital não era grande mais mui bem acabada e ornamentada”. Com respeito ao hospital diz: que se não tem grandes oficinas e enfermarias e por ser muito pobre e não ter nenhuma renda de S. Majestade, nem pessoas particulares e sustenta-se sòmente de esmolas que lhe fazem os moradores da terra, que são muitas, mas são as necessidades mais por a muita gente de mar e degredados que dêstes reinos vão muitos pobres, os quais em sua necessidade não tem outro remédio que o que esta Casa dá, cujas esmolas importam cada ano três mil cruzados pouco mais ou menos, que se gastam com muita ordem na cura dos enfermos e remédios dos necessitados”  (Ott, A Santa Casa de Misericórdia da Cidade do Salvador, pág.20).           

 Em 1654, se fez imprescindível à intervenção de um grande mestre arquiteto porque resulta muito mais complicado realizar uma modificação monumental que começar desde os alicerces. É quando a Santa Casa requereu o serviço do genial beneditino Padre Frei Macário de São João. “O Provedor (Antônio da Silva Pimentel) e Irmãos em Mesa e foi assentado que fossem ---- officiaes que o entendessem ---- e pedião ---- supplicantes, e conformes o que vissem e fizesse com elles novo concerto em comprimento de que o dito Provedor se aconselhou com o Pe. Fr. Macario Religioso de São Bento ------ Alvares assentarão que na forma da trassa (desenho) o contracto feito tinha grande ingano contra os ------ della que ---- e pelas razões que derão os louvados assentou o dito Provedor com os ditos Francisco de Magalhães e Pedro da Fonseca, que as collumnas da porta inteiriças com suas bases e capital (capitel) assentadas na obra da maneira em que estão a trassa pagaria a Santa Casa por ellas quatrocentos mil reis, que são a cem mil reis por cada huma, e que toda a mais obra do frontespicio de talha, cartões (cartelas), e folhagem e de madeira corrida se medissem como se fosse cantaria lisa, medindo-se direita vão por cheio sem se medida pela cinta, e a moldura se medirá, também direita a plumo, e se verá as varas que tem o dito frontespicio, medido desta sorte e por cada vara assim medida se pagará aos ditos supplicantes a sete mil reis por vara, e de mais a mais do que valler o dito frontespicio assim medido se lhe darão duzentos cruzados por huma vez com tal declaração que a dita obra se há de fazer assim que a dita obra  se ha de fazer assim e da maneira que está na trassa, com o mesmo primor delicadeza que nella se ve, e de pedras muitos limpas e bem lavradas e com toda a diligencia e obreiros necessários e assistencia continua de dittos Mestres sem que facão falta e fazendo-o por culpa sua ...” (Arquivo da Sta Casa - 1654) (Revisar o documento de 1653, do Provedor Teixeira Gomes, que teve acesso a documentação 36 anos antes que Ott, talvez ainda menos danificada, já que a primeira parte da presente teve que se completar extraindo-a de uma cópia).     

Em 1720, com um custo calculado em quatro mil e quinhentos cruzados, na Santa Casa de Misericórdia da Bahia se começava a levantar o forro da nave da igreja. Logicamente que o projeto obrigava a construir um muro que praticamente duplicava a altura da nave, onde se abriram dez espaços para conter sendas janelas lucarnas de vidros transparentes, as quais se agregavam três aberturas no coro. Mas não era só isso, como conseqüência do acréscimo do pé direito da nave, teve-se que elevar também a frontaria e a agulha do campanário a qual ganhou uma curiosa balaustrada que influiria na nova caracterização da torre.

Agora se insinuava mais esbelta e com sua pirâmide recoberta por um mosaico de azulejos lisos, de cores brancas e celestes, artisticamente escalonadas. O termo de resolução para começar a obra da torre se assinou no dia 20 de Março de 1728, quando já se havia solicitado a fundição de dois sinos, “um grande que pesa 360 kg e um pequeno de 90 kg” (15 de Março de 1728) (Doc. Arq. Sta. Casa de Misericórdia-1728). As conseqüências do levantamento do teto resultaram na alteração da nave de acordo com cinco aspectos: 1) desproporção das dimensões interiores do recinto comprometendo a harmonia arquitetônica; 2) permanência da antiga cimalha de cantaria da nave, que ao não poder ser removida, ficou dividindo o pé direito dos muros; 3) desvirtuação dos painéis do forro artesoado que havendo sido pintados em estilo tenebrista para ser vistos a uma altura de 10.40m, agora estava a 14 m de distância do observador. Isto responde o porquê o autor não foi identificado. Ainda que existisse a possibilidade de os artesões haverem sido repintados, sugerem a autoria do mesmo João Álvares Correa, que segundo a historiadora Marieta Alves: “pediu admissão no quadro social da Santa Casa, em 12 de Abril de 1699”. O documento existente na Santa Casa corrobora que “no dia 12 de abril de 1699 foi admitido na Sta. Casa como Irmão de menor condição Joao Álvares Correa official de pintor filho do Licenciado Manoel Rodriguez e de sua mulher María Lizia, irmaos que foram desta Santa Caza, e por via materna neto de Jeronimo Coelho e de Lourença Correa, Irmaos que foram desta Santa Caza” (Arq. Sta. Casa fo.42v). No documento existente no arquivo da Ordem 3ª do Carmo aparece sua admissão em 22 de Novembro de 1697 e diz: “as deligencias do Suplicante morador na rua do paço do Carmo, “na forma do Capítulo 14 das nossas ........... e acharam ser cristão velho e limpo de toda a rassa, e ser de bom procedimento, oficial de pintor e dourador e não tem mais de ......... que ser filho natural” agrega que es “morador na rua do paço do Carmo”. A este mestre a Santa Casa deve a intervenção em trabalhos importantes, tanto de douração como de pintura sacra; 4) descaracterização dos artesões cujas nervuras foram abarrocadas. Engrossaram-se desproporcionalmente os painéis, cobrindo suas beiradas a ponto de encerrar as figuras. Esta desproporção entre as nervuras e as figuras dos artesões, deixa claro que os painéis não foram pintados para essa estrutura ornamental. E dizer que as nervuras se puseram em posição forçada sobre os painéis antigos, isto é, que depois de subir o forro a pintura pôde ter sido retocada, mas não pintada como se sustenta. Por outro lado, observando o forro pelo invés, nitidamente se vê que os ornamentos, desproporcionalmente largos, nada têm a ver com o tamanho das madeiras de base. As fotos  092 e 093 mostram os desajustes da peças e a posição forçada que afoga os painéis, cobrindo as beiradas pintadas.Algumas figuras têm partes cerceadas pelos ornatos; 5) criou-se a necessidade de compensar a altura do pé direito, com a dos altares das ombreiras do arco cruzeiro. Estes altares ficaram com uma altura de 7,45 m x 2,20 m de largo. Embora, o mais incrível da história consiste em que, no lugar de haver-se construído altares do “mesmo risco que o altar-mor”, como havia sido exigido e recalcado pela Mesa da Santa Casa, os fizeram de estilo Neoclássico, totalmente dissímil daquele que nitidamente era Rococó. No entanto, mais inaudito ainda é que quando foram concluídos os receberam conforme, sem percebê-lo (Doc. Sta Casa 18 de Janeiro de 1791).

O acréscimo no pé direito da nave, e, por conseguinte o redimensionamento dos muros laterais desta, que com a modificação ficaram horizontalmente divididos por duas cimalhas de cantaria de “brutesco”, apresentaram um busílis de não fácil decisão. Não obstante isso, a solução encontrada foi magistral: os grandes panos da superfície aumentada, foram integralmente decorados imitando mármore de diversas tonalidades cinzento-azuladas em veias e nuvens. Evidentemente o objeto era reduzir oticamente as áreas redimensionadas, sendo que pontualmente nos novos espaços que ficaram entre as lucarnas, sobre a cimalha alta de pedra, se pintaram ao tono, alegorias de simbologia eclesiástica e institucional, delicadamente pintadas. Cabe destacar que dificilmente se poderia haver encontrado um artifício que houvera atenuado melhor o inconveniente. Ante esta afirmação cabe perguntar qual seria a alternativa ou se existe alguma melhor. Os símbolos pintados que acompanham o nicho de Nossa Senhora, construído após o levantamento do forro, são o escudo da Santa Casa, em posição preferencial, e o do Vaticano (foto 094). A estes seguem uma interessante série de desenhos simbólicos de caracteres diferenciados, alguns dos quais são do Santo Padre, Maria Madre de Deus, Iesus Hominis Salvador, Espírito Santo, Carneiro que representa Cristo imolado e Símbolos das principais ordens católicas. As fotos 095 e 096 são um exemplo destas pinturas. A palavra brutesco ou grotesco se referia a técnica e não a “arte-grotesca” a qual nunca se valeu dessa técnica.

Como manifestação artística o grotesco é uma crítica impiedosa, inspirada principalmente nas obras de Bosco. Era uma arte adequada para destacar as injustiças da época que não eram poucas. Pelo tanto, a arte grotesca, sumamente criticada, estava manifestada na pintura e pequenas esculturas imortalizadas na arquitetura e móveis monacais que se restringem a uma época. A diferença do grotesco-arte, a técnica chamada de grotesco, que nunca deixou de ter vigência, não é uma manifestação artística, senão um meio técnico da Arte perfeitamente estudado, de que se vale da talha em pedra e outros materiais similares para realçar os valores arquitetônicos das obras pomposas. O grotesco ou brutesco de que falam os documentos coloniais sugere um aspecto táctil que pode ser diferenciado do entorno por sua textura. È, fundamentalmente, um importante recurso para valorizar a luz. Porém, a imitação perfeita destas texturas valendo-se da pintura, se torna sumamente dificultosa simplesmente porque na pintura a luz carece de mobilidade. Entende-se que a textura como os outros meios plásticos, é expressiva, significativa e por si transmite reações variáveis ao observador: as mesmas que um cinzelado ou um burilado em uma jóia ou uma escultura que foi talhada em mármore ou fundida em metal. Determina as alternâncias visuais que são valorizadas pelos artistas que levam a matéria a um nível superior ao que ela possui, aumentando o grau de contido a transmitir na sua obra. Tudo o que se vê se apresenta por três modalidades: forma, cor e textura. Esta última constitui um fenômeno visual capaz de modificar a maneira de ver a arte. Como fenômeno se fundamenta na existência de pequenos elementos justapostos que compõem entidades; a justaposição gera o estímulo retiniano necessário para a percepção da textura. Para isto acontecer devem cumprir-se rigorosas condições de regularidade: por exemplo, os pequenos elementos podem carecer de regularidade como a lixa, ou ser um conjunto contínuo como algo encrespado, ou um micro-ondeado (como o adotado de modo transversal na cantaria excelsa do interior da igreja da Santa Casa).

A foto 097 mostra a arcada de uma das tribunas da nave onde se aprecia o trabalho, que nas igrejas da Bahia somente existia nas obras de cantaria fina. No det. 098 e acercamento 099 se observam detalhes sumamente aprimorados. O grotesco simples se encontra nos silhares exteriores ou nas galerias. A foto 100 mostra silhares externos de uma conversadeira que tinha pertencido a antiga sacristia e que, com o acréscimo do retábulo passou a ser uma simples passagem, perdendo sua função. O grotesco é nesta cantaria despretensioso e, além disso, castigado pelos constantes alíseos e pela maresia. Na foto 101 se vê um grotesco ponteado clássico, pertencente às ombreiras das portas interiores da Santa Casa.

 

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